Canto IX
A aurora começava a esticar seus dedos pálidos sobre o horizonte oriental, desprendendo-se dos braços de seu amante milenar para tingir o céu com um brilho leitoso. Acima dela, o brilho frio das estrelas desenhava a constelação do Escorpião, uma joia perigosa cravejada no manto da noite que já recuava, cedendo terreno ao dia que nascia. Eu estava exausto. O peso da minha herança mortal — essa carne feita de Adão — finalmente cobrou seu preço, e eu desabei sobre a grama macia do vale onde o tempo parecia ter desacelerado. Éramos cinco ali, envoltos no silêncio pesado da montanha, mas o sono me levou antes que a última estrela desaparecesse.
Perto do amanhecer, naquela hora em que os sonhos deixam de ser meras ilusões e se tornam presságios quase divinos, tive uma visão que acelerou meu pulso. Uma águia de plumagem dourada pairava no céu, com as asas imensas abertas, pronta para o bote. Parecia a mesma criatura que outrora arrebatou Ganimedes para o topo do Olimpo. Enquanto eu tentava processar o medo, a águia circulou brevemente e, com a velocidade de um raio, mergulhou sobre mim. Senti o impacto, o ar sendo arrancado dos meus pulmões enquanto éramos lançados em direção a uma esfera de fogo. O calor era tão intenso, tão real, que a sensação de estar queimando rompeu as correntes do meu sono.
Acordei em um sobressalto, o coração martelando contra as costelas como o de um animal enjaulado. Olhei ao redor, desorientado, sentindo o mesmo pavor que o jovem Aquiles deve ter sentido ao despertar em uma terra estranha após ser levado pela mãe. O sol já subira mais de duas horas no céu e a brisa marinha batia no meu rosto, mas a imensidão azul diante de mim não trazia conforto — até que vi Virgílio.
“Não tenha medo”, disse ele, com uma voz que era um porto seguro em meio ao meu caos interno. “Recupere suas forças. Finalmente chegamos ao Purgatório propriamente dito. Veja ali a encosta que nos cerca e, logo adiante, aquela fenda na rocha. É a entrada.”
Ele me explicou o que ocorrera enquanto eu estava entregue à inconsciência. No alvorecer, uma mulher chamada Lúcia apareceu diante dele, entre as flores do vale, pedindo para me levar e facilitar minha jornada. Virgílio a seguiu enquanto ela me carregava nos braços, subindo a encosta íngreme com uma leveza sobrenatural. Ela me depositou ali, exatamente onde eu estava, e com um olhar indicou o portal antes de desaparecer com o próprio sono. Ao ouvir isso, meu medo se transformou em uma determinação renovada. Levantei-me, e meu guia, percebendo que eu estava pronto, começou a subir pela encosta, comigo logo atrás, em direção àquela abertura que parecia uma ferida na pedra viva.
À medida que nos aproximávamos, a fenda revelou-se um portal monumental. Abaixo dele, três degraus levavam à entrada, cada um com uma cor e textura que pareciam gritar um significado profundo. O primeiro era de mármore branco, tão polido e límpido que vi meu próprio rosto refletido nele com uma clareza desconcertante — um espelho da alma. O segundo era de uma pedra escura, quase negra, de superfície áspera e queimada, marcada por rachaduras profundas que formavam uma cruz. O terceiro degrau, que se assentava no topo, era de um pórfiro vermelho flamejante, tão intenso que lembrava o sangue pulsando de uma ferida aberta.
No topo desse último degrau, sentado sobre o limiar de uma pedra que brilhava como diamante puro, estava o guardião. Sua face era de um brilho insuportável para os meus olhos mortais, e em sua mão ele empunhava uma espada nua que refletia a luz do sol com tamanha força que eu mal conseguia olhar em sua direção.
“Parem onde estão!”, sua voz ecoou com autoridade. “O que buscam? Onde está o guia de vocês? Cuidado para que esta subida não se torne sua ruína.”
Virgílio, com a calma de quem conhece as leis do alto, respondeu prontamente: “Uma dama do céu nos instruiu a vir até aqui. Ela disse: ‘Vão, ali está a porta’.”
O guardião relaxou sua postura, tornando-se subitamente cortês. “Que ela ajude seus passos no caminho do bem. Aproximem-se dos degraus.”
Subi os três degraus com um misto de reverência e urgência. No topo, joguei-me aos pés do anjo, batendo no peito três vezes em sinal de arrependimento e implorando por misericórdia. Com a ponta daquela espada flamejante, ele desenhou sete vezes a letra ‘P’ na minha testa. “Certifique-se de lavar essas feridas quando estiver lá dentro”, ele ordenou, com uma gravidade que arrepiou minha pele.
Ele então retirou duas chaves de sob suas vestes, que tinham a cor cinza da cinza ou da terra seca. Uma era de ouro e a outra de prata. Primeiro com a branca, depois com a amarela, ele operou o mecanismo da porta. “Se uma dessas chaves falhar e não girar perfeitamente na fechadura, esta passagem permanece selada”, explicou. “A de ouro é mais preciosa, mas a de prata exige uma técnica e um intelecto superiores para desatar o nó da alma. Eu as recebi de Pedro; ele me disse para preferir abrir a porta por engano do que mantê-la fechada, desde que as pessoas se prostrem diante de mim.”
Ele empurrou os batentes sagrados, que rangeram com um som metálico e ensurdecedor, mais alto do que qualquer portão de fortaleza humana já ousou emitir. “Entrem”, ele disse, “mas fiquem avisados: quem olhar para trás voltará para o lado de fora.”
Ao cruzar o limiar, o som do portão se fechando foi abafado por uma melodia que parecia vir de todos os lugares ao mesmo tempo. Era o Te Deum laudamus, uma harmonia de vozes que se misturava a um som doce e profundo, como se estivéssemos em uma catedral imensa onde o órgão e o coro se fundem, e as palavras ora se perdem, ora se revelam, capturando perfeitamente a essência da esperança que agora pulsava em minhas veias. Estávamos dentro. A purificação havia começado.