Canto VIII
A luz do dia estava morrendo, e com ela vinha aquela melancolia avassaladora que aperta o peito de qualquer viajante. É o momento exato em que a saudade dos amigos deixados para trás se torna quase física, uma fisgada no coração que ressoa como o badalar de um sino distante, chorando por um dia que não volta mais. Eu estava exausto, meus músculos ainda latejavam pela subida constante, mas algo me fez esquecer a fadiga. Uma das almas ali presentes se ergueu, pedindo silêncio com um gesto contido. Ela uniu as palmas das mãos, os olhos fixos no Oriente, em um transe de devoção absoluta que parecia dizer: Nada mais importa, além de Ti.
Quando as primeiras notas de Te lucis ante escaparam de seus lábios, o som era tão doce, tão absurdamente puro, que eu me senti flutuar, esquecendo meu próprio corpo. As outras almas a seguiram em coro, uma harmonia hipnótica com os olhos voltados para as esferas celestiais. O clima mudou. Havia uma expectativa vibrante no ar, uma tensão sagrada. Fique atento agora, porque a verdade aqui se esconde sob um véu tão fino que qualquer um pode atravessá-lo se olhar com atenção.
Do alto, vi algo que desafiava a lógica: dois anjos descendo como raios de luz, empunhando espadas flamejantes. Mas havia um detalhe intrigante: as pontas das lâminas haviam sido decepadas. Eles vestiam túnicas de um verde mais vibrante que folhas recém-nascidas, que esvoaçavam sob o bater de suas asas esmeralda. Um deles pairou logo acima de nós, enquanto o outro pousou na margem oposta, mantendo todos nós protegidos no centro. Eu conseguia ver seus cabelos loiros brilhando, mas seus rostos… eram luz pura, um clarão que cegava qualquer tentativa de contato visual direto, como se meus sentidos entrassem em curto-circuito.
“Eles vieram do colo de Maria”, Sordello sussurrou ao meu lado, sua voz carregada de uma gravidade que me arrepiou. “Estão aqui para guardar o vale contra a serpente que aparecerá a qualquer momento.”
Senti um frio súbito subir pela espinha. Sem pensar, recuei e me encostei nos ombros confiáveis de Virgílio, buscando proteção. Sordello, porém, não nos deixou parados. “Vamos descer agora e falar com as grandes sombras. Elas ficarão felizes em ver vocês.”
Bastaram três passos para que eu estivesse no fundo do vale. No lusco-fusco, percebi um homem que me encarava fixamente, como se tentasse decifrar meu rosto. O ar estava escuro, mas não o suficiente para esconder o reconhecimento que brilhou em seus olhos. Avancei em sua direção e ele na minha. “Juiz Nino!”, quase exclamei, sentindo uma onda de alívio por não encontrá-lo entre os perdidos. Trocamos cumprimentos calorosos, a camaradagem de quem compartilha a mesma essência moral.
“Há quanto tempo você chegou ao pé da montanha vindo das águas distantes?”, ele perguntou, curioso.
“Cheguei esta manhã”, respondi, sentindo o peso da minha mortalidade. “Ainda estou na minha primeira vida, embora espere conquistar a próxima através desta jornada.”
No momento em que revelei que ainda possuía um corpo de carne e osso, Sordello e Nino recuaram um passo, em choque. Nino se virou para outra alma que estava sentada por perto e gritou: “Acorde, Conrado! Venha ver o que a graça de Deus permitiu!”. Depois, voltando-se para mim com um olhar suplicante, pediu que, quando eu retornasse ao mundo dos vivos, pedisse à sua filha, Joana, que rezasse por ele. Ele falou com uma ponta de amargura sobre sua ex-mulher, que já havia trocado o luto por um novo casamento, sugerindo que o fogo do amor feminino apaga rápido quando o toque e o olhar não estão presentes. Havia um zelo justo em suas palavras, uma dignidade ferida que queimava de forma controlada em seu peito.
Meus olhos, porém, foram atraídos para cima, para o céu onde as estrelas giravam mais lentamente, perto do polo. “Filho, o que você está procurando lá no alto?”, perguntou Virgílio, percebendo minha distração.
“Aquelas três tochas ali”, respondi, apontando para três estrelas que faziam o polo arder em brilho.
“As quatro estrelas brilhantes que você viu hoje cedo baixaram”, explicou ele, “e estas três subiram para ocupar o lugar delas.”
Enquanto ele falava, Sordello me puxou pelo braço. “Olhe! Lá está o nosso adversário!” Ele apontou para o lado desprotegido do vale. Uma serpente, talvez a mesma que ofereceu o fruto amargo a Eva, deslizava por entre a grama e as flores, lambendo o próprio dorso com uma elegância sinistra.
Não vi exatamente como os falcões celestiais se moveram, mas senti o ar ser rasgado por suas asas verdes. Diante da investida angelical, a serpente fugiu em um piscar de olhos. Os anjos voltaram para seus postos com uma precisão militar, voando em sincronia.
Durante todo o ataque, a sombra que Nino chamara — Conrado Malaspina — não parou de me observar. “Se a luz que te guia encontrar combustível suficiente na tua vontade para chegar ao topo”, começou ele, com uma voz firme, “diga-me se tem notícias do Vale de Magra. Eu fui um Malaspina. Não o antigo, mas um descendente. O amor que dediquei aos meus, aqui se purifica.”
“Eu nunca estive em suas terras”, respondi com sinceridade, “mas quem na Europa não conhece o nome Malaspina? A fama de sua casa é tão grande que até quem nunca pisou lá sabe da sua honra. Juro por minha jornada: sua linhagem não perdeu o prestígio da espada nem a generosidade da bolsa. Vocês caminham retos enquanto o resto do mundo se desvia.”
Conrado sorriu, mas era um sorriso carregado de uma profecia sombria. “Vá em frente. Mas saiba que o sol não voltará a descansar sete vezes no signo de Áries antes que essa sua opinião cortês seja pregada na sua cabeça com pregos mais fortes do que simples palavras… a menos que o curso do destino seja interrompido.”
Aquelas palavras pairaram no ar, um enigma sobre o meu próprio futuro, enquanto o silêncio do Purgatório voltava a se fechar sobre nós.