Canto VII
Depois que as saudações e os abraços de Sordello e Virgílio se repetiram por três ou quatro vezes — um choque de reconhecimento entre almas separadas por séculos, mas unidas pela mesma terra mantuana — Sordello finalmente recuou um passo, os olhos fixos em nós, a curiosidade gravada em sua face etérea. “Mas digam-me, quem são vocês?”, ele perguntou, e sua voz ressoou com uma urgência que parecia vibrar no ar rarefeito da montanha.
Virgílio não hesitou. Ele se manteve ereto, com aquela dignidade silenciosa que sempre me fascinava, e respondeu com uma clareza que cortava o silêncio do Purgatório: “Antes que as almas dignas de subir a Deus fossem direcionadas a este monte, meus ossos foram enterrados por ordem de Otaviano. Eu sou Virgílio; e perdi o céu por nenhum outro crime senão o de não ter tido fé.”
O efeito foi instantâneo. Imagine alguém que, de repente, vê diante de si algo tão inacreditável que a mente entra em curto-circuito, oscilando entre o “é ele” e o “não pode ser”. Sordello empalideceu, baixou os olhos em sinal de profunda reverência e, num gesto de humildade quase desesperada, abraçou Virgílio pelos joelhos, onde o superior é tocado pelo inferior. “Ó glória dos latinos!”, exclamou ele, a voz embargada por uma emoção genuína. “Pelo qual nossa língua mostrou do que era capaz! Ó prestígio eterno do lugar de onde vim, que mérito ou que graça me permite ver-te? Se sou digno de ouvir tuas palavras, diz-me: vens do inferno? E de qual círculo?”.
Senti o peso das palavras de Virgílio enquanto ele explicava nossa jornada. Ele descreveu como cruzou todos os círculos do reino da dor, movido por uma virtude vinda do céu. “Não pelo que fiz, mas pelo que deixei de fazer, perdi a chance de ver o alto Sol que tu desejas”, disse meu guia, e havia uma melancolia profunda em seu tom. Ele descreveu o Limbo, seu lugar de morada, onde não há gritos de tortura, mas apenas o som constante de suspiros — um lugar de sombras habitado por crianças inocentes e por aqueles que, embora virtuosos, não conheceram as três virtudes santas que abrem as portas do paraíso. Mas o tempo rugia contra nós. Virgílio, sempre focado no objetivo, pediu a Sordello que nos mostrasse o caminho mais rápido para o início real do Purgatório.
Sordello, porém, trouxe uma revelação que gelou meu sangue: a noite estava caindo. “Não há um lugar fixo aqui”, explicou ele, “posso andar para cima e ao redor, mas subir a montanha após o pôr do sol é impossível”. Ele se agachou e traçou uma linha simples no chão com o dedo. “Vê? Você não cruzaria nem esta pequena marca depois que o sol partisse. Não que algo físico o impeça, mas a escuridão noturna rouba a vontade, enreda o desejo com a incapacidade de agir. Durante a noite, poderíamos apenas descer ou vagar sem rumo”.
A lógica era clara e simbólica: sem a luz da graça divina, o esforço humano estanca. Virgílio, admirado com aquela regra do monte, aceitou a sugestão de Sordello de buscarmos abrigo em um vale próximo, onde outras almas aguardavam.
Caminhamos pouco até que percebi uma depressão na encosta, como se uma parte da montanha tivesse sido escavada. Seguimos por um caminho inclinado que nos levou ao flanco de um vale profundo. O que vi a seguir foi uma explosão sensorial que desafiava qualquer descrição terrena. Se você misturasse ouro, prata fina, carmim, índaco e o verde de uma esmeralda recém-partida, nada chegaria perto das cores que brotavam daquela vegetação. A natureza ali não apenas pintava o cenário; ela exalava um perfume doce e desconhecido, uma fusão de mil fragrâncias que flutuavam no ar.
Sentadas sobre a relva e as flores, vozes invisíveis do lado de fora entoavam o Salve, Regina. Eram almas que, por suas posições de poder na Terra, agora buscavam a humildade naquele refúgio vibrante. Sordello nos deteve antes que entrássemos no vale. “Deste patamar, vocês poderão observar melhor os rostos e as ações de todos eles, antes que o sol se ponha de vez”, orientou.
Ele começou a apontar os grandes líderes da história, agora reduzidos a sombras reflexivas. Vi o imperador Rodolfo, que negligenciou as feridas da Itália, sentado ao lado daquele que pareceu confortá-lo, Otacar da Boêmia. Vi o “narigudo” Filipe III da França e Henrique I de Navarra, lamentando a vida viciada de seu descendente, o atual rei francês. A atmosfera era de uma melancolia majestosa. Sordello apontava cada um com a precisão de um historiador: Pedro III de Aragão cantando em harmonia com Carlos I de Anjou, apesar da rivalidade que os consumiu em vida.
Havia uma lição silenciosa ali, entre as flores e o crepúsculo. A probidade humana raramente passa de pai para filho — Deus a concede diretamente para que o mérito seja reconhecido como um dom d’Ele. Vi o rei Henrique III da Inglaterra, sentado sozinho em sua simplicidade, e mais abaixo, o marquês Guilherme, cujo conflito em Alexandria ainda fazia o Monferrato chorar.
Enquanto as sombras se alongavam sobre o vale, a fadiga da jornada pesava em meus ombros, mas a visão daquela assembleia de reis arrependidos, unidos pela música e pela espera, trazia uma nova camada de compreensão. A redenção não era apenas sobre o sofrimento individual, mas sobre o reconhecimento do egoísmo passado diante da vastidão da eternidade. Ali, entre o perfume das flores e o eco dos hinos, aguardávamos a luz de um novo dia para desafiar a paralisia da noite e continuar nossa escalada rumo ao infinito.