Canto VI
Eu me sentia como o perdedor em um jogo de dados viciado. Sabe aquela sensação de ficar para trás, remoendo cada jogada errada enquanto a multidão se afasta celebrando o vencedor? Era exatamente assim. Eu estava cercado, sufocado por uma massa de almas ansiosas que me apertavam de todos os lados, cada uma clamando por um segundo da minha atenção, um fragmento de prece que pudesse acelerar sua subida naquela montanha impossível. Eu girava o rosto para a esquerda e para a direita, distribuindo promessas como quem tenta abrir caminho em uma saída de metrô lotada na hora do rush, apenas para conseguir um pouco de ar e seguir meu guia.
Ali, naquele turbilhão de rostos marcados pela tragédia, vi o aretino que encontrou o fim nas mãos brutais de Ghin di Tacco, e aquele outro que o destino tragou nas águas enquanto caçava. Vi Federico Novello implorando com as mãos estendidas e o jovem de Pisa, cujo sacrifício testou a força do próprio pai. Eram sombras de homens que carregavam o peso de mortes violentas, como o Conde Orso e aquela alma dilacerada pela inveja alheia — Pier da la Broccia, que faria bem em avisar os vivos sobre o perigo de falsos testemunhos antes que o tempo se esgote. Quando finalmente consegui me desvencilhar daquela pressão humana, meus músculos ainda ardiam, mas minha mente disparava em busca de respostas.
— Mestre — comecei, tentando recuperar o fôlego enquanto caminhávamos —, parece que você escreveu, em algum lugar, que as preces não podem dobrar os decretos do céu. Mas toda essa gente implora justamente por isso. A esperança deles é inútil ou eu é que não entendi nada do que você disse?
Virgílio me olhou com aquela calma milenar que sempre me desarmava. — Minha escrita é clara, Dante, e a esperança deles não é um erro se você olhar com a mente lúcida. O julgamento supremo não se rebaixa só porque o fogo do amor, em um instante, paga a dívida que essas almas acumularam aqui. No lugar onde escrevi aquilo, a prece estava desconectada de Deus. Mas não se prenda a essa dúvida agora. Espere por aquela que será a luz entre a sua inteligência e a verdade absoluta. Você a verá lá no topo, sorrindo, no ápice desta montanha.
— Beatrice — murmurei, e o nome agiu como uma injeção de adrenalina. — Senhor, vamos acelerar. Não sinto mais o peso de antes, e olhe, as sombras já começam a se alongar no solo.
Ele respondeu que avançaríamos o máximo possível, mas a realidade era mais complexa do que eu imaginava. Antes de chegarmos ao topo, o sol, que agora se escondia atrás da encosta, teria que nascer de novo. Mas, de repente, ele parou e apontou para uma figura solitária que nos observava à distância, imóvel como uma sentinela.
— Aquela alma ali vai nos mostrar o caminho mais rápido — disse ele.
Aproximamo-nos daquela sombra lombarda. Ela tinha uma postura altiva, quase desdenhosa, movendo os olhos com uma lentidão digna de um leão em repouso. Não disse uma palavra, apenas nos deixou chegar perto, mantendo uma distância majestosa. Mas, quando Virgílio pediu a melhor rota para a subida, a alma rompeu o silêncio. Não para responder sobre o caminho, mas para perguntar quem éramos e de onde vínhamos.
No momento em que meu guia pronunciou a palavra “Mântua”, aquela alma, antes tão contida e isolada, saltou em sua direção. — Oh, mantuano! Eu sou Sordello, da sua terra! — exclamou, e os dois se abraçaram ali mesmo, em um gesto de fraternidade que parecia transcender os séculos.
A cena me atingiu como um soco. Que contraste brutal! Ali, no Purgatório, duas almas se uniam pelo simples som do nome de sua cidade, enquanto lá embaixo, na minha doce e amarga Itália, os vivos se devoram. A Itália de hoje não é a senhora das províncias, é um bordel a céu aberto, um navio sem timoneiro no meio de uma tempestade épica. Dentro de um mesmo muro, em uma mesma trincheira, os homens se roem de ódio.
Eu olhava para aquele abraço e sentia uma revolta crescente. O que adianta Justiniano ter organizado as leis se a sela está vazia? O império virou um jardim abandonado porque aqueles que deveriam governar se tornaram gananciosos. Olhe para Roma, uma viúva solitária que chora dia e noite chamando por um César que nunca aparece. Olhe para as famílias se destruindo — Montecchios, Cappellettis — todos mergulhados em suspeitas e ruína.
E minha Florença? Ah, Florença pode ficar satisfeita com essa digressão, já que seu povo é tão “esperto”. Muitos têm a justiça no coração, mas demoram a disparar a flecha para não errar o alvo; em Florença, a justiça está na ponta da língua, pronta para ser usada como arma. Enquanto outros fogem das responsabilidades públicas, meu povo grita: “Eu aceito o fardo!”, mergulhando de cabeça no caos. Florença é como uma doente que não encontra posição na cama de plumas e fica virando de um lado para o outro, tentando, em vão, fugir da própria dor.
Aque abraço entre Virgílio e Sordello não era apenas um encontro; era um espelho que refletia tudo o que havíamos perdido. Com o sol se pondo e a sombra da montanha nos abraçando, eu sabia que a subida seria longa, mas o fogo daquela indignação me dava o impulso necessário para continuar subindo, degrau por degrau, em busca da redenção que o mundo lá embaixo parecia ter esquecido.