Canto V

Eu já havia deixado aquelas sombras para trás, seguindo as passadas firmes de Virgílio, meu guia e mestre, quando um grito agudo cortou o ar rarefeito da encosta. “Olhem! O raio de sol não atravessa aquele ali embaixo, à esquerda! Ele se move como um homem vivo!”, exclamou uma voz carregada de espanto. Girei os calcanhares e vi um grupo de almas paralisadas, apontando para mim, hipnotizadas pelo fenômeno físico que eu representava: minha sombra, uma mancha escura e sólida projetada contra a rocha, algo impossível naquele reino de transparências. Eu era uma anomalia biológica em um mundo de ecos.

“Por que você deixa sua mente se enredar tanto?”, a voz de Virgílio soou, não como uma bronca, mas como um lembrete urgente de nossa missão. “Por que diminuiu o passo? O que importa o que eles cochicham? Siga-me e deixe que falem. Seja como uma torre sólida, que não balança o topo por mais que os ventos soprem. Quem permite que um pensamento brote sobre o outro acaba perdendo o alvo, porque o ímpeto de um enfraquece a força do outro.” Suas palavras atingiram o cerne da minha hesitação. Senti o calor subir pelo meu rosto, o rubor da vergonha que, às vezes, nos torna dignos de perdão. “Eu vou”, respondi, e seguimos em frente.

Enquanto atravessávamos a encosta transversalmente, um novo grupo surgiu, entoando o Miserere em um ritmo cadenciado e melancólico. Assim que perceberam que meu corpo era uma barreira intransponível para a luz, o canto deles se transformou em um “Oh!” longo e rouco, um som de puro choque. Dois deles se destacaram como mensageiros e correram em nossa direção, ofegantes em sua essência espiritual. “Digam-nos, quem são vocês?”, perguntaram. Virgílio não perdeu tempo com sutilezas: “Podem voltar e dizer aos seus companheiros que o corpo deste homem é carne verdadeira. Se pararam por causa da sombra, como suspeito, a resposta está dada. Que o tratem com honra; isso lhes será útil.”

Nunca vi relâmpagos cortarem um céu sereno de agosto ou nuvens de crepúsculo se dissiparem tão rápido quanto aquelas sombras fugiram para avisar os outros. Em segundos, a horda inteira voltava para nós, uma avalanche humana movida por uma urgência desesperada. “Esta gente que nos pressiona é numerosa e vem implorar o seu favor”, observou o poeta. “Continue andando, mas escute o que têm a dizer.”

“Ó alma que caminha para a felicidade com os mesmos membros com que nasceu”, gritavam eles, “pare um pouco! Olhe para nós. Veja se reconhece alguém, para que possa levar notícias nossas ao mundo. Por que você tem tanta pressa? Todos nós fomos vítimas de morte violenta, pecadores até o último segundo. Foi apenas no limite da vida que a luz do céu nos iluminou e, arrependidos e perdoando nossos algozes, saímos deste mundo em paz com Deus, que agora nos consome com o desejo de vê-lo.”

Eu olhava fixamente para aqueles rostos, mas não reconhecia ninguém. “Espíritos bem-nascidos”, respondi, sentindo o peso da responsabilidade, “se houver algo que eu possa fazer por vocês, digam. Farei pela paz que busco, seguindo os passos deste guia, de mundo em mundo.”

Um deles tomou a palavra, a voz tremendo de ansiedade. “Todos confiamos na sua boa vontade, mesmo sem juramentos. Eu, que falo antes dos outros, peço: se algum dia vir as terras entre a Romagna e o domínio de Carlos, leve minhas súplicas a Fano. Peça que rezem por mim, para que eu possa purgar minhas graves ofensas. Eu era de lá, mas as feridas profundas por onde meu sangue escorreu me foram feitas no coração do território dos Antenori, em Pádua, onde eu me sentia mais seguro. Azzo d’Este me odiava além de qualquer justiça. Se eu tivesse fugido para La Mira quando fui cercado em Oriago, ainda estaria respirando. Em vez disso, corri para o pântano, e o lodo e os juncos me prenderam. Ali, vi minhas veias formarem um lago de sangue na terra.”

Mal ele terminou, outro espírito clamou: “Que o desejo que te leva à montanha se realize, mas ajude o meu com a sua piedade! Eu fui de Montefeltro, sou Buonconte. Nem Giovanna, nem ninguém mais se lembra de mim, por isso caminho entre estes com a cabeça baixa.”

Fiquei intrigado. “Que força ou azar o tirou tanto do caminho de Campaldino que seu corpo nunca foi encontrado?”, perguntei. Ele suspirou, uma lembrança dolorosa atravessando os séculos. “Aos pés do Casentino, corre o rio Archiano. Cheguei lá com a garganta perfurada, fugindo a pé, manchando a planície de sangue. Minha visão falhou, minha voz se apagou no nome de Maria e caí. Fiquei sozinho. Vou lhe contar a verdade, e você a repetirá aos vivos: o anjo de Deus me recolheu, enquanto o demônio do inferno gritava: ‘Ó você do céu, por que me rouba? Você leva a parte eterna dele por causa de uma lagriminha, mas eu darei outro destino ao que sobrou!’”

Buonconte descreveu então como o demônio, enfurecido, manipulou as forças da natureza, acumulando vapores que se transformaram em uma tempestade violenta sobre o vale do Pratomagno. A chuva torrencial transbordou os fossos e correu para o grande rio. O Archiano, impetuoso, encontrou seu corpo gelado na foz, arrastando-o para o Arno e desfazendo a cruz que ele havia formado com os braços sobre o peito na hora da agonia. As águas o rolaram pelo fundo, cobrindo-o finalmente com os despojos do rio.

Quando o silêncio caiu por um instante, uma terceira voz, suave e melancólica, sussurrou: “Por favor, quando você voltar ao mundo e estiver descansado da longa viagem, lembre-se de mim. Eu sou a Pia. Siena me fez, a Maremma me desfez. Ele sabe bem como tudo aconteceu — aquele que, primeiro me dando o anel, se casou comigo com sua joia.”

Suas palavras ecoaram com uma tristeza profunda, uma nota final de resignação que parecia vibrar nas pedras da montanha, lembrando-me de que cada passo naquela subida era um acerto de contas com o passado e uma promessa para o futuro. O sol continuava a bater em minhas costas, empurrando minha sombra para cima, em direção à redenção.