Canto IV

A consciência do tempo é uma coisa traiçoeira. Quando nos entregamos a um prazer intenso ou a uma dor profunda, a alma se recolhe de tal forma nessa experiência que simplesmente esquece de contar os minutos. É um erro comum pensar que temos múltiplas almas operando em paralelo — na verdade, somos uma só, e quando ela se fixa em algo, o resto do mundo desaparece. Eu mesmo acabei de viver isso na pele.

Enquanto ouvia, extasiado, as palavras daquele espírito no antepurgatório, o sol subiu cinquenta graus sem que eu percebesse. Cinquenta graus. Uma escalada silenciosa e implacável. Quando finalmente nos encontramos onde as almas clamaram — “Aqui está o que procurais” —, percebi o quanto estava absorto. E agora, diante de nós, se abria uma passagem tão estreita que faria inveja às trilhas mais traiçoeiras da Toscana.

Nas montanhas de San Leo ou em Noli, na descida íngreme de Bismantova, você ainda pode usar os pés. Aqui, porém, é preciso voar. Voar com as asas rápidas do desejo, seguindo o guia que me dava esperança e iluminava o caminho. Virgílio subia primeiro, eu atrás, ambos apertados entre as paredes de rocha que nos abraçavam como um torno. Mãos e pés se agarravam ao chão instável, cada movimento uma negociação com a gravidade.

Quando alcançamos o topo daquela saliência e a encosta se abriu diante de nós, perguntei, ofegante:

— Mestre meu, que caminho seguimos agora?

Ele respondeu sem hesitar:

— Nenhum passo teu deve cair em falso. Sobe atrás de mim, continue ganhando altitude, até que apareça alguma escolta sábia.

Olhei para cima. O cume era tão alto que a vista não alcançava, e a encosta íngreme parecia desafiar qualquer trigonometria. A fadiga começava a pesar nos meus ossos. Eu, que já não era mais o homem vigoroso de Florença, senti o cansaço me puxar para baixo.

— Doce pai — chamei, com a voz arrastada —, vira-te e olha como fico para trás se não descansarmos.

Virgílio apontou para uma saliência um pouco acima, uma espécie de cintura natural que contornava todo o monte.

— Filho meu, chega até ali.

Suas palavras agiram como esporas. Reuni o que restava das minhas forças e me arrastei atrás dele, até que finalmente a borda rochosa ficou sob meus pés. Sentamo-nos ambos, virados para o leste, de onde havíamos subido — uma posição que, segundo se diz, ajuda a recuperar o fôlego.

Primeiro, olhei para as terras baixas, lá embaixo. Depois ergui os olhos para o sol. E algo me deixou perplexo: os raios nos atingiam pelo lado esquerdo.

Como assim? O sol deveria estar à nossa direita, se estivéssemos subindo para o norte. Virgílio percebeu meu espanto diante daquele carro de luz que cortava o céu entre nós e o norte.

— Se Castor e Pólux — explicou ele, com paciência de quem ensina a um aluno lento — estivessem acompanhando aquele espelho do sol que sobe e desce com sua luz, você veria o zodíaco rubro girando ainda mais próximo das Ursas, a menos que saísse do caminho antigo. Para entender isso, imagine Sião e este monte sobre a terra, ambos compartilhando o mesmo horizonte, mas em hemisférios diferentes. O caminho que Fáeton não soube percorrer com seu carro, você verá como ele deve passar de um lado para o outro.

Pensei. Processei. E de repente a chave virou.

— Certo, mestre — disse, sentindo o encaixe perfeito da compreensão —, nunca vi tão claro como agora. O meio-círculo do movimento superior, que os sábios chamam de Equador, e que fica sempre entre o sol e o inverno, se afasta daqui em direção ao norte exatamente na medida em que os hebreus o viam para o lado quente. Mas, se me permite, gostaria de saber quanto ainda temos de andar. Porque essa encosta sobe mais do que meus olhos podem alcançar.

Virgílio sorriu. Um sorriso enigmático.

— Esta montanha é assim: no começo, lá embaixo, é pesada. Quanto mais se sobe, menos custa. Quando ela se tornar tão suave que subir será tão fácil quanto descer um rio a favor da corrente, aí você terá chegado ao fim do caminho. Espere para descansar lá. Não respondo mais do que isso, e sei que é verdade.

Antes que eu pudesse protestar, uma voz cortou o ar vindo de perto:

— Talvez você precise sentar antes disso!

Nós dois nos viramos na direção do som. À esquerda, um grande bloco de pedra que nem eu nem ele havíamos notado antes. Aproximamo-nos. Atrás da rocha, algumas pessoas estavam à sombra, encostadas com a desleixo de quem não tem pressa nenhuma. E entre elas, um homem que me pareceu particularmente exausto. Sentado, abraçava os joelhos, o rosto enterrado entre eles, como se o peso do mundo estivesse concentrado na nuca.

— Doce senhor meu — sussurrei a Virgílio —, olha aquele ali. Parece a própria preguiça em forma humana.

O homem ergueu o rosto lentamente, movendo-o para cima ao longo da própria coxa, como se cada centímetro exigisse um esforço sobre-humano. Seus olhos semibrilho encontraram os meus.

— Ora, vai tu para cima, já que és tão valente — disse, com um tom que misturava deboche e cansaço.

Na mesma hora, eu soube quem era. Belacqua. O florentino. A fadiga que ainda apertava meu peito não me impediu de me aproximar. Ele levantou a cabeça com dificuldade e completou:

— Já viste como o sol guia o carro pelo ombro esquerdo?

Seus gestos lentos e suas palavras arrastadas arrancaram de mim um riso involuntário. Depois, controlando-me:

— Belacqua, não me dói por ti agora. Mas me diz: por que estás aí sentado? Esperas por um guia? Ou retomaste o teu velho hábito?

— Ó irmão — respondeu ele, com a voz cansada de quem já repetiu essa explicação muitas vezes —, que vantagem teria em subir? O anjo de Deus que está sentado na porta não me deixaria passar para os martírios. Primeiro, o céu precisa me rodar do lado de fora tanto tempo quanto eu rodei em vida, porque adiei os bons suspiros até o fim. A menos que antes alguma oração me ajude, uma que surja de um coração que vive em graça. O resto não vale nada, não é ouvido no céu.

Virgílio já subia à minha frente.

— Anda agora — disse ele —, vê que o sol já tocou o meio-dia e a noite cobre Marrocos até a beira da água.

Olhei para Belacqua mais uma vez. Ele permaneceu ali, abraçado aos próprios joelhos, esperando — talvez por uma oração, talvez pelo simples prazer de esperar. Virei as costas e comecei a subir. A montanha ainda pesava, mas eu já sabia: quanto mais alto, mais leve.