Canto XXXII

Meus olhos estavam travados nela. Uma sede de dez anos, um abismo de ausência que eu tentava preencher apenas com aquele olhar, ignorando todo o resto. O mundo ao redor havia desaparecido, meus sentidos silenciados por aquela visão hipnótica. Beatrice era um ímã, e eu, uma limalha de ferro rendida ao seu sorriso sagrado, presa em uma rede antiga e inquebrável.

— Cuidado, Dante! Olhar fixo demais! — o alerta veio como um estalo, vindo das três mulheres à minha esquerda.

A força daquelas palavras me obrigou a desviar o rosto. Por um instante, fiquei cego. Era como se tivesse encarado o sol diretamente; a luz de Beatrice havia queimado minha retina espiritual, deixando-me em uma escuridão temporária. Quando minha visão finalmente começou a se ajustar, percebi que o cenário havia mudado. O exército glorioso da procissão estava em movimento, girando para a direita, retornando com o sol e as sete chamas sagradas à frente.

Era uma manobra militar perfeita. Imaginei uma legião romana girando sob seus escudos para se proteger enquanto mudava de direção. A milícia celestial avançava, ultrapassando-nos antes mesmo que o carro triunfal começasse a manobrar. Então, as mulheres retornaram às rodas e o Grifo, aquela criatura majestosa e biforme, moveu o veículo. Ele o fez com uma suavidade sobrenatural; nem uma única pena de suas asas oscilou com o esforço.

Matilda — a mulher que me guiara até ali —, Estácio e eu começamos a seguir a roda que descrevia o arco menor na curva. Caminhávamos pela floresta alta e agora vazia, um silêncio que ecoava a antiga falha daquela que acreditou na serpente. Mas o vazio era preenchido por uma melodia angélica que ditava o ritmo dos nossos passos. Tínhamos avançado talvez a distância de três disparos de flecha quando Beatrice desceu do carro.

Um murmúrio coletivo percorreu a multidão:

— Adão.

O nome do primeiro homem pairou no ar como um lamento. Todos cercaram uma árvore estranha, completamente nua, sem uma folha ou broto sequer. Sua copa se alargava à medida que subia, atingindo uma altura que deixaria os maiores bosques da Índia parecendo arbustos rasteiros.

— Bendito sejas tu, Grifo — as vozes entoaram em uníssono —, por não ferires com teu bico esta árvore de sabor doce, mas que distorce as entranhas de quem a prova.

O Grifo ergueu a voz, um som que parecia vir de eras passadas:

— Assim se preserva a semente de toda justiça.

Com um movimento decidido, ele puxou o cambão do carro até o pé da árvore despojada e o amarrou ao tronco viúvo. O efeito foi instantâneo e visceral. Senti um calafrio percorrer minha espinha ao testemunhar a transformação. Sabe quando o sol atinge a constelação de Peixes e a natureza parece prender a respiração antes da primavera? Foi exatamente assim. A árvore, antes um esqueleto de madeira seca, começou a pulsar. Tons que oscilavam entre o rosa das rosas e o roxo das violetas brotaram dos galhos, renovando a vida onde só havia desolação.

Uma música começou a tocar. Não era algo que ouvidos humanos pudessem processar totalmente. Eu não conhecia aquele hino, e a melodia era tão densa, tão profunda, que meus sentidos começaram a falhar novamente. Tentei resistir, mas era como se o peso de mil sonos caísse sobre mim. Se eu fosse um pintor tentando retratar o momento em que Argos fechou seus cem olhos ao ouvir a flauta de Mercúrio, talvez conseguisse descrever como apaguei. Mas não sou. O fato é que o sono me venceu.

Um clarão súbito rasgou o véu do meu inconsciente.

— Dante! Acorde! O que está fazendo? — a voz era um comando urgente.

Abri os olhos, atordoado. Senti-me como os apóstolos Pedro, João e Tiago quando, após o sono profundo no Monte Tabor, despertaram para ver a Transfiguração de Cristo e perceberam que Moisés e Elias haviam partido. A confusão mental era total. Olhei em volta, procurando um ponto de referência, até que vi Matilda parada sobre mim, a mesma mulher que me resgatara nas águas do Lete.

— Onde está Beatrice? — perguntei, a voz falhando pela ansiedade.

— Olhe ali — ela apontou com calma —, sentada sob a nova folhagem, junto à raiz da árvore. Veja a multidão que a cerca. Os outros estão subindo agora, seguindo o Grifo, entoando uma canção ainda mais doce e profunda.

Se ela disse mais alguma coisa, eu não registrei. Meus olhos já haviam encontrado Beatrice, e o resto do universo foi sumariamente bloqueado. Ela estava sentada sozinha no chão, como uma sentinela deixada para vigiar o carro que o Grifo amarrara à árvore. As sete ninfas formavam um círculo ao redor dela, segurando as sete luzes que vento nenhum, fosse do norte ou do sul, jamais conseguiria apagar.

— Você será um habitante desta floresta por pouco tempo — disse Beatrice, fixando seus olhos nos meus. — Depois, será para sempre um cidadão daquela Roma onde o próprio Cristo é romano. Portanto, observe bem o carro. Para o bem do mundo que vive mal, grave cada detalhe. Quando voltar para lá, certifique-se de escrever tudo o que vir.

Eu não ousei piscar. Estava aos pés dos seus comandos, devoto e atento.

O que se seguiu foi uma sequência de horrores cinematográficos. Do nada, um raio de fogo desceu das nuvens mais remotas com a velocidade de um projétil. A águia de Júpiter mergulhou violentamente através da árvore, arrancando cascas, flores e as folhas recém-nascidas. O impacto contra o carro foi brutal. O veículo adernou como um navio em uma tempestade, jogado de um lado para o outro pelas ondas.

Não houve tempo para respirar. Uma raposa magra, parecendo faminta de qualquer bondade, saltou para dentro do corpo do carro. Beatrice a repreendeu por seus crimes atrozes com tamanha autoridade que o animal fugiu, os ossos quase atravessando a pele sem carne de tanto medo.

Então, vi a águia retornar. Mas desta vez ela não atacou; ela pousou dentro do carro e deixou suas penas ali, cobrindo o interior do veículo. Foi um momento de silêncio doentio, quebrado por uma voz que parecia brotar do próprio coração dos céus:

— Ó minha pequena nau, como estás mal carregada!

O chão pareceu se abrir entre as rodas. Um dragão emergiu das profundezas e cravou sua cauda maligna no fundo do carro. Como uma vespa que retrai o ferrão, ele puxou parte da estrutura para baixo e se afastou, rastejando de forma errática.

O que sobrou do carro começou a sofrer uma mutação grotesca. As penas deixadas pela águia — talvez oferecidas com boa intenção no início — espalharam-se como erva daninha, cobrindo as rodas e o cambão em menos tempo do que leva um suspiro. O edifício sagrado transformou-se em um monstro. Sete cabeças brotaram de suas partes: três sobre o cambão, com chifres como os de bois, e uma em cada canto, com um chifre único na testa. Era uma aberração que desafiava qualquer descrição anterior.

No topo dessa monstruosidade, sentada como uma fortaleza em uma montanha, vi uma prostituta desavergonhada, lançando olhares provocantes para todos os lados. Ao lado dela, como se estivesse ali para garantir que ninguém a tomasse, erguia-se um gigante. Eles se beijavam, uma união obscena e perturbadora.

Mas então, ela cometeu um erro. Ela desviou seus olhos cobiçosos para mim.

O gigante, tomado por uma fúria selvagem e um ciúme paranoico, começou a açoitá-la da cabeça aos pés. O som dos golpes ecoava na floresta. Cruel e desconfiado, ele desamarrou o monstro transformado e o arrastou para as profundezas da selva. Continuei observando até que a densidade das árvores serviu de escudo, escondendo de mim a prostituta e aquela nova e terrível besta.