Canto XXXI
A voz cortou o ar como uma lâmina, e eu senti o golpe muito antes de compreender as palavras. Era Beatriz, sim, mas não a Beatriz que um dia sorriu para mim na ponte Santa Trinità. Aquela era uma acusadora, um juiz que manejava a verdade com a precisão de um carrasco.
— Ó tu que estás do outro lado do rio sagrado — ela começou, e cada sílaba me perfurava mais fundo que a ponta de uma espada. Aquele mesmo fio de voz que antes me parecera cortante agora se revelava ainda mais afiado pelo desprezo. — Dize, dize se é verdade. A tamanha acusação, tua confissão deve unir-se.
Eu queria responder. Deus, como eu queria. Mas minha alma estava tão atordoada que a voz se moveu dentro de mim e morreu antes que meus lábios pudessem dá-la à luz. Fiquei ali, mudo, sentindo o peso do silêncio me esmagar.
Beatriz não teve paciência. Pouco esperou e retomou:
— Que pensas? Responde a mim, pois as memórias tristes ainda não foram ofendidas pela água.
Ela está falando do Letes, percebi. O rio do esquecimento que ainda não tinha apagado minhas faltas. Tudo ainda estava ali, cru, pulsando.
Confusão e medo — um coquetel que me paralisara antes — agora se uniam para me empurrar para fora um “sim” tão fraco que precisei acompanhá-lo com um gesto de cabeça para que fizesse sentido. Foi como um disparo de besta quando a corda, excessivamente tensa, se rompe: o dardo mal toca o alvo. Eu estourei sob o peso da culpa, lagrimas e suspiros jorrando de mim, a voz finalmente encontrando passagem.
E então ela me golpeou de novo, mas desta vez com perguntas que eram espadas.
— Por entre meus desejos, que te conduziam a amar o bem além do qual não há o que aspirar — disse Beatriz —, que valas atravessadas ou que correntes encontraste, para que assim devesses despir-te da esperança de passar adiante? E que vantagens ou progressos se mostraram na fronte dos outros, para que devesses caminhar diante deles?
Respirei fundo. O ar gostava de entranhas. Quando finalmente consegui formar palavras, elas saíram molhadas de choro:
— As coisas presentes, com seu falso prazer, desviaram meus passos assim que vosso rosto se escondeu.
Pronto. Está dito.
Mas Beatriz não demonstrou alívio nem compaixão. Sua voz permaneceu aquela rocha inabalável.
— Se te calasses ou negasses o que confessas, não seria menos conhecida tua culpa — sentenciou. — De tal juiz se sabe! Mas quando a acusação do pecado explode da própria boca, em nossa corte a roda se volta contra o fio da espada.
Ela fez uma pausa. Eu sabia que viria mais.
— Todavia, para que agora carregues vergonha de teu erro, e para que outra vez, ouvindo as sereias, sejas mais forte — continuou —, deixa de lado o pranto e escuta: assim ouvirás como em direção contrária deveria mover minha carne sepultada.
Meu coração gelou. Ela ia falar do próprio cadáver.
— Jamais te apresentou natureza ou arte prazer quanto as belas membros em que fui encerrada, e que estão em terra esparsas — disse Beatriz. — E se o supremo prazer te faltou por minha morte, qual coisa mortal deveria depois te arrastar em seu desejo?
Ela tem razão, pensei, e a verdade doía como fogo.
— Bem deverias, pela primeira flecha das coisas falazes, elevar-te atrás de mim, que já não era mais tal. Não te deveria pesar as penas para baixo, a esperar mais golpe, ou parvuleza ou outra vaidade de tão breve uso. Passarinho novo espera duas ou três vezes; mas diante dos olhos dos emplumados, rede se estende em vão ou se atira.
Eu estava como aquelas crianças que, envergonhadas, emudecidas, ficam com os olhos no chão, ouvindo e reconhecendo-se arrependidas. Sim, exatamente assim. Meus olhos não ousavam encontrar os dela.
Beatriz percebeu. E pior: usou isso contra mim.
— Quando por ouvir estás dolorido — ordenou —, levanta a barba. E maior dor sentirás ao olhar.
Com menos resistência se desarraiga um robusto carvalho ao nosso vento ou àquele da terra de Jarba do que eu levantei o queixo a seu comando. Quando ela pediu meu rosto pelo nome da barba — aquele detalhe íntimo que só quem nos conhece de verdade sabe usar —, compreendi bem o veneno do argumento.
Minha face se ergueu. E vi.
As primeiras criaturas — as quatro virtudes que dançavam ao redor — pousaram sua aspersão de água. Meus olhos, ainda inseguros, encontraram Beatriz. Ela estava voltada para o grifo, aquela criatura que é uma só pessoa em duas naturezas, como Cristo, homem e Deus. Sob seu véu, além do rio, ela me parecia vencer a si mesma antiga, mais do que vencera as outras aqui quando estava entre nós.
O ardor do arrependimento me picou como urtiga. Todas as outras coisas que mais me haviam torcido em seu amor agora se faziam minhas inimigas. Tanto reconhecimento mordeu meu coração que caí vencido. Desmaiei. Ali, aos pés dela, apagado.
Quando meu coração recuperou as forças e me devolveu à consciência, vi sobre mim a mulher que eu havia encontrado sozinha — Matelda, soube depois. Ela me puxava.
— Segura-me, segura-me! — dizia.
Ela me arrastara para dentro do rio até a garganta. E, puxando-me atrás de si, seguia sobre a água, leve como um barco. Quando cheguei à beata margem, ouvi um “Asperges me” tão doce que não consigo recordar sua melodia, quanto mais escrevê-la.
Matelda abriu os braços. Abraçou minha cabeça e me submergiu ali onde foi necessário que eu engolisse a água.
O esquecimento. A purificação.
Depois me tirou, molhado, e me ofereceu dentro da dança das quatro belas. Cada uma delas me cobriu com o braço. Eram as quatro virtudes cardeais, e cantavam:
— Nós somos aqui ninfas e no céu somos estrelas. Antes que Beatriz descesse ao mundo, fomos ordenadas a ela como suas servas. Levar-te-emos a seus olhos; mas no lume jubiloso que está dentro aguçarão os teus as três de lá, que olham mais profundo.
Assim cantando, me levaram consigo ao peito do grifo, onde Beatriz estava, voltada para nós.
— Faze que não poupes os olhares — disseram. — Colocamos-te diante dos esmeraldas de onde Amor já te tirou suas armas.
Os olhos de Beatriz. Esmeraldas. Claro.
Mil desejos mais quentes que chamas prenderam meus olhos aos olhos reluzentes dela, que permaneciam fixos sobre o grifo. Como no espelho o sol, não de outro modo, a dupla fera ali raiava, ora com um ora com outro regimento. Pense, leitor, se eu me maravilhava ao ver a coisa em si permanecer quieta e na imagem se transmutar.
Minha alma, plena de espanto e alegria, saboreava aquele alimento que, saciando de si, de si dá sede. Foi então que as outras três — as virtudes teologais, percebi — se fizeram adiante, dançando em seu angelical cântico.
— Volve, Beatriz, volve os olhos santos — era a canção delas — ao teu fiel que, por te ver, moveu passos tantos! Por graça, faze-nos a graça que desvele a ele tua boca, para que discirna a segunda beleza que tu ocultas.
Ó esplendor de viva luz eterna, pensei, quem se fez pálido sob a sombra de Parnaso, quem bebeu em sua cisterna, que não parecesse ter a mente obumbrada, tentando render-te qual tu parecias lá onde o céu, harmonizando, te sombreia, quando no ar aberto te desvestiste?
E eu ali, diante dela, esperando.