Canto XXIX
Matelda cantava como uma mulher possuída por uma paixão divina, as notas elevando-se entre as árvores milenares do Éden. — Felizes aqueles cujos pecados são cobertos — entoou ela, encerrando a melodia com uma bênção que parecia vibrar no próprio ar. Como ninfas que outrora vagavam solitárias pelas sombras selvagens, buscando o sol ou fugindo dele, ela começou a se mover contra a corrente do rio. Eu a acompanhava da margem oposta, ajustando meu ritmo ao dela, passo a passo, em uma sincronia silenciosa.
Não havíamos caminhado nem cem metros quando as margens do rio fizeram uma curva acentuada, obrigando-me a caminhar de frente para o oriente. O cansaço da subida parecia dissipar-se diante da expectativa do que viria a seguir. Foi então que Matelda parou bruscamente e se voltou para mim, os olhos brilhando com uma intensidade nova.
— Meu irmão, olhe e ouça — disse ela, a voz baixa, quase um sussurro de advertência.
De repente, um clarão atravessou a floresta de ponta a ponta. Não era o brilho súbito de um relâmpago que desaparece tão rápido quanto surge; aquela luz permanecia e se tornava cada vez mais vívida, inundando cada fresta entre os ramos verdes. O que é isso?, pensei, sentindo o pulso acelerar. Ao mesmo tempo, uma melodia doce e rítmica começou a flutuar pelo ar luminoso. Senti uma onda de indignação santa contra a audácia de Eva; ali, onde o céu e a terra eram obedientes, uma única mulher, recém-criada, não suportara o véu da ignorância. Se ela tivesse sido devota, eu teria provado daquelas delícias inefáveis muito antes, e por muito mais tempo.
Enquanto eu avançava, suspenso entre tantas primícias do prazer eterno e ansioso por mais, o ar sob a copa das árvores tornou-se incandescente, como uma fogueira gigantesca. O som, agora mais nítido, revelava-se como um coro de vozes harmoniosas. Senti o peso da responsabilidade narrativa. Se algum dia suportei fome, frio ou vigílias por vocês, Musas sagradas, agora é o momento de cobrar a recompensa. Que o Helicão derrame suas águas por mim e que Urânia me ajude com seu coro a colocar em palavras coisas que desafiam a compreensão humana.
Um pouco mais adiante, a distância pregou uma peça nos meus sentidos. Pareceu-me avistar sete árvores de ouro, mas, à medida que eu me aproximava e a distorção visual causada pelo ar desaparecia, a razão assumiu o controle. O que eu via eram, na verdade, sete candelabros colossais. E, nas vozes que acompanhavam o cortejo, a palavra “Hosana” ecoava com uma clareza cristalina. O topo daquelas estruturas flamejava com um brilho muito superior ao da lua cheia em um céu de meia-noite.
Atordoado, olhei para Virgílio em busca de uma explicação, mas o mestre estava tão perplexo quanto eu, o rosto marcado por um espanto absoluto. Voltei meus olhos para a procissão. Aqueles objetos de luz moviam-se em nossa direção tão lentamente que uma noiva recém-casada caminharia mais rápido que eles.
— Por que você fica tão fascinado apenas com essas luzes vivas? — Matelda me repreendeu, o tom firme, mas não severo. — Olhe para o que vem logo atrás.
Vi então uma multidão vestida de um branco tão puro que nada na Terra jamais poderia se igualar àquela alvura. A água à minha esquerda refletia minha imagem como um espelho, devolvendo-me a visão do meu próprio flanco esquerdo enquanto eu observava a margem oposta. Quando cheguei a um ponto onde apenas o rio me separava daquela visão, parei para observar melhor.
As chamas dos candelabros avançavam, deixando para trás rastros de cores no ar, como se pincéis invisíveis estivessem pintando o céu. Eram sete faixas distintas, exibindo todas as cores do arco-íris e do halo da lua. Essas trilhas de luz estendiam-se para trás, perdendo-se de vista; a distância entre as faixas externas parecia ser de dez passos largos. Sob aquele teto cromático magnífico, vinte e quatro anciãos avançavam de dois em dois, coroados com lírios brancos.
— Bendita és tu entre as filhas de Adão — cantavam eles em uníssono — e benditas sejam tuas belezas para sempre!
Assim que os anciãos passaram por mim, deixando a margem livre para o grupo seguinte, quatro animais surgiram, cada um coroado com folhagens verdes. Cada um possuía seis asas cobertas de olhos; se os olhos do mitológico Argo ainda estivessem vivos, seriam exatamente assim. Imagine a descrição de Ezequiel, vindo do norte entre ventos e nuvens de fogo, mas, no que diz respeito às asas, João está comigo e diverge dele.
No espaço central delimitado pelos quatro animais, surgiu um carro triunfal de duas rodas, puxado pelo pescoço de um grifo. A criatura mantinha suas asas erguidas entre as faixas de luz, de modo que não rompia nenhuma delas. Suas asas subiam tanto que os olhos não podiam alcançar o topo. Suas partes de águia eram de puro ouro, enquanto o corpo de leão era branco misturado com um vermelho vivo. Nem Roma, com seus carros para os generais Africanos ou o próprio Augusto, viu algo tão belo; até o carro do Sol pareceria pobre ao lado dele — aquele carro que, desviado do curso, foi reduzido a cinzas por um raio de Júpiter após a prece da Terra.
Três mulheres vinham dançando ao lado da roda direita. Uma era tão vermelha que dificilmente seria notada dentro de uma fogueira; a segunda parecia feita inteiramente de esmeralda, carne e osso; a terceira era como neve recém-caída. Elas seguiam o ritmo ora da mulher branca, ora da vermelha, alternando a velocidade conforme o canto que as guiava.
À esquerda, quatro outras mulheres celebravam, vestidas de púrpura, seguindo o comando de uma que possuía três olhos na testa. Atrás desse grupo, vi dois anciãos com vestes diferentes, mas com a mesma postura digna e sólida. Um parecia discípulo do grande Hipócrates, o mestre da medicina; o outro carregava uma espada tão nítida e afiada que, mesmo com o rio entre nós, senti um calafrio de medo. Depois deles, vieram quatro de aparência humilde e, por último, um ancião solitário que avançava como se estivesse em transe, com o rosto marcado por uma sabedoria profunda.
Estes sete últimos estavam vestidos como o primeiro grupo de anciãos, mas não usavam lírios na cabeça. Em vez disso, estavam coroados com rosas e outras flores vermelhas. De longe, qualquer um juraria que suas cabeças estavam em chamas. Quando o carro parou exatamente à minha frente, um estrondo de trovão ecoou pela floresta. A procissão digna cessou seu movimento, as vanguardas estancando ali, como se um sinal invisível tivesse ordenado o silêncio absoluto.