Canto XXVI

A sétima cornija era um inferno de fogo. Não aquelas chamas soltas e caóticas que estamos acostumados a ver, mas uma parede contínua de fogo que lambia a borda do precipício, obrigando as almas a caminhar por um estreito corredor entre a chama e o abismo. O ar vibrava de calor, e a cada passo eu sentia o suor escorrendo pelas têmporas, misturando-se à poeira da jornada.

Virgílio caminhava à minha frente, e eu logo atrás, seguindo a trilha estreita que separava a vida da purificação. De tempos em tempos, ele virava a cabeça e me alertava: — Presta atenção. É hora de aguçar o engenho.

O sol já se inclinava para o ocidente, tingindo o céu de um azul tão pálido que parecia quase branco. Seus raios batiam em meu ombro direito, e foi então que percebi algo que me gelou o sangue mesmo sob aquele calor infernal: minha sombra. Ali, projetada sobre o chão de pedra, dançando entre as labaredas. Uma prova física, inegável, de que eu ainda era carne e osso. Enquanto as almas ao redor eram apenas vazios sem peso.

E elas notaram.

Vi os olhos espectrais se voltando para mim, primeiro com curiosidade distraída, depois com uma atenção aguda que me deixou desconfortável. Alguém murmurou: — Aquele não parece um corpo fingido.

A frase se espalhou como fogo em palha seca. Em instantes, um grupo se desprendeu da multidão e começou a se aproximar, com cuidado, sempre mantendo-se dentro da faixa onde o fogo não queimava. Moviam-se como animais cautelosos, mas havia algo humano e urgente em seus olhares.

Um deles, mais corajoso ou mais desesperado, tomou a dianteira e falou: — Ó tu que vais, não por ser mais lento, mas talvez por reverência aos que seguem atrás, responde a mim, que ardo em sede e em fogo. Não só para mim tua resposta é necessária — todos estes têm mais sede de ouvir do que etíopes ou indianos de água fria. Dize-nos: como é que fazes de teu corpo uma parede para o sol, como se ainda não tivesses entrado na rede da morte?

Abri a boca para responder, mas algo me fez calar. Não era medo. Era outra coisa. Uma novidade que surgia exatamente naquele instante, vinda do meio do caminho flamejante.

Do lado oposto, outra multidão se aproximava. Caminhavam em sentido contrário, rostos voltados para os primeiros, e quando os dois grupos se encontraram, aconteceu algo que me deixou suspenso, incapaz de piscar.

Eles se beijaram.

Não um beijo lento ou demorado, mas um toque rápido, quase frenético. Como formigas que se encontram no escuro e trocam informações com as antenas antes de seguir em frente. Um abraço relâmpago, um roçar de lábios espectrais, e então já estavam se separando, gritando um para o outro enquanto recuavam.

— Sodoma e Gomorra! — bradava o grupo que vinha em minha direção.

E o outro respondia, em coro: — Pasífae entrou na vaca de madeira, para que o touro corresse à sua luxúria!

Os gritos ecoaram pela cornija, ásperos, carregados de vergonha e remorso. Depois, como cegonhas que fogem das montanhas geladas em direção às areias quentes, os dois grupos se separaram. Uns foram para um lado, outros para o outro, chorando e retomando seus cantos de penitência.

Mas aqueles que primeiro haviam se aproximado de mim não foram longe. Voltaram, retornaram ao meu lado com os olhos ainda fixos em minha sombra. Reconheci entre eles o que havia falado antes. Estavam atentos, prontos para ouvir.

Suspirei. Havia algo naquele lugar que me tirava qualquer vontade de mentir ou esconder.

— Almas seguras de que um dia terão a paz — comecei, com a voz mais firme do que me sentia —, minhas membras não ficaram lá embaixo, nem maduras nem verdes. Estão aqui comigo, com seu sangue e suas junturas. Subo por este monte para não ser mais cego. Lá acima há uma dama que me obteve graça para que eu traga meu corpo mortal por vosso mundo.

Vi o espanto se espalhar entre eles como uma onda. Continuei:

— Mas, se o desejo maior de vós logo se satisfaça, e o céu vos acolha, dizei-me quem sois, e quem é aquela turba que vai na direção oposta.

Por um instante, eles ficaram mudos. Como um montanhês rude e selvagem que chega à cidade e se maravilha, cada alma ali pareceu perder a fala. Mas o choque passou rápido — nos corações elevados, a admiração se acalma depressa.

O mesmo que me interrogara primeiro retomou a palavra:

— Bem-aventurado tu, que de nossas marcas carregas a experiência para melhor morrer. A gente que não vem conosco ofendeu aquilo por que César, triunfando, ouviu chamar-se ‘rainha’ contra si. Por isso se separam gritando ‘Sodoma’, lançando em rosto a própria vergonha e ajudando o ardor com a vergonha. Nosso pecado foi hermafrodita — não guardamos a lei humana, seguimos como bestas o apetite. Para nossa desonra, ao nos separarmos, lembramos o nome da que se embestou nas madeiras bestiais.

Ele fez uma pausa, e eu pude ver em seus olhos espectrais uma fadiga antiga, pesada como chumbo.

— Agora sabes nossos atos e de que fomos réus. Se quiseres saber nosso nome, não é tempo de dizer, e eu mesmo não saberia. Mas de mim te farei saciado: sou Guido Guinizzelli. E já me purgo aqui, penando antes do extremo.

O nome caiu sobre mim como um raio.

Guido Guinizzelli.

Senti meus joelhos amolecerem. Não por fraqueza física, mas por uma comoção tão profunda que precisei de um instante para recuperar o fôlego. Ali estava ele, o pai, o mestre, aquele que todos nós — os que um dia escrevemos versos de amor — chamávamos de fundador. Lembrei-me de Arnaut Daniel, de Cino da Pistoia, de mim mesmo. Todos filhos de sua palavra.

Quis correr para ele, abraçá-lo, mas o muro de fogo me deteve. Fiquei ali, parado, olhando por muito tempo, sem dizer nada, apenas contemplando. Meu peito ardia mais do que as chamas ao redor.

Quando finalmente consegui falar, ofereci meu serviço com toda a sinceridade que tinha.

Ele me olhou com uma bondade que doía.

— Tu deixas tal rastro em mim, pelo que ouço, tão claro que nem o Letes poderia apagá-lo. Mas se tuas palavras agora juraram verdade, dize-me: por que demonstraste no olhar e na fala que me tens tão caro?

— Os vossos doces ditos — respondi, e minha voz tremeu na primeira sílaba —, enquanto durar o uso moderno, farão preciosos ainda os versos que escrevestes.

Guido sorriu. Era um sorriso cansado, de quem já viu o suficiente do mundo para não se iludir, mas ainda assim grato.

— Ó irmão — disse, e apontou para uma alma adiante, que caminhava absorta no fogo —, este que te mostro com o dedo foi melhor artífice da fala materna. Versos de amor e prosa de romance superou a todos. Deixa dizer os tolos que acreditam que o de Limoges o supera. Voltam o rosto mais à voz que à verdade, e firmam sua opinião antes de ouvir a arte ou a razão. Assim fizeram muitos antigos com Guittone, dando-lhe prestígio até que a verdade venceu com mais vozes.

Fez uma pausa, e seus olhos se voltaram para mim com uma gravidade solene.

— Ora, se tens privilégio tão amplo que te é lícito ir ao claustro onde Cristo é abade do colégio, dize por mim um Pai-Nosso, quanto baste a nós deste mundo, onde poder pecar já não é nosso.

E então, talvez para dar lugar a outro que se aproximava, Guido desapareceu no fogo. Como um peixe que mergulha na água, foi-se nas chamas, sem alarde, apenas sumindo.

Fiquei olhando o espaço vazio por um segundo, dois. Depois, movido por algo maior que a curiosidade, avancei em direção à alma que ele apontara.

Ela estava ali, mais adiante, caminhando na borda do precipício. Aproximei-me o suficiente para falar, e disse que meu desejo preparava um lugar gracioso para seu nome.

Ele parou. Virou-se para mim.

E começou a falar.

Não em italiano, mas em provençal, numa língua que era música e melancolia ao mesmo tempo:

— Tanto me abelis vossa cortês demanda, que não posso nem quero a vós me esconder. Eu sou Arnaut, que choro e vou cantando. Vejo, pesaroso, a loucura passada, e vejo, jubiloso, a alegria que espero adiante. Agora vos peço, por aquela virtude que vos guia ao cume da escada, que vos lembreis a tempo de minha dor.

As palavras ecoaram no ar quente como um último suspiro.

E então Arnaut se escondeu no fogo que o purificava.

Fiquei ali, imóvel, ouvindo o crepitar das chamas e os gritos distantes das almas que se chamavam de um lado para o outro. Sodoma. Pasífae. Nomes que eram vergonha e esperança ao mesmo tempo. Porque ali, pensei, até o pecado mais baixo podia ser dito em voz alta — e dito, começar a ser deixado para trás.

Virgílio tocou meu ombro.

— Anda — disse. — Ainda temos caminho.

Respirei fundo e o segui. O fogo ardia, mas não queimava. E pela primeira vez, senti que a purificação não era um castigo. Era uma promessa.