Canto XXV
A essa altura do Purgatório, o sol já havia deixado o signo de Touro para ocupar o círculo do meio-dia, enquanto a noite reinava sobre Escorpião. Subíamos por uma passagem tão estreita que obrigava cada um a seguir na frente do outro, um degrau de cada vez. Eu me sentia como um filhote de cegonha que ergue as asas, ansioso para voar, mas sem coragem de abandonar o ninho — desejo e medo se alternavam dentro de mim, adiando a pergunta que queimava em meus lábios. Eu queria saber, queria perguntar, mas algo me travava, mesmo enquanto me preparava para falar.
Meu doce mestre não me deixou na dúvida. Apesar do ritmo acelerado da caminhada, ele notou minha hesitação.
— Solte a flecha da palavra — disse Virgílio, com aquele tom seguro de quem conhece os meus silêncios. — Você já puxou o arco até o ferro.
Respirei fundo e abri a boca.
— Como é possível que essas almas emagreçam — comecei — se aqui não há necessidade de alimento?
Virgílio sorriu, paciente.
— Se você se lembrasse de como Meleagro se consumiu junto com o tição que queimava, essa questão não te pareceria tão espinhosa. E se pensasse em como sua imagem se reflete no espelho ao seu menor movimento, o que parece difícil se tornaria claro. Mas para que sua vontade descanse, chamo Estácio. Que ele seja agora o médico de suas feridas.
Estácio ergueu a cabeça e respondeu com serenidade:
— Se diante de você eu revelo os mistérios da visão eterna, perdoe-me por não poder fazer mais do que isso.
E então começou, com uma voz que combinava ciência e poesia:
— Escute bem, filho. O sangue perfeito — aquele que as veias sedentas não bebem, que sobra como alimento da mesa — desce ao coração e ali adquire a virtude formativa, capaz de gerar todos os membros do corpo humano. Depois de digerido, ele escorre para um local que é melhor silenciar do que nomear, e de lá se derrama sobre o sangue alheio, num vaso natural. Os dois sangues se encontram: um passivo, o outro ativo, preparado para agir. Dessa união nasce a coagulação, depois a vida — primeiro como a de uma planta, depois como a de um animal marinho que sente e se move. A virtude geradora se expande, organizando os órgãos, até que o cérebro do feto esteja completamente formado.
Fiz uma pausa mental para absorver aquelas palavras. Estácio continuou, mais solene:
— Nesse momento, o Motor Primeiro se volta, cheio de alegria, para tanta arte da natureza. Ele sopra um espírito novo, repleto de virtude, que absorve tudo o que encontra de ativo e se torna uma só alma — que vive, sente e gira sobre si mesma. Para que você não se espante com essa fala, lembre-se do calor do sol que se transforma em vinho ao se unir à seiva da videira.
Quando Láquesis corta o fio, a alma se desprende da carne e carrega consigo, em potência, o humano e o divino. Memória, inteligência e vontade se tornam mais agudas do que antes. Sem descanso, ela cai de forma maravilhosa em uma das margens — ali, primeiro, reconhece seus caminhos. Assim que o lugar a circunscreve, a virtude formativa irradia ao redor como fazia nos membros vivos. E da mesma forma que o ar úmido se enfeita de cores diversas pelo reflexo dos raios de luz, o ar vizinho assume a forma que a alma, parada ali, imprime virtualmente. Como a chama que segue o fogo por onde ele se move, o espírito é seguido por sua nova forma.
Por isso essa parência é chamada de sombra, e por isso organiza todos os sentidos — até a visão. É por ela que falamos, rimos, choramos e suspiramos — você mesmo já deve ter ouvido esses lamentos pela montanha. Conforme os desejos e afetos nos afligem, a sombra se configura. Essa é a causa do fenômeno que você observa.
Ouvindo aquilo, senti uma clareza antiga se reorganizando dentro de mim. Então é assim que a alma persiste, sem corpo, mas com forma.
Nesse instante, percebemos que já havíamos chegado à última curva do caminho. Viramos à direita, e nossa atenção se voltou para outra preocupação. Ali, a parede de rocha lançava chamas para fora, enquanto a cornija soprava um vento para cima, que refletia o fogo e o mantinha afastado. Éramos obrigados a passar por aquele lado aberto, um a um. O medo me apertava por dois lados: de um, o fogo; do outro, o abismo.
Meu guia falou baixo, mas firme:
— Por este trecho, é preciso segurar as rédeas dos olhos. O menor descuido pode fazer você errar.
Então ouvi, vindo de dentro daquele grande incêndio, um canto em latim: Summae Deus clementiae — o hino que invocava a misericórdia divina. A melodia era tão intensa que me fez esquecer, por um momento, do perigo iminente. Vi espíritos caminhando entre as labaredas, e eu dividia o olhar entre eles e meus próprios pés, alternando a atenção a cada instante.
Assim que o hino terminava, eles gritavam em coro: “Virum non cognosco” — as palavras da Virgem Maria, declarando sua pureza. Depois recomeçavam o canto, em voz mais baixa. Ao final, novas exclamações ecoavam:
— Diana se manteve no bosque! — gritavam. — E ela expulsou Élice, que provou do veneno de Vênus!
Em seguida, voltavam a cantar, e depois invocavam exemplos de esposas e maridos castos, fiéis ao que a virtude e o matrimônio exigem.
Compreendi, então, que aquele era o remédio. Para todo o tempo em que o fogo os queima, aqueles gritos e aquelas canções bastam. Com tal cuidado e tais alimentos, a ferida da luxúria se cicatriza até a última cicatriz.
Continuei andando, com os olhos fixos na chama e o coração apertado entre o temor e a esperança. Virgílio seguia ao meu lado, silencioso, e Estácio vinha atrás. O fogo crepitava, o abismo esperava, e aquelas vozes — entre o hino e o clamor — me lembravam que ali, naquele estreito corredor de purificação, cada passo era uma escolha entre cair ou queimar, entre olhar para baixo ou seguir em frente.