Canto XXIII

Meus olhos estavam cravados na folhagem densa, tentando decifrar o verde vibrante da árvore acima, como um caçador que desperdiça a vida esperando o movimento de um pássaro entre os galhos. O tempo parecia suspenso, mas a realidade do Purgatório não permitia hesitação. Senti a mão firme de Virgílio, meu guia, meu pai intelectual e protetor, que me chamou de volta à urgência da nossa missão.

— Venha agora, meu filho — disse ele, com aquela serenidade que sempre escondia um propósito maior. — O tempo que nos foi concedido precisa ser administrado com mais sabedoria.

Virei o rosto imediatamente, apressando o passo para emparelhar com os dois sábios, Virgílio e Estácio. A conversa deles era tão rica que o esforço da subida parecia desaparecer; eu caminhava como se flutuasse, absorto no intelecto daqueles gigantes. Foi então que o som nos alcançou: um lamento que se transformava em música, uma melodia agridoce que flutuava no ar rarefeito. Labia mea, Domine, os versos do salmo, ecoavam de uma forma que gerava, ao mesmo tempo, um prazer místico e uma dor profunda no peito.

— Ó doce pai, o que é isso que estou ouvindo? — perguntei, sentindo um arrepio percorrer minha espinha.

— São sombras que passam — respondeu Virgílio, sem diminuir o ritmo. — Elas caminham para desatar o nó de suas dívidas espirituais.

Como peregrinos pensativos que, ao cruzar com desconhecidos na estrada, olham para trás sem interromper a jornada, uma multidão de almas nos alcançou. Elas vinham por trás, silenciosas, rápidas e mergulhadas em uma devoção que beirava o transe. Ao passarem por nós, o choque visual foi brutal. Seus olhos eram órbitas escuras e profundas, encravadas em rostos tão pálidos e descarnados que a pele parecia moldada diretamente sobre o osso, sem qualquer músculo ou gordura entre eles. Olhando para aquelas figuras, lembrei-me do mito de Erisictão, que a fome consumiu até as entranhas, ou do horror de Jerusalém sitiada, quando a fome levou uma mãe ao impensável.

Suas faces eram anéis sem gemas. Quem tentasse ler a palavra Omo — homem — nos traços de um rosto humano, ali encontraria o “M” desenhado perfeitamente pelas cavidades oculares e as maçãs salientes. Era inexplicável: como o perfume de uma fruta e o frescor de uma água corrente podiam castigar corpos daquela forma, gerando um desejo que os definhava?

Enquanto eu tentava processar a razão daquela magreza extrema e da pele escamosa, uma das sombras parou. Do fundo das órbitas vazias, ela fixou o olhar em mim e soltou um grito de puro espanto:

— Que graça extraordinária é esta que recebo?

Eu jamais o teria reconhecido pelos traços do rosto; a morte e a penitência haviam apagado qualquer vestígio de sua identidade física. Mas a voz… a voz era inconfundível. No momento em que ele falou, a faísca da memória incendiou minha mente e eu vi, sob a máscara da fome, o rosto de Forese Donati.

— Por favor — implorou ele, percebendo meu choque —, não se prenda a essa crosta seca que descoloriu minha pele, nem à falta de carne em meu corpo. Diga-me a verdade sobre você. Diga-me quem são essas duas almas que o acompanham. Não fique em silêncio!

— O seu rosto, que eu já chorei um dia quando você morreu, me causa agora uma dor ainda maior — respondi, sentindo o peso daquela transformação. — Por Deus, diga-me o que está consumindo vocês dessa maneira. Não me peça para falar enquanto estou atônito; é impossível organizar o pensamento quando se está dominado pela surpresa.

Forese suspirou, um som seco que parecia vir de uma garganta de papel.

— Por um decreto eterno, uma força divina desce sobre a água e sobre a árvore que deixamos para trás. É isso que me faz emagrecer. Toda essa gente que canta e chora por ter seguido os apetites da garganta além da medida, aqui se purifica na fome e na sede. O perfume dos frutos e o borrifo da água que se espalha pela folhagem acendem em nós um desejo insuportável de consumir. E não é apenas uma vez; enquanto circulamos por este plano, nossa pena se renova. Mas eu disse pena e deveria dizer consolo. É esse mesmo desejo que nos conduz às árvores, o mesmo que levou Cristo a dizer “Eli” com alegria, quando nos libertou com o próprio sangue.

— Forese — eu disse, tentando calcular o tempo —, desde o dia em que você deixou o mundo para uma vida melhor, não se passaram nem cinco anos. Se a sua capacidade de pecar acabou antes que a dor do arrependimento o devolvesse a Deus, como você já subiu até aqui? Eu esperava encontrá-lo lá embaixo, no Ante-Purgatório, onde o tempo perdido é pago com tempo de espera.

Ele esboçou o que poderia ser um sorriso em sua face cadavérica.

— Foi a minha Nella quem me trouxe tão rápido para beber o doce absinto dos martírios. Suas lágrimas, suas preces devotas e seus suspiros me arrancaram da costa onde se espera e me libertaram dos outros círculos. Minha viuvinha, a quem tanto amei, é ainda mais querida por Deus por estar tão só em sua virtude. Ela brilha em contraste com a Barbagia de Florença; as mulheres da Sardenha são mais recatadas do que as que deixei para trás. Ó doce irmão, o que mais posso dizer? Já vejo um tempo futuro, e não está longe, em que será proibido do púlpito que as desavergonhadas mulheres florentinas andem exibindo o peito pelas ruas. Que bárbaras ou sarracenas precisaram de leis ou disciplina religiosa para andarem cobertas? Mas se essas infelizes soubessem o que o céu prepara para elas, já estariam gritando de pavor. Se minha visão não me engana, elas sofrerão antes mesmo que cresça a barba naqueles que hoje são embalados por canções de ninar. Mas agora, eu lhe peço, não se esconda mais! Veja que não sou apenas eu; toda essa multidão olha maravilhada para onde você projeta sua sombra, bloqueando o sol.

Respirei fundo, sentindo o peso da minha própria história cruzando com a dele.

— Se você trouxer à mente o que fomos um para o outro e como vivemos nossos dias, a memória ainda será pesada para nós dois. Foi daquela vida de excessos que este homem que caminha à minha frente me resgatou, há poucos dias, quando a irmã daquele ali — apontei para o sol — se mostrou cheia no céu. Ele me conduziu através da noite profunda dos verdadeiros mortos, carregando esta minha carne real que o segue. Desde então, seu apoio tem me ajudado a subir e contornar a montanha que endireita vocês, a quem o mundo entortou. Ele prometeu me fazer companhia até que eu chegue onde Beatrice está; a partir dali, terei que seguir sem ele. Este homem é Virgílio — e fiz um gesto em direção ao meu guia —, e este outro é a alma por quem toda a montanha tremeu há pouco, quando o reino de vocês se abriu para deixá-lo partir rumo ao paraíso.