Canto XX

Contra a melhor vontade, lutar é inútil. Foi o que pensei ao puxar a esponja daquela água que nunca se saciava, contrariando meu próprio desejo apenas para agradar aquele espírito. Mas a reflexão ficou para trás assim que me movi. Meu guia também se pôs em marcha pelos trechos desobstruídos, rente à rocha, como quem anda sobre um muro estreito entre ameias — porque as almas que vertem gota a gota pelos olhos o mal que contamina o mundo inteiro se aproximavam demais do lado de fora.

Maldita sejas, loba antiga, murmurei para mim mesmo, sentindo o peso daquela condenação. Mais presa tens do que qualquer fera, com tua fome sem fundo, insaciável. Ó céus, em cujo giro aparentemente se acreditam as mudanças das condições cá de baixo, quando virá aquele que há de expulsar-te?

Caminhávamos com passos lentos, escassos, e eu prestava atenção nas sombras que ouvia chorar e se lamentar com piedade. Foi por acaso que ouvi, diante de nós, alguém clamar no pranto: “Doce Maria!” — como faz uma mulher no momento do parto. E depois: “Tão pobre foste quanto se pode ver por aquele albergue onde depositaste teu santo fruto.”

Em seguida, compreendi: “Ó bom Fabrício, com a pobreza preferiste a virtude a possuir grande riqueza com o vício.”

Aquelas palavras me agradaram tanto que me adiantei para ter conhecimento daquele espírito de onde pareciam vir. Ele falava ainda da generosidade que Nicolau fez às donzelas, para conduzir com honra a juventude delas.

Aproximei-me e disse:

— Ó alma que tanto bem falas, diz-me quem foste, e porque somente tu renovas estes dignos louvores. Não será sem recompensa a tua palavra, se eu retornar para completar o breve caminho daquela vida que voa para o seu fim.

Ele respondeu: “Eu te direi, não pelo consolo que espero de lá, mas porque tamanha graça brilha em ti antes que estejas morto. Eu fui a raiz da planta má que sombreia toda a terra cristã, de modo que raramente se colhe bom fruto dela. Mas se Doagio, Lille, Gante e Bruges pudessem, cedo se faria vingança; e eu a peço àquele que tudo julga.”

Fiz uma pausa, tentando processar aqueles nomes. O espírito continuou, e sua voz carregava um arrependimento denso como chumbo:

“Fui chamado, lá embaixo, Hugo Capeto. De mim nasceram os Filipe e os Luíses que hoje governam a França. Fui filho de um açougueiro de Paris. Quando os antigos reis terminaram todos, exceto um reduzido a vestes cinzentas, encontrei nas mãos as rédeas do governo do reino, com tanta força de novas conquistas e tão cheio de amigos, que a cabeça do meu filho foi promovida à coroa viúva — e dele começaram os ossos sagrados desses que aí estão.”

Senti um arrepio. Ele falava da sua linhagem com uma clareza brutal.

“Enquanto o grande dote provençal não tirou a vergonha do meu sangue, pouco valia, mas ainda não fazia mal. Ali começou, com força e mentira, a sua rapina. E depois, a título de compensação, tomou Ponthieu, Normandia e Gasconha. Carlos veio à Itália e, como reparação, fez vítima de Conradino; e depois repeliu ao céu Tomás, por compensação.”

A ironia na voz dele era cortante. Cada “por compensação” soava como um cuspe.

“Vejo um tempo, não muito distante de hoje, em que outro Carlos sai da França para dar a conhecer melhor a si e aos seus. Sai desarmado e apenas com a lança com que Judas justou, e fere com ela tão fundo que faz Florença explodir pelo ventre. Daí não ganhará terra, mas pecado e vergonha, tanto mais grave para ele quanto mais leve considera esse dano.”

Eu o observava, fascinado e horrorizado. Ele não era apenas uma alma penitente; era um profeta do desastre.

“O outro, que já saiu preso de um navio, vejo vender a própria filha e negociá-la como os corsários fazem com as outras escravas. Ó avareza, que mais podes fazer de nós, depois que arrastaste meu sangue a tal ponto que ele não se importa com a própria carne?”

A voz tremia, mas não de medo — de fúria contida.

“Para que o mal futuro e o passado pareçam menores, vejo em Alagna entrar o flor-de-lis, e no vigário de Cristo ser preso. Vejo-o uma outra vez escarnecido; vejo renovar-se o vinagre e o fel, e entre ladrões vivos ser morto. Vejo o novo Pilatos tão cruel que isso não o sacia, mas sem decreto leva ao Templo as velas cobiçosas. Ó Senhor meu, quando serei feliz ao ver a vingança que, escondida, torna doce a tua ira no teu segredo?”

Ele calou-se por um instante. A montanha parecia prender a respiração.

“O que eu dizia daquela única esposa do Espírito Santo — e que te fez voltar-te para mim pedindo alguma explicação —, isso é repetido em todas as nossas preces enquanto dura o dia. Mas quando anoitece, entoamos um canto contrário. Repetimos então Pigmalião, que a sua voraz vontade de ouro tornou traidor, ladrão e parricida; e a miséria do avaro Midas, que se seguiu ao seu pedido ganancioso, pelo qual sempre convém que se ria. De Acã, o insensato, cada um se recorda, como roubou os despojos, de modo que a ira de Josué aqui ainda parece mordê-lo. Depois acusamos com o marido Safira; louvamos os coices que teve Heliodoro; e em infâmia por todo o monte gira Polinestor, que matou Polidoro. Por último, se grita: “Crasso, tu o sabes: de que sabor é o ouro?”.

Respirei fundo. Tanta história, tanta ganância.

“Às vezes um fala alto, outro baixo, conforme o afeto que nos incita à ira, ora em maior ora em menor passo. Portanto, quanto ao bem que durante o dia se apregoa, antes não estava eu sozinho; mas aqui perto nenhuma outra pessoa levantava a voz.”

Já nos havíamos afastado dele e nos esforçávamos para vencer a estrada tanto quanto nossas forças permitiam, quando senti — como coisa que cai — a montanha tremer. Um gelo me tomou, aquele que costuma tomar quem vai à morte. Certo, nem Delos tremeu tão forte antes que Latona nela fizesse o ninho para dar à luz os dois olhos do céu.

Então começou de todas as partes um grito tal que meu mestre se voltou para mim, dizendo:

— Não temas, enquanto eu te guiar.

“Glória in excelsis Deo” — todos diziam, pelo que pude entender dos vizinhos. Ficamos imóveis e suspensos como os pastores que primeiro ouviram aquele canto, até que o tremor cessou e o hino se completou.

Depois retomamos nosso caminho sagrado, observando as almas que jaziam por terra, já de volta ao pranto habitual. Nenhuma ignorância jamais me tornou tão desejoso de saber, se minha memória não falha, quanto aquela que me parecia ter naquele momento. E, apesar da ânsia, não ousava perguntar por causa da pressa, nem por mim mesmo podia ver coisa alguma ali. Assim eu seguia, tímido e pensativo, com o eco daquelas maldições e profecias martelando dentro de mim — e a montanha ainda vibrando sob meus pés como um tambor anunciando o juízo.