Canto XIX
O frio da madrugada era cortante, aquela hora em que o calor do dia já se dissipou por completo e a influência da Lua atinge seu ápice gelado. No horizonte, pouco antes da aurora, a constelação que os geomantes chamam de Maior Fortuna começava a subir, tingindo o céu de um tom pálido. Foi nesse momento de vulnerabilidade que ela apareceu no meu sonho: uma mulher gaga, de olhos estrábicos, pés tortos e mãos decepadas. Sua pele tinha uma palidez doentia, quase repulsiva.
Eu a observava fixamente. E, da mesma forma que o sol aquece os membros enrijecidos pela noite, o meu olhar pareceu transformá-la. Sob a minha atenção, sua língua se soltou, seus membros se endireitaram e seu rosto, antes sem vida, ganhou as cores vibrantes da sedução. Assim que se sentiu bela, ela começou a cantar. Era uma melodia hipnótica, impossível de ignorar.
— Eu sou a doce sereia — cantava ela, com uma voz que parecia vibrar dentro do meu crânio —, aquela que enfeitiça os marinheiros em alto-mar. Eu desviei Ulisses de sua rota com meu canto. Quem se acostuma comigo raramente me deixa; eu satisfaço todos os desejos.
Ela ainda não tinha fechado a boca quando uma figura feminina, santa e severa, surgiu ao meu lado para desmascarar a farsa. Ela não olhava para a criatura, mas para o meu guia.
— Virgílio, Virgílio, quem é esta? — perguntou ela com autoridade.
Virgílio aproximou-se, mantendo os olhos fixos na mulher virtuosa. Sem dizer uma palavra, ele agarrou a sereia e rasgou suas vestes pela frente, expondo seu ventre. Um mau cheiro insuportável emanou dali, um odor de podridão tão intenso que o choque me arrancou violentamente do sono.
Abri os olhos, ainda atordoado.
— Já te chamei pelo menos três vezes! — exclamou Virgílio, sua voz ecoando nas paredes de pedra. — Levante-se. Vamos encontrar a passagem por onde você deve entrar.
Fiquei de pé. O sol já estava alto, inundando os terraços da montanha sagrada com uma luz dourada. Caminhávamos com o astro às nossas costas, mas eu seguia curvado, com a testa franzida, como alguém esmagado pelo peso dos próprios pensamentos, formando um arco com o corpo.
— Venham; a passagem é por aqui — disse uma voz, tão suave e bondosa que jamais poderia ser ouvida no mundo dos mortais.
Um anjo com asas brancas como as de um cisne nos encaminhou para cima, através de uma fenda na rocha sólida. Ao bater as asas, senti uma brisa leve no rosto e ouvi-o declarar que aqueles que choram são bem-aventurados, pois suas almas serão consoladas.
— O que há com você que não para de olhar para o chão? — perguntou Virgílio, enquanto subíamos a pequena distância que nos separava do anjo.
— Aquela visão — respondi, tentando afastar a imagem da mente. — Ela me deixou inquieto, não consigo parar de pensar no que vi.
— Você viu aquela antiga feiticeira — disse ele, direto. — Ela é a razão pela qual se chora nos níveis acima de nós. Você viu como o homem se liberta dela. Que isso lhe baste. Firme o passo e olhe para o alto, para o convite que o Rei Eterno envia através das esferas celestes.
Como um falcão que primeiro olha para os próprios pés e depois se lança ao céu ao ouvir o chamado, impulsionado pelo desejo da caça, eu me recuperei. Subi pela fenda na rocha até emergir no quinto terraço.
O cenário ali era desolador. Vi uma multidão de almas deitadas no chão, com o rosto voltado para a terra, chorando. Seus soluços eram tão profundos que eu mal conseguia distinguir as palavras que murmuravam: “Minha alma se apegou ao pó”.
— Ó escolhidos de Deus — começou Virgílio —, cujos sofrimentos são mitigados pela justiça e pela esperança, indiquem-nos o caminho para subir.
— Se vocês não estão sujeitos a esta pena e buscam o caminho mais rápido — respondeu uma voz que vinha do chão —, mantenham sempre a mão direita voltada para o lado de fora.
Virgílio olhou para mim e, com um leve aceno, permitiu que eu fizesse o que meu olhar já pedia. Aproximei-me da alma que tinha falado, alguém cuja identidade eu precisava descobrir.
— Espírito cujo choro amadurece a penitência sem a qual não se pode voltar a Deus — eu disse, baixando o tom —, interrompa por um momento sua maior preocupação por mim. Diga-me quem você foi e por que está de costas para o céu. Se houver algo que eu possa fazer por você no mundo dos vivos, eu farei.
— Você saberá por que o céu nos obriga a virar as costas para ele — respondeu a sombra. — Mas antes, saiba que eu fui um sucessor de Pedro. Entre Sestri e Chiavari corre um belo rio, e o nome dele deu título à minha linhagem. Durante pouco mais de um mês, senti o peso do manto papal. É uma carga tão pesada que faz todas as outras parecerem penas, se alguém quiser mantê-lo longe da lama.
Ele fez uma pausa, o som do choro ao redor preenchendo o silêncio.
— Minha conversão foi tardia, infelizmente. Só quando me tornei o pastor de Roma é que percebi o quanto a vida pode ser mentirosa. Vi que ali o coração não encontrava paz e que não havia degrau mais alto para subir. Foi então que o amor por esta vida eterna nasceu em mim. Até aquele momento, eu era uma alma miserável, separada de Deus e dominada pela avareza. Agora, como você vê, sou punido aqui.
A voz dele era firme, apesar da posição humilhante.
— O que a avareza faz com o homem se revela aqui na purificação dessas almas convertidas. Não há pena mais amarga nesta montanha. Assim como nossos olhos nunca se voltaram para o alto, fixos apenas nas coisas terrenas, a justiça aqui nos mergulhou no chão. A avareza extinguiu nosso amor por tudo o que é bom, e agora a justiça nos mantém presos, com pés e mãos amarrados. Ficaremos aqui, imóveis e estendidos, enquanto for do agrado do Senhor.
Ao ouvir aquilo, ajoelhei-me por respeito. Eu ia começar a falar, mas ele percebeu o movimento apenas pelo som.
— Por que você se inclinou? — perguntou ele.
— Por causa da sua dignidade — respondi sinceramente. — Minha consciência me cobrou que eu ficasse de pé diante de alguém como o senhor.
— Levante-se, irmão! — exclamou ele. — Não se engane. Eu sou um servo, assim como você e todos os outros, submetido a um único Poder. Se você algum dia entendeu as palavras do Evangelho que dizem que no céu eles não se casam, entenderá por que falo assim. A autoridade terrena não cruza este limiar. Agora, vá embora. Não quero que se demore mais. Sua presença atrapalha o meu pranto, e é através dele que amadureço o que você chamou de penitência.
Ele soltou um suspiro pesado, como se quisesse encerrar o assunto.
— Ainda tenho uma sobrinha lá no mundo, chamada Alagia. Ela é boa por natureza, a menos que o mau exemplo de nossa família a corrompa. Ela é a única que me restou.