Canto XVIII

O alto doutor enfim encerrara seu discurso, e agora me observava com atenção, tentando ler em meu olhar se eu parecia satisfeito. Eu, porém, sentia uma nova sede me consumir por dentro. Ficava em silêncio por fora, mas meus pensamentos fervilhavam: Talvez meu interrogatório excessivo esteja lhe pesando.

Mas aquele pai verdadeiro percebeu a timidez da minha vontade, que não se abria sozinha, e falando, me deu coragem para falar.

— Mestre — eu disse —, minha visão se aviva tanto na sua luz que consigo discernir com clareza tudo o que seu raciocínio expõe ou descreve. Por isso lhe peço, doce e querido pai, que me explique o que é o amor, para onde convergem toda boa ação e seu oposto.

Virgílio então se voltou para mim com a solenidade de quem está prestes a revelar um segredo profundo.

— Direcione para mim as lentes aguçadas do seu intelecto — respondeu —, e se tornará manifesto para você o erro dos cegos que se fazem guias.

Ele fez uma pausa, como se organizasse as ideias.

— A alma, criada para amar com presteza, move-se em direção a qualquer coisa que lhe agrada, assim que é despertada pelo prazer. Sua faculdade de apreensão capta a imagem verdadeira de um objeto, desdobra-a dentro de você, e faz com que sua alma se volte para ela. E quando, já voltada, a alma se inclina, essa inclinação é o amor. É a natureza que se ata a você por meio do prazer. Da mesma forma que o fogo sobe por sua forma inata — que é nascer para subir até onde mais sua matéria persiste —, assim a alma cativa entra no desejo, um movimento espiritual que jamais descansa até que a coisa amada a faça gozar.

Senti o peso daquelas palavras. O mundo ganhava contornos novos e perigosos.

— Agora você pode perceber o quanto a verdade está escondida para aqueles que afirmam que todo amor é louvável em si mesmo — continuou ele. — Pode até parecer que sua matéria é sempre boa, mas nem toda forma impressa é boa, por mais boa que seja a cera.

Minha mente, porém, já estava à frente, enxergando a armadilha.

— Suas palavras e minha inteligência que as segue — respondi — me revelaram o que é o amor, mas isso me tornou ainda mais carregado de dúvidas. Porque, se o amor nos é oferecido de fora, e a alma não caminha com outro pé, então se ela vai reta ou torta não é mérito seu.

Virgílio não demonstrou impaciência. Apenas ergueu a mão num gesto de medida.

— Quanto a razão pode ver aqui, eu lhe posso dizer. Daí em diante, aguarde apenas por Beatriz, pois é questão de fé.

Ele baixou a voz, como se compartilhasse um conhecimento antigo.

— Toda forma substancial, distinta da matéria porém unida a ela, tem em si uma virtude específica coletada. Essa virtude não é sentida sem operação, nem se demonstra a não ser pelo efeito, como a vida de uma planta se revela pelas folhas verdes. De onde vem o intelecto das primeiras noções, ninguém sabe, nem o afeto pelos primeiros desejos. Eles estão em vocês como o estudo de fazer mel está na abelha. Essa vontade primeira não aceita mérito de louvor ou culpa.

Senti um alívio, mas ele não havia terminado.

— Agora, para que a esta se agreguem todas as outras, há em vocês a virtude inata que aconselha, e que deve ter a chave do assentimento. É este o princípio de onde se tira a razão do mérito, conforme acolhe e vigia amores bons ou maus. Aqueles que, raciocinando, foram ao fundo da questão, perceberam essa liberdade inata, e por isso deixaram ao mundo a moralidade. Suponhamos que todo amor que se acende em vocês surja por necessidade: o poder de retê-lo está em vocês. A nobre virtude a que Beatriz se refere é o livre-arbítrio. Portanto, guarde isso na mente, se ela o tomar para falar.

Fiquei em silêncio, digerindo. A lua, que já estava atrasada perto da meia-noite, fazia as estrelas parecerem mais ralas, e corria pelo céu por aquelas estradas que o sol inflama quando, de Roma, o veem cair entre Sardenha e Córsega. A sombra gentil por quem Pietola é mais famosa que a cidade mantuana havia tirado o peso do meu fardo. Eu, que tinha recolhido a resposta aberta e clara para minhas questões, fiquei como um homem sonolento que vagueia.

Mas esse torpor foi subitamente roubado de mim por uma gente que, vindo por trás, já se voltava sobre nossos ombros.

Assim como o Ismeno e o Asopo viram outrora ao longo de si, de noite, fúria e multidão, sempre que os tebanos tinham necessidade de Baco, tal qual eu vi aquela gente avançando pelo seu círculo, cavalgada por boa vontade e justo amor. Em instante, estavam sobre nós, porque toda aquela turba imensa se movia correndo. Dois na frente gritavam, chorando:

— Maria correu com pressa para a montanha! E César, para subjugar Ilerda, picou Marselha e depois correu para a Espanha!

Os outros atrás gritavam também:

— Rápido, rápido, que o tempo não se perca por pouco amor! Que o estudo de bem fazer reverdeça a graça!

Meu guia então se adiantou.

— Ó gente em que um fervor agudo agora completa talvez a negligência e o atraso que a tepidez em bem fazer deixou em vocês — disse ele, apontando para mim —, este aqui vive, e não lhes minto, quer subir, contanto que o sol nos alumie. Por isso, digam-nos onde fica a passagem mais próxima.

Uma dessas almas respondeu sem parar de correr:

— Venha atrás de nós e encontrará a abertura. Estamos tão cheios de vontade de nos mover que não podemos parar. Perdoe se você toma nossa aspereza por descortesia.

E então, enquanto o grupo se distanciava, a mesma alma acrescentou, com uma amargura que ecoava:

— Eu fui abade em San Zeno, em Verona, sob o império do bom Barbarossa — de quem ainda Milão fala com dor. E há alguém que já tem um pé dentro da cova, que em breve chorará por aquele mosteiro, e será triste por ter tido poder. Porque seu filho, doente no corpo e pior na mente, e que já nasceu mau, colocou no lugar de seu verdadeiro pastor.

Não sei se ele disse mais ou se se calou, pois já estava tão distante de nós que o perdi de vista. Mas aquilo eu entendi, e me agradou reter.

Virgílio tocou meu ombro.

— Volte-se para cá — disse. — Veja dois que vêm dando mordida na preguiça.

De trás de todos, eles bradavam:

— Morreu primeiro o povo para quem o mar se abriu, antes que visse o Jordão os seus herdeiros. E aquela que não suportou a fadiga até o fim com o filho de Anquises, ofereceu a si mesma a uma vida sem glória.

Quando essas sombras se distanciaram tanto que não pude mais vê-las, um novo pensamento se instalou em mim. Dele nasceram outros, diversos, e tanto vagueei de um para outro que fechei os olhos por cansaço, e meu pensamento se transmutou em sonho.