Canto XV
A tarde avançava. Entre o fim da terceira hora e o início do novo dia, quando o céu ainda brinca como uma criança inquieta, o sol já tinha percorrido tanto do seu arco que, lá no Purgatório, começava a fazer-se tarde — enquanto na Itália era meia-noite.
Subíamos a montanha com o sol agora à nossa frente. Os raios batiam direto no meu rosto, atravessando meu nariz, porque havíamos girado para o oeste. Foi então que um clarão muito mais forte que os anteriores me atingiu a fronte. As coisas que antes não compreendia agora me causavam espanto. Levantei as mãos para proteger os olhos, fazendo viseira com os dedos, tentando limar o excesso de luz.
Aconteceu como quando um raio de sol salta da água ou de um espelho para o lado oposto, subindo num ângulo igual ao da descida — a física e a experiência mostram isso. Pois assim me senti atingido por uma luz refratada, vindo de algum ponto à minha frente. Minha vista recuou, ofuscada.
— Que é aquilo, doce pai? — perguntei, forçando a vista inutilmente. — Não consigo protegê-la o bastante. E parece vir na nossa direção.
Virgílio respondeu, calmo:
— Não se admire se a família do céu ainda o cega. É um mensageiro que vem nos convidar a subir. Em breve, ver essas coisas não lhe será penoso, mas prazeroso — tanto quanto a sua natureza está apta a sentir.
Avançamos até o anjo bendito. Com voz alegre, ele nos disse:
— Entrem por aqui. Esta escada é muito menos íngreme que as outras.
Subimos, deixando para trás o círculo dos invejosos. E atrás de nós, ouvimos o canto: “Bem-aventurados os misericordiosos!” e “Alegra-te, tu que vences!”
Meu mestre e eu seguíamos sozinhos. Enquanto andava, refletia sobre como aproveitar suas palavras. Então me virei e perguntei:
— O que quis dizer aquele espírito da Romanha, quando mencionou “proibição” e “companheiro”?
Virgílio explicou:
— Ele conhece o dano causado pela sua maior falha. Por isso não se surpreenda se a repreende — para que menos se lamente. Quando os desejos de vocês se fixam onde a parte diminui pela partilha, a inveja move o fole dos suspiros. Mas se o amor pela esfera suprema voltasse para cima o desejo de vocês, esse medo não estaria no peito de ninguém. Porque, quanto mais pessoas dizem “nosso” lá no céu, mais posse de bem cada um tem, e mais caridade arde naquele claustro.
— Estou ainda mais faminto por entender — respondi — do que se tivesse ficado calado. E acumulo mais dúvidas na mente. Como pode ser que um bem, distribuído a muitos possuidores, os faça mais ricos do que se fosse possuído por poucos?
Ele então me disse:
— Porque você fixa a mente apenas nas coisas terrenas, e das trevas extrai trevas. Aquele Bem infinito e inefável que está lá em cima corre em direção ao amor assim como um raio vem ao encontro de um corpo luminoso. Ele se dá tanto quanto encontra de ardor. Portanto, quanto mais a caridade se estende, mais sobre ela cresce o valor eterno. E quanto mais almas se unem lá no alto, mais há para bem amar, e mais se amam — refletindo-se umas nas outras como espelhos. Se minha razão ainda não o sacia, você verá Beatriz, e ela lhe tirará completamente esta e qualquer outra ânsia. Trate apenas de fazer com que sejam logo apagadas, como já estão duas delas, as cinco chagas que se fecham pela dor.
Eu estava prestes a dizer “Você me satisfaz” quando me vi chegado a um novo círculo. Meus olhos, ávidos pelo que viam, me fizeram calar.
Ali, fui subitamente arrebatado por uma visão extática: vi num templo muitas pessoas. Uma mulher, na entrada, com doce gesto de mãe, dizia: “Filho meu, por que fizeste assim conosco? Eis que teu pai e eu, aflitos, te procurávamos.” E, quando ela se calou, a visão desapareceu.
Outra visão surgiu: uma mulher com lágrimas escorrendo pelas bochechas — aquelas que a dor destila quando nasce de grande ofensa — e dizia: “Se tu és o senhor da cidade cujo nome gerou tanta disputa entre os deuses, e de onde toda ciência irradia, vinga-te daqueles braços audaciosos que abraçaram nossa filha, Pisístrato.” E o senhor me parecia, benigno e manso, responder-lhe com semblante sereno: “O que faremos àqueles que nos desejam mal, se condenamos quem nos ama?”
Depois vi uma multidão acesa em fogo de ira apedrejar um jovem, gritando ferozmente: “Mata! Mata!” E ele, já vergando sob o peso da morte, mantinha os olhos abertos para o céu, orando ao Altíssimo, em meio a tanta guerra, que perdoasse seus perseguidores — com aquele olhar que desabrocha a piedade.
Quando minha alma retornou às coisas verdadeiras que estão fora de mim, reconheci que meus enganos não eram falsos.
Virgílio, que me via agir como quem desperta do sono, perguntou:
— O que você tem? Não consegue se manter firme? Você andou mais de meia légua com os olhos vendados e as pernas enroladas, como alguém que o vinho ou o sono inclina.
— Ó doce pai meu, se me escuta, direi o que me apareceu quando minhas pernas ficaram tão tolhidas — respondi.
Ele disse:
— Se você tivesse cem máscaras sobre o rosto, eu não perderia de vista seus pensamentos, por mais vagos que fossem. O que você viu foi para que não se desculpe de abrir o coração às águas da paz que jorram da fonte eterna. Não perguntei “O que você tem?” como quem olha sem ver, quando o corpo jaz desfalecido. Perguntei para dar força ao seu pé. É assim que se deve estimular os preguiçosos, os lentos a usar sua vigília quando ela retorna.
Seguíamos pelo entardecer, com os olhos atentos para além do que podiam alcançar contra os raios vespertinos e brilhantes. E eis que, pouco a pouco, uma fumaça começou a se formar à nossa frente — escura como a noite. Não havia como desviar dela. E aquela nuvem nos roubou os olhos e o ar puro.