Canto XIV
A exaustão começava a pesar sobre meus ombros, mas continuei subindo atrás de Virgílio, atento às sombras que nos rodeavam. Foi então que ouvi vozes à direita, sussurrando com uma curiosidade que não tentavam esconder.
— Quem é esse que circunda nossa montanha antes que a morte lhe tenha dado asas, abrindo e fechando os olhos à própria vontade? — perguntou um espírito, inclinando-se em direção ao companheiro.
— Não sei quem é — respondeu o outro —, mas sei que não está sozinho. Pergunte você, que está mais perto, e com doçura, para que ele responda.
Os dois ergueram os rostos em minha direção, e aquele que falara primeiro me encarou com uma intensidade que me fez parar.
— Ó alma que ainda presa ao corpo sobe em direção ao céu — disse ele —, por caridade, console-nos e diga-nos de onde vem e quem é. Pois nos causa tamanho espanto sua graça quanto algo que nunca antes existiu.
Senti o peso da pergunta. Como explicar minha presença ali, ainda vivo, caminhando entre os mortos em penitência?
— Pela metade da Toscana corre um riacho que nasce em Falterona — respondi, escolhendo as palavras com cuidado —. Cem milhas de curso não o saciam. É de lá que trago este meu corpo. Dizer meu nome seria inútil, pois ainda não ressoa com muita força.
O primeiro espírito franziu o que restava de seu rosto spectral, como se decifrasse um enigma.
— Se bem apreendo seu sentido com meu intelecto — disse —, você está falando do Arno.
O outro espírito virou-se para ele, confuso.
— Por que ele escondeu o nome daquele rio, como se faz com coisas horríveis?
A alma que havia falado primeiro suspirou, e eu vi nela um cansaço que não vinha da subida, mas de uma memória amarga.
— Não sei — respondeu —, mas é justo que o nome daquele vale pereça. Desde sua nascente, onde o monte alpestre é tão fértil que poucos lugares o superam, até o ponto onde o rio devolve ao mar o que o céu rouba das ondas, a virtude é fugida por todos como se fosse uma serpente. Seja por desgraça do lugar ou por maus costumes, os habitantes daquele vale miserável têm a natureza tão alterada que parece que Circe os transformou em pasto.
Ele fez uma pausa, e sua voz tornou-se ainda mais grave.
— Primeiro, entre porcos brutos mais dignos de bolotas do que de qualquer comida humana, o pobre rio dirige seu curso. Depois, descendo, encontra cães raivosos além de suas forças, e deles desvia o focinho com desdém. Quanto mais o rio engrossa, mais aquela maldita e desventurada fossa transforma cães em lobos. E, por fim, descendo por águas mais profundas, encontra raposas tão cheias de fraudes que não temem engenho que as prenda.
Senti um arrepio percorrer minha espinha. Ele não estava descrevendo um rio, mas uma linhagem de almas corrompidas.
— E não deixarei de dizer — continuou, agora com um brilho profético no olhar —, mesmo que outros me ouçam. E será bom para este vivo se ele se lembrar do que um verdadeiro espírito me revela. Eu vejo seu sobrinho se tornar caçador daqueles lobos na margem do rio feroz, e todos eles ficarão aterrorizados. Venderá a carne deles ainda viva, depois os matará como uma fera antiga, privando muitos da vida e a si mesmo da honra. Sai ensanguentado da triste selva, e a deixa de tal modo que, daqui a mil anos, não se reflorestará como antes.
Observei a outra alma, que até então estivera ouvindo em silêncio. Seu rosto spectral se contorceu como o de alguém que recebe a notícia de uma desgraça iminente. A dor ali era tão real quanto a minha própria carne.
A curiosidade me consumiu. Queria saber quem eram aqueles dois, de onde vinham tanta amargura e tanto conhecimento.
— Por favor — pedi, unindo súplicas às minhas perguntas —, digam-me seus nomes.
O espírito que falara primeiro hesitou, e notei um conflito interno em suas feições.
— Você quer que eu faça por você o que você não quer fazer por mim — disse, e por um instante temi que se recusasse. Mas então sua expressão suavizou. — Já que Deus quer que tanta graça resplandeça em você, não serei avaro. Saiba, então, que fui Guido del Duca. Meu sangue foi tão queimado pela inveja que, se visse alguém feliz, me veria coberto de lividez. Dessa semente, colho essa palha.
Ele ergueu a voz, e ecoou pela montanha como um alerta para toda a humanidade:
— Ó gente humana, por que põe o coração onde é necessário ter um companheiro proibido?
Virou-se então para o companheiro.
— Este é Rinier. Este é o prestígio e a honra da casa de Calboli, onde ninguém depois dele herdou seu valor. E não apenas seu sangue se tornou estéril entre o Pó, o monte, o mar e o Reno no que é necessário para a verdade e o lazer. Dentro desses limites está tão cheio de venenosos espinheiros que dificilmente a cultivo os faria desaparecer.
Sua voz tremeu, e vi lágrimas — lágrimas de sombra, mas ainda assim lágrimas — escorrerem por seu rosto.
— Onde está o bom Lizio? E Arrigo Mainardi? Pier Traversaro e Guido di Carpigna? Ó romagnolos, transformados em bastardos! Quando em Bolonha renascerá um Fabbro? Quando em Faenza um Bernardin di Fosco, vara gentil de pequena erva? Não se admire se choro, toscano, ao recordar Guido da Prata, Ugolin d’Azzo que viveu conosco, Federigo Tignoso e sua brigada, a casa Traversara e os Anastagi — uma e outra linhagem estão deserdadas. As damas e os cavaleiros, as fadigas e os ócios que amor e cortesia nos faziam desejar, lá onde os corações se tornaram tão maus.
Ele apontou para o horizonte invisível, como se visse cidades em chamas.
— Ó Bretinoro, por que não foges, já que tua família se foi e muita gente para não ser má? Bagnacaval faz bem em não se reproduzir, e Castrocaro faz mal, e pior Conio, que mais se preocupa em gerar tais condes. Os Pagani farão bem quando o demônio os deixar, mas não de forma que fique deles testemunho puro. Ó Ugolin de’ Fantolin, teu nome está seguro, já que não se espera mais quem possa, degenerando, escurecê-lo.
Guido del Duca baixou a cabeça, exausto da própria dor.
— Mas vai, toscano, agora. Pois me agrada muito mais chorar do que falar, tanto minha razão apertou minha mente.
Percebi então que aquelas almas nos ouviam caminhar. Em silêncio, nos davam confiança para seguir. Continuei subindo ao lado de Virgílio, e quando estávamos sozinhos, o ar ao redor pareceu se condensar.
Um trovão? Não. Era uma voz — uma voz que cortou o céu como um relâmpago:
— Matar-me-á qualquer que me prenda —
E sumiu tão rápido quanto um raio que se dissipa após abrir a nuvem.
Meu coração ainda batia acelerado quando outra voz surgiu, com estrondo ainda maior:
— Eu sou Aglauro, que me tornei pedra —
Recuei instintivamente, mas não para frente — para o lado, encostando em Virgílio. O medo me puxava para perto do meu guia, como uma criança que busca proteção.
O silêncio voltou, denso e pesado.
— Aquilo foi o freio duro — disse Virgílio, e sua voz calma contrastava com o tremor que ainda sentia nas pernas — que deveria manter o homem dentro de seu limite. Mas vocês pegam a isca, e o anzol do antigo adversário os atrai para si. Por isso, de pouco vale freio ou chamado. O céu os chama e gira ao redor de vocês, mostrando suas belezas eternas, mas seu olhar continua fixo na terra. Por isso bate em vocês Aquele que tudo discerne.
Olhei para o alto, para aquele céu que ele dizia que ignorávamos. Pela primeira vez, senti o peso não apenas do meu corpo subindo a montanha, mas de cada escolha que me trouxera até ali. E continuei andando.