Canto XIII
Estávamos no topo da escada que nos trouxera até ali — o segundo terraço da montanha que purifica quem sobe. Ao redor, uma cornija se estendia como a primeira, mas com uma curvatura mais acentuada, mais severa. Não havia sombras, nem relevos visíveis. Apenas a rocha nua, de um tom lúgubre, e o caminho deserto.
— Se aqui temos de esperar por alguém que nos indique o caminho — disse Virgílio, quebrando o silêncio —, receio que nossa escolha atrase demais a caminhada.
Ele então ergueu os olhos para o sol, fixando-os na luz com uma determinação que eu já conhecia bem. Girou o corpo, usando o lado direito como eixo, e torceu o esquerdo na direção oposta.
— Ó doce luz, em quem deposito minha confiança neste novo caminho, conduze-nos — murmurou ele, como se falasse com um velho amigo. — Tu aqueces o mundo, tu brilhas sobre ele. A menos que alguma razão contrária se oponha, teus raios devem sempre nos guiar.
Caminhamos o equivalente a pouco mais de um quilômetro, e a vontade de avançar tornava nossos passos mais leves, mais rápidos. Foi então que ouvimos algo voando em nossa direção. Não víamos ninguém, mas vozes cortavam o ar, como convites corteses servidos à mesa do amor.
A primeira voz, ao passar, disse em alto tom: “Vinum non habent” — “Eles não têm vinho”. E repetiu a frase atrás de nós, até se perder ao longe.
Antes que o eco sumisse por completo, outra voz gritou: “Eu sou Oreste”, e também não se deteve.
— Oh, mestre — exclamei —, que vozes são estas?
No mesmo instante, uma terceira atravessou o céu: “Amai aqueles que vos fizeram o mal”.
Virgílio me explicou, com a paciência de quem já percorreu esse caminho muitas vezes:
— Este círculo açoita o pecado da inveja. Por isso, as cordas do chicote são feitas de amor. O freio, porém, virá do som contrário. Acredito que o ouvirás antes de chegares à passagem do perdão. Agora, fixa bem os olhos no ar à nossa frente. Verás gente sentada encostada na rocha.
Abri ainda mais os olhos, esquadrinhei o terreno adiante. E vi sombras com mantos da mesma cor pálida da pedra. Avançamos um pouco, e ouvimos gritos: “Maria, rogai por nós”, “Miguel”, “Pedro”, “Todos os santos”.
Não creio que exista hoje na Terra um homem tão duro que não se comovesse com o que vi depois. Quando cheguei perto o bastante para distinguir seus gestos, meus olhos se encheram de uma dor tão funda que parecia escorrer deles.
Estavam cobertos de cilício grosseiro, um apoiado no ombro do outro, todos encostados na parede da encosta. Lembravam os cegos que, nos dias de perdão, sentam-se à porta das igrejas pedindo esmola, abaixando a cabeça sobre os ombros uns dos outros — não só para que a piedade alheia se desperte pelo som das palavras, mas pela visão do sofrimento, que comove ainda mais.
E assim como o sol não serve aos cegos, aqui a luz do céu não queria se dar àquelas almas. Um fio de ferro costurava suas pálpebras, como se faz com falcões selvagens para que fiquem quietos.
Caminhando entre eles, sentia que cometia uma ofensa. Eu os via, mas eles não me viam. Virei-me para Virgílio, meu conselheiro sábio. Ele sabia o que meu silêncio queria dizer, e não esperou que eu perguntasse.
— Fala — ordenou —, e sê breve e direto.
Virgílio vinha pelo lado da cornija onde era possível cair, pois não havia parapeito. Do outro lado estavam as almas devotas, que pela terrível costura pressionavam os olhos a ponto de banhar as bochechas de lágrimas.
Voltei-me para elas e comecei:
— Ó gente segura de contemplar um dia a luz suprema que só se importa com vosso desejo, se a graça logo dissolver as escórias de vossa consciência, de modo que o rio da mente desça límpido por ela, dizei-me — e será para mim um favor precioso — se há aqui alguma alma que seja latina. Talvez seja bom para ela que eu saiba disso.
Uma voz respondeu, vinda de um pouco mais adiante:
— Ó meu irmão, cada uma de nós é cidadã de uma verdadeira cidade. Mas tu queres saber quem viveu na Itália como peregrina.
Aproximei-me ainda mais. Entre as sombras, vi uma que levantava o queixo como um cego, numa atitude de espera.
— Espírito — disse eu —, que te submetes à penitência para subir, se és aquele que me respondeu, dá-me a conhecer-te por tua posição ou por teu nome.
— Fui seneza — respondeu. — E aqui remendo minha vida malfeita, chorando perante Aquele que pode conceder o perdão. Sábia não fui, embora me chamassem Sapìa. Alegrava-me mais com os danos alheios do que com minha própria sorte. Para que não acredites que estou mentindo, ouve como fui tola, ainda no declínio dos meus anos.
Meus concidadãos estavam perto de Colle, em campo de batalha contra seus adversários. Eu rezava a Deus pelo que Ele quisesse. Quando os inimigos foram rompidos e postos em fuga, ao ver aquela caçada, senti uma alegria tão desmedida, tão diferente de todas as outras, que ergui o rosto audacioso e gritei a Deus: “Agora já não te temo mais!” — como faz o melro que canta depois de uma pequena bonança.
Busquei a paz com Deus no fim da minha vida. E ainda assim minha dívida não estaria totalmente paga pela penitência, não fosse o fato de que Pier Pettinaio se lembrou de mim em suas santas orações, movido pela caridade. Mas tu, quem és, que vens perguntar sobre nossa condição e andas com os olhos abertos — como creio — e ainda respiras?
— Meus olhos — respondi — também serão tirados aqui, mas por pouco tempo, pois pequena foi a ofensa que cometi ao me deixar cegar pela inveja. Muito maior é o medo que suspende minha alma diante do tormento lá de baixo, cujo peso já sinto sobre mim.
Ela então perguntou:
— Quem te trouxe até aqui entre nós, se pretendes voltar para baixo?
— Este que está comigo e não diz palavra. Estou vivo. E por isso te peço, espírito eleito: se quiseres, posso mover ainda meus pés mortais lá em baixo por ti.
— Oh — exclamou ela, surpresa —, isso é algo tão novo de se ouvir que é um grande sinal de que Deus te ama. Portanto, ajuda-me às vezes com tua prece. E te peço, por aquilo que mais desejas: se algum dia pisares na terra da Toscana, restaura minha boa fama junto aos meus parentes. Tu os verás entre aquela gente vã que deposita esperanças em Talamone — e perderão mais esperança do que na busca pela Diana. Mas mais perderão os almirantes.