Canto XII

Eu caminhava lado a lado com aquela alma sobrecarregada, como dois bois puxando o mesmo jugo, sentindo o peso invisível de sua penitência enquanto meu mestre permitia. Mas a jornada no Purgatório não admite estagnação. Virgílio, com sua voz que sempre equilibrava autoridade e doçura, quebrou o silêncio.

— Deixe-o e siga em frente — ordenou ele. — Aqui, cada um deve impulsionar seu próprio barco com toda a força de seus remos e velas.

Imediatamente, retomei a postura ereta, embora meus pensamentos continuassem curvados, mergulhados na humildade que acabara de testemunhar. Meus passos agora seguiam os dele com uma agilidade renovada, mas ele logo me deu uma nova instrução, apontando para o que estava sob nossos pés.

— Olhe para baixo. Será bom para você, enquanto avançamos, observar a cama onde pisam as plantas dos seus pés.

O que vi me deixou paralisado por um instante. Assim como as lápides no chão de uma igreja exibem o rosto e a história daqueles que já se foram para que não sejam esquecidos — despertando muitas vezes o remorso e a saudade no coração dos vivos —, o chão daquela cornija era um mosaico esculpido com uma perfeição que desafiava a natureza. A montanha se transformara em uma galeria de arte divina.

De um lado, vi a queda fulminante daquele que foi criado mais nobre que qualquer outra criatura, despencando do céu como um raio. Do outro, o gigante Briareu, atingido por um dardo celestial, prostrado no chão com o frio da morte pesando sobre seu corpo. Vi o deus Apolo, Palas Atena e Marte, ainda armados, observando os membros espalhados dos gigantes após a tentativa frustrada de escalar o Olimpo.

O realismo das figuras era assustador. Vi Nimrod ao pé de sua torre inacabada, com o olhar perdido, cercado pelos povos que partilharam sua arrogância em Sinear. Vi Níobe, gravada no mármore com olhos transbordando de dor, cercada por seus quatorze filhos mortos. Vi Saul, prostrado sobre a própria espada no monte Gilboa, um solo que nunca mais conheceria a chuva ou o orvalho.

Que mão humana ou pincel seria capaz de reproduzir essas sombras e traços? — perguntei-me, hipnotizado. Os mortos pareciam mortos, e os vivos, vivos. Quem viu a realidade não viu nada mais autêntico do que eu, enquanto caminhava com o rosto inclinado sobre aquelas figuras. Era o “Quem é Quem” da soberba humana, desde Aracne, já transformada em aranha sobre os restos de sua teia infeliz, até a queda de Tróia, reduzida a cinzas e cavernas.

A ironia daquelas imagens era cortante. Continuei caminhando, absorvendo cada detalhe da queda de reis e heróis, até que percebi que já havíamos percorrido uma distância muito maior do que minha mente concentrada notara. O sol já avançava em seu curso quando Virgílio, que sempre mantinha a atenção focada no horizonte, chamou minha atenção.

— Levante a cabeça! — disse ele, com um tom vibrante. — Não é mais tempo de andar tão absorto. Veja ali, um anjo se aproxima. A sexta hora do dia já termina seu serviço. Prepare seu semblante com reverência para que ele tenha prazer em nos guiar para cima. Lembre-se: este dia nunca mais voltará a amanhecer.

Eu já estava acostumado com os alertas de Virgílio sobre o desperdício de tempo, então compreendi imediatamente a urgência. A figura que se aproximava era magnífica, vestida de branco puro, com um rosto que brilhava como a estrela da manhã. Ele abriu os braços e depois as asas, um gesto de acolhimento que parecia abraçar o próprio ar.

— Venham — disse ele, com uma voz que ressoava paz. — Os degraus estão perto e, de agora em diante, a subida será fácil. É raro quem aceita este convite. Ó raça humana, feita para voar, por que caem ao menor sopro de vento?

Ele nos conduziu até uma fenda na rocha. Ali, senti o roçar de suas asas contra minha testa, um toque leve como uma brisa, antes que ele nos prometesse uma jornada segura.

Enquanto começávamos a subir, percebi algo estranho. Em comparação com os caminhos íngremes e exaustivos que enfrentáramos antes, esta subida parecia milagrosamente leve. Ouvi vozes cantando “Bem-aventurados os pobres de espírito”, uma melodia tão bela que nenhuma palavra humana poderia descrever. Que diferença das entradas do Inferno! Ali, entrava-se através de cânticos; lá embaixo, através de lamentos ferozes.

— Mestre, diga-me — perguntei, sentindo uma estranha euforia — que peso foi tirado de mim? Quase não sinto cansaço ao subir.

Virgílio sorriu, um olhar de quem compreende os mistérios da alma.

— Quando os outros “Ps” que ainda restam na sua testa, já quase apagados, forem removidos como o primeiro foi, seus pés serão tão impulsionados pela boa vontade que não sentirão cansaço. Pelo contrário, será um deleite ser levado para o alto.

Instintivamente, levei a mão à testa, como alguém que carrega algo sem saber e tenta identificar o objeto através do tato. Meus dedos percorreram a pele e, para minha surpresa, contei apenas seis letras das sete que o anjo da porta havia gravado ali. O toque da asa do anjo havia apagado a marca da soberba.

Ao ver meu gesto de descoberta, meu guia deu um sorriso silencioso e continuamos a subir.