Canto XI
O peso do ar me esmagava. Não era a gravidade comum, dessas que sentimos na superfície da terra, mas algo mais profundo, uma pressão que parecia vir de dentro dos meus próprios ossos. A cada passo, meus joelhos protestavam, e a encosta íngreme do primeiro terraço do Purgatório me lembrava, sem piedade, que ainda carregava a carne de Adão.
As almas avançavam diante de nós, curvadas sob um fardo invisível. Dobravam-se como os contrafortes de uma ponte que sustenta o peso do mundo. E enquanto caminhavam, rezavam. Não em sussurros tímidos, mas numa prece coletiva que ecoava contra as paredes de mármore da montanha.
— Padre nosso que estais no céu — entoavam, e a voz rouca de cansaço se elevava mesmo assim —, não circunscrito, mas por mais amor que tendes aos vossos primeiros efeitos lá no alto…
Segui atrás deles, observando como cada sílaba parecia arrancada com esforço. Meu mestre Virgílio caminhava em silêncio, mas seus olhos atentos registravam cada detalhe. As sombras cantavam sobre o pão cotidiano, sobre o perdão concedido como se esperava receber, sobre a tentação que não ousavam pedir para ser poupados a eles mesmos, mas sim àqueles que tinham ficado para trás.
Eles rezam pelos vivos, percebi. Mesmo aqui, no coração do sofrimento, estendem a mão para nós.
— Se a justiça e a piedade os aliviarem em breve — a voz de Virgílio rompeu o ar, dirigindo-se às almas curvadas —, mostrem-nos por onde se vai mais rápido para a escada. E se houver mais de uma passagem, ensinem-nos aquela que desce menos íngreme. Porque este que vem comigo, pelo fardo da carne de Adão com que se veste, ao subir vai contra a própria vontade, devagar.
As almas não responderam de imediato. Houve um murmúrio, uma troca de palavras que não consegui distinguir. Por fim, uma voz emergiu do grupo, vindo de algum lugar entre aqueles corpos dobrados.
— Pela margem direita venham conosco — disse a sombra —, e encontrarão o passo possível para subir por alguém ainda vivo.
Houve uma pausa. Pude ouvir a respiração pesada do penitente que falava.
— E se eu não fosse impedido pela pedra que doma minha cerviz soberba — continuou, e notei um amargor naquelas palavras —, de modo que sou forçado a manter o rosto baixo, eu olharia para este que ainda vive e não se nomeia, para ver se o conheço, e para fazê-lo piedoso deste meu fardo.
A curiosidade me atravessou como uma lâmina. Quem era aquele que falava com tamanha autoridade mesmo na humilhação?
— Fui latino — disse a sombra — e nascido de um grande toscano. Guilherme Aldobrandesco foi meu pai. Não sei se o nome dele já chegou até vocês. O sangue antigo e as obras graciosas de meus maiores me fizeram tão arrogante que, não pensando na mãe comum de todos, tive cada homem em desprezo. Morri por isso. Os seneses sabem, e qualquer criança em Campagnático conhece a história. Sou Omberto. E não apenas a mim a soberba faz dano, pois todos os meus parentes ela arrastou consigo para a desgraça. E aqui devo carregar este peso por ela, até que Deus se satisfaça, já que não o fiz entre os vivos, faço-o entre os mortos.
Escutei com a cabeça baixa. Quantos como ele, pensei, quantos que se julgavam acima de todos agora rastejam sob o peso da própria arrogância.
Foi então que uma das outras almas, não aquela que acabara de falar, torceu o corpo sob o peso que a esmagava. Seus olhos se fixaram em mim com esforço visível, e algo em seu rosto se iluminou.
— Oh! — exclamei, reconhecendo os traços mesmo sob o sofrimento —, não és tu Oderisi, a honra de Gubbio e a honra daquela arte que em Parisi se chama iluminura?
O homem que um dia fora o maior dos miniaturistas sorriu, e havia ali uma tristeza que doía mais que qualquer lamento.
— Irmão — respondeu —, mais risonhas são as cartas que pinta Franco Bolonhês. Toda a honra é agora sua, e minha apenas em parte. Não teria sido tão cortês enquanto vivia, pelo grande desejo da excelência onde meu coração se fixava. Desta soberbia se paga aqui o preço. E ainda não estaria aqui, não fosse que, podendo pecar, voltei-me para Deus.
Ele fez uma pausa, e quando voltou a falar, sua voz tinha o tom de quem já refletiu sobre aquilo por séculos.
— Ó vã glória do poder humano! Como pouco verde no topo dura, se não chegam as idades grosseiras! Cimabue acreditava, na pintura, segurar o campo, e agora Giotto tem o grito, de modo que a fama daquele se escurece. Assim tirou um ao outro Guido a glória da língua, e talvez já tenha nascido quem caçará ambos do ninho.
Suas palavras me golpearam. Quantas vezes me preocupei com minha própria fama, admiti para mim mesmo, envergonhado.
— O rumor mundano não é mais que um sopro de vento — continuou Oderisi —, que vem de um lado e de outro, e muda de nome porque muda de lado. Que fama terás tu mais, se te separares da carne velha, do que se tivesses morrido antes de deixar o “papá” e o “dindin”? Antes que passem mil anos, que é espaço mais curto diante da eternidade que um piscar de olhos diante do círculo mais lento do céu?
Ele apontou com um gesto mínimo para a sombra que caminhava adiante.
— Aquele que do caminho toma tão pouco diante de mim, fez a Toscana toda soar seu nome. E agora mal se cochicha em Siena, onde foi senhor quando foi destruída a raiva florentina, que era tão soberba naquele tempo quanto agora é puta. Vossa nomeança é cor de erva, que vem e vai, e aquela a descolore por quem sai da terra acre.
Senti uma onda de humildade me invadir, tão poderosa quanto a fadiga que me queimava os músculos.
— Teu verdadeiro dizer me encoraja à boa humildade — respondi — e me aplana grande tumor. Mas quem é aquele de quem falavas agora?
— É Provenzano Salvani — respondeu Oderisi —, e está aqui porque foi presunçoso ao tomar Siena toda em suas mãos. Anda assim, sem repouso, desde que morreu. Esta moeda paga para satisfazer quem foi lá em cima demasiado ousado.
Uma pergunta me escapou antes que pudesse contê-la, movida pela lógica e pelo espanto.
— Se aquele espírito que espera, antes de se arrepender, a beira da vida, aqui embaixo permanece e lá em cima não sobe, se boa oração não o ajuda, antes que passe tempo quanto viveu, como lhe foi concedida a vinda para cá?
Oderisi ergueu os olhos, e neles vi uma centelha de admiração.
— Quando vivia mais glorioso — disse —, livremente no Campo de Siena, deposta toda vergonha, se postou. E ali, para tirar seu amigo da pena que sofria na prisão de Carlos, se conduziu a tremer por cada veia. Não direi mais, e escuro sei que falo. Mas pouco tempo passará, e teus vizinhos farão de modo que possas explicá-lo. Esta obra lhe removeu aqueles confins.
Fiquei em silêncio, tentando decifrar o enigma. Um ato de humildade, compreendi, praticado ainda no auge do orgulho, que lhe valeu a salvação. A ironia divina era tão bela quanto implacável.
Oderisi voltou a se curvar sob seu fardo, e o cortejo das almas soberbas continuou sua marcha lenta. A prece recomeçou, mais forte agora, como se cada palavra fosse uma pedra que removiam do próprio peito.
Olhei para Virgílio. Seu olhar encontrou o meu, e ele assentiu em silêncio. Não precisávamos de palavras. A lição estava ali, naquelas costas dobradas, naquelas vozes que pediam pelo outro mesmo em seu próprio suplício.
Continuei subindo, e cada passo doía menos. Ou talvez eu apenas tivesse começado a entender que a dor, às vezes, é o primeiro degrau da liberdade.