Canto VII

A descida para o quarto círculo foi recebida por uma voz que parecia rasgar o próprio ar.

— Pape Satã, pape Satã aleppe! — a exclamação gutural saiu da boca escancarada de Plutão, a fera lendária que guardava os condenados da avareza. Seu olhar inflamado e sua língua grossa mal articulavam aquelas sílabas infernais, mas eu recuei mesmo assim, sentindo o coração apertado pela súbita ameaça.

Meu mestre, porém, permaneceu imperturbável. Com a sabedoria de quem já conhecia todas as armadilhas do abismo, Virgílio tocou meu braço:

— Não te deixe abalar pelo medo. Por mais poder que essa criatura tenha, ela não vai impedir nossa passagem por esta rocha.

Em seguida, voltou-se para o guardião de lábio inchado e arrogante. Sua voz soou firme, quase cansada:

— Cale-se, lobo maldito. Consuma-se por dentro com sua própria raiva. Não é sem razão que caminhamos para o fundo escuro: está querido lá no alto, onde Miguel realizou a vingança contra a soberba violação.

O efeito foi imediato e quase patético. Como velas infladas pelo vento caem embrulhadas quando o mastro se quebra, assim a fera cruel tombou no chão, reduzida a um amontoado inofensivo.

Seguimos adiante, descendo para a quarta fossa, agarrados à encosta dolorida que armazena todo o mal do universo. Justiça de Deus, pensei, sentindo o peso daquelas palavras ecoando na mente, quantas novas penas e sofrimentos você acumula aqui? E por que nossa própria culpa nos destrói dessa maneira?

O som que emergiu do círculo seguinte me respondeu antes de qualquer raciocínio. Era um rugido contínuo, uma coreografia de impacto e fratura. Como as ondas sobre Caríbdis se quebram umas nas outras ao se encontrarem, assim aquelas almas eram forçadas a dançar.

Havia gente ali, mais gente do que em qualquer outro lugar. Dois grupos imensos, em ambos os lados do círculo, avançavam com urros descomunais, empurrando enormes pesos com o peito. Eles se chocavam uns contra os outros e, naquele ponto de impacto, cada um recuava cambaleante, rodando para trás enquanto gritavam com ferocidade:

— Por que você retém? — e o outro lado respondia — Por que você arremessa?

Assim retornavam pela sombria circunferência, cada um em direção ao ponto oposto, gritando entre si aquela vergonhosa litania. Ao se reencontrarem no meio, a giostra recomeçava, impiedosa, eterna.

Senti meu peito quase partido de compaixão e perplexidade.

— Mestre — disse, apontando para a multidão —, agora me mostre que gente é esta. E se todos aqueles de cabeça raspada do lado esquerdo foram clérigos.

Virgílio assentiu, com a expressão grave:

— Todos eles foram tão vesgos da mente em sua primeira vida que nenhum gasto fizeram com medida. Suas próprias vozes uivam essa verdade quando chegam aos dois pontos do círculo onde a culpa contrária os separa. Esses que não têm cobertura de cabelo na cabeça são clérigos, papas e cardeais, em quem a avareza exerceu seu excesso.

Olhei novamente para aquelas fileiras de tonsurados e figuras eclesiásticas, agora reduzidas a carregadores eternos. Tentei distinguir rostos familiares, alguma silhueta que me trouxesse memória de Florença ou das cortes papais.

— Mestre, entre esses eu deveria reconhecer alguns que foram imundos por tais vícios.

— Pensamento vão o teu — respondeu ele com dureza. — A vida desalmada que os tornou imundos agora os torna indistintos a qualquer reconhecimento. Para sempre virão a esses dois choques: estes ressurgirão do sepulcro com o punho fechado — os avarentos, entendi —, e aqueles com os cabelos cortados — os pródigos. O mal dar e o mal ter lhes tiraram o mundo belo e os puseram nesta zanga. Como ela seja, não vou enfeitá-la com palavras.

Houve uma pausa. Apenas o ruído surdo dos pesos se chocando e os gritos rituais preenchiam o ar espesso.

— Agora podes ver, filho — continuou Virgílio, com um tom quase professoral —, a curta paródia dos bens confiados à Fortuna, aquela que faz a humanidade se enfurecer. Porque todo o ouro que está sob a lua e todo aquele que já existiu não poderia fazer descansar uma sequer dessas almas exaustas.

Senti a curiosidade me queimar por dentro. Aproximei-me mais do meu guia:

— Mestre, me diga também: essa Fortuna de que você me toca, o que é exatamente, ela que tem os bens do mundo entre suas garras?

Virgílio suspirou, como quem está prestes a explicar algo óbvio a uma criança teimosa:

— Ó criaturas tolas, quanta ignorância vos ofende! Agora quero que você engula minha sentença. Aquele cujo saber tudo transcende fez os céus e deu a eles quem os conduz, de modo que cada parte brilhe para cada outra, distribuindo igualmente a luz. Do mesmo modo, para os esplendores mundanos, ordenou uma administradora geral e guia que trocasse no tempo certo os bens vãos de gente em gente e de um sangue a outro, para além da defesa dos sentidos humanos.

Ele apontou para o movimento incessante das almas ao fundo:

— Por isso um povo impera e o outro definha, seguindo o julgamento dela — que é oculto como a serpente na erva. Vosso saber não pode enfrentá-la. Ela provê, julga e persegue seu reino como os outros deuses fazem com os deles. Suas permutações não têm trégua; a necessidade a torna veloz, e assim sempre chega quem sucede ao outro. Esta é aquela que é tão crucificada por aqueles que deveriam louvá-la, dando-lhe culpa injusta e má fama. Mas ela é bem-aventurada e não ouve isso: com as outras criaturas primordiais, feliz, roda sua esfera e goza sua beatitude.

Houve um momento de silêncio interior enquanto eu absorvia aquela lição cósmica. A Fortuna não é uma deusa cega, percebi, mas uma ministra necessária.

— Agora desçamos logo a maiores dores — disse Virgílio, quebrando o encanto. — Já cada estrela que subia quando me pus a caminho está caindo, e demorar demais não é permitido.

Atravessamos o círculo até a outra margem, chegando a uma fonte que borbulhava e derramava suas águas por um fosso que dela derivava. O líquido era escuro, mais do que o roxo mais profundo. Acompanhados pelas ondas cinzentas, entramos por um caminho diferente, que nos levou diretamente a um pântano.

— Esse riacho triste se chama Estige — explicou Virgílio, enquanto eu pisava com repugnância na lama fria —, quando desce ao pé das malignas praias cinzentas.

Eu estava absorto naquele espetáculo lodoso quando vi as figuras emergindo do breu. Gentes barrentas no pantanal, todas nuas, com os rostos desfigurados pela raiva. Elas se batiam não só com as mãos, mas com a cabeça, o peito e os pés, mordendo umas às outras e arrancando pedaços com os dentes.

— Filho — disse o bom mestre —, agora vê as almas daqueles que foram vencidos pela ira. E quero que acredites com certeza que debaixo da água há gente que suspira e faz borbulhar este líquido até a superfície, como teu olho pode ver onde quer que se vire.

Parei e observei com mais atenção. Pequenas bolhas emergiam de todos os lados, como se o próprio pântano respirasse. Então ouvi — ou imaginei ouvir — um som gutural, um gorgolejo que vinha das profundezas. Eram vozes, tentando formar palavras.

— Fomos tristes — diziam os afogados, com a fala presa na garganta — no ar doce que se alegra com o sol, carregando dentro de nós uma fumaça preguiçosa. Agora nos entristecemos na lama negra.

Não conseguiam cantar seu hino senão desse modo, com sons quebrados, incapazes de formar palavras íntegras.

Assim rodamos a grande poça suja, entre a margem seca e o centro, com os olhos voltados para aqueles que engoliam o lodo. A noite eterna estava em seu auge, ou algo parecido, quando finalmente chegamos ao pé de uma torre, alta e solitária na escuridão.

Apenas paramos. A estrutura se erguia diante de nós como uma interrogação de pedra. Mais além, eu sabia, novos círculos nos aguardavam. Mas naquele momento, exausto e encharcado pela umidade fétida, só pude olhar para meu mestre e esperar.

Ele já caminhava em direção à base da torre, e eu o segui, pisando no limo espesso, enquanto o Estige borbulhava ao nosso redor como uma ferida aberta nas entranhas do mundo.