Canto VI

Aos poucos, a névoa do desmaio foi se dissipando. A lembrança daquelas duas almas gêmeas condenadas — Paolo e Francesca, arrastados para sempre pelo vento infernal — ainda apertava meu peito como um punho de gelo. Mas não havia tempo para piedade. Quando meus olhos se reabriram para a escuridão, percebi que estávamos em outro lugar.

Novos tormentos. Novos condenados. Por mais que eu virasse a cabeça, em qualquer direção que meu olhar se perdesse, via apenas sofrimento.

— O terceiro círculo — disse Virgílio, minha guia, com sua voz grave e calma.

E então senti. Uma chuva eterna, maldita, fria e pesada, caía sem cessar sobre aquele chão imundo. Não era como as chuvas de Florença, que traziam cheiro de terra molhada e promessa de primavera. Aqui, o céu escuro despejava granizo grosso, água suja e neve — uma mistura sórdida que tornava o ar quase sólido. A terra putrefata que recebia aquela lama exalava um fedor de túmulo aberto.

E no meio desse caos, uma besta.

Cerberus. Não o cão de três cabeças das lendas antigas, mas algo muito pior. Suas goelas latejavam num latido contínuo, canino e bestial, sobre as almas que se debatiam naquela lama hedionda. Os olhos eram vermelhos como brasa, a barba untada de gordura escura, o ventre imenso e as patas terminadas em garras que rasgavam os espectros, esfolando e despedaçando sem piedade.

As almas gritavam como cães sob a chuva. Se viravam de um lado para o outro, tentando se proteger com os próprios corpos translúcidos, mas a cobertura era inútil. Os miseráveis profanos se reviravam sem trégua.

Quando Cerberus me viu, aquelas três bocas se escancararam. As presas reluziram na penumbra, e o monstro inteiro tremia de fome e fúria. Meu sangue gelou na hora.

Mas Virgílio não hesitou. Estendeu as mãos, juntou terra do chão enlameado e atirou punhados dentro daquelas goelas famintas.

Foi como ver um cão de guarda que late e late até morder a comida e, enfim, sossegar, concentrado apenas em devorar. As três faces sujas do demônio se aquietaram. Cerberus se calou. Apenas rosnava baixo enquanto engolia, atordoado, e as almas ao redor — que prefeririam ser surdas a ouvir aquele latido infernal — tiveram um momento de alívio.

Passamos sobre as sombras. A chuva pesada as achatava contra o chão, e eu pisava naquilo que um dia foram corpos, agora meras vaidades sem substância, aparências de gente.

A maioria jazia imóvel. Mas uma delas se ergueu de repente, sentando-se no meio da lama, assim que me viu passar.

— Você aí, que atravessa este inferno — disse a sombra, com uma voz que parecia vir de um poço seco. — Reconheça-me, se é capaz. Você foi feito antes que eu fosse desfeito.

Olhei para aquela figura dilacerada pela chuva. O rosto era vago, familiar como uma lembrança que não se completa.

— A agonia que você sofre — respondi — talvez apague sua imagem da minha mente. Não parece que eu o tenha visto nunca. Mas diga-me quem é você, jogado num lugar tão doloroso que, mesmo que existam penas piores, nenhuma é tão repugnante quanto esta.

A sombra suspirou.

— Sua cidade — disse —, Florença, cheia de inveja a ponto de o saco transbordar… ela me teve em sua vida serena. Vocês, cidadãos, me chamavam de Ciacco. Pela culpa danosa da gula, como vê, me quebro sob esta chuva.

Senti um peso no peito. Ciacco — o nome ecoava em alguma parte remota da memória. Um florentino como eu. Um homem que se entregara à comida e ao vinho até que o apetite o consumisse por completo.

— E não sou o único — continuou ele, com amargura. — Todas estas almas aqui sofrem a mesma pena, pela mesma culpa.

Calou-se. A chuva batia em sua cabeça curvada.

— Ciacco — respondi, e minha voz saiu mais grave do que eu esperava. — Seu sofrimento me pesa tanto que me convida às lágrimas. Mas me diga, se você sabe: que fim terão os cidadãos da cidade dividida? Há algum justo entre eles? E qual é a razão de tanta discórdia ter assolado Florença?

Ele ergueu o rosto. Seus olhos vazios pareciam enxergar um futuro que eu ainda desconhecia.

— Depois de longa tensão — disse —, chegarão ao sangue. A parte selvagem expulsará a outra com muitas ofensas. Depois, dentro de três sóis, essa mesma parte cairá, e a outra se levantará com a força de alguém que agora lisonjeia. Manterá a testa erguida por muito tempo, mantendo a outra sob pesados fardos — mesmo que isso traga choro e vergonha.

Fechei as mãos. Guelgos e gibelinos. Negros e brancos. A profecia era obscura, mas o cheiro de guerra civil impregnava cada palavra.

— Dois justos há — continuou Ciacco —, mas ninguém os escuta. Soberba, inveja e avareza são as três faíscas que incendiaram os corações.

Sua voz se apagou como uma fogueira encharcada.

Ainda assim, precisei saber mais.

— Ensina-me ainda — insisti. — Farinata, Tegghiaio, que foram tão dignos, Jacopo Rusticucci, Arrigo, Mosca e outros que puseram engenho em bem fazer… diga-me onde estão. Deixa que eu os conheça. Um grande desejo me aperta para saber se o céu os adoça ou o inferno os envenena.

Ciacco balançou a cabeça.

— Estão entre as almas mais negras. Culpas diversas os puxam para o fundo. Se você descer o bastante, poderá vê-los. Mas quando estiver de volta ao doce mundo, te peço: traga-me à memória dos vivos. Não te digo mais nada, nem te respondo.

Seus olhos retos se torceram em vesgos. Fitou-me por um instante — um segundo apenas — e então abaixou a cabeça. Caiu com ela, igual aos outros cegos na lama.

Fiquei olhando o corpo informe de Ciacco ser coberto pela neve suja. Virgílio tocou meu ombro.

— Não se levanta mais daqui até o som da trombeta angélica — disse o mestre —, quando vier a potestade inimiga. Cada um reverá sua triste tumba, retomará sua carne e sua figura, ouvirá o que ressoa pela eternidade.

Caminhamos sobre aquela mistura sórdida de sombras e chuva. Passos lentos. E enquanto pisávamos naquela humanidade degradada, uma questão começou a queimar na minha língua.

— Mestre — perguntei, tentando desviar o olhar de um espectro que chorava com a boca cheia de lama —, esses tormentos vão aumentar depois do grande julgamento? Ou diminuirão? Ou serão igualmente ardentes?

Virgílio nem hesitou.

— Retorna à tua ciência — respondeu. — Ela quer que, quanto mais perfeita é uma coisa, mais sente o bem e também a dor. Embora esta gente amaldiçoada nunca atinja a verdadeira perfeição, depois da ressurreição espera sentir mais do que agora.

A imagem me atingiu como um punhal. Os corpos voltarão. Ossos, carne, nervos — tudo reavivado para sentir cada gota de chuva, cada garra de Cerberus, com uma intensidade que a alma sozinha jamais poderia experimentar.

Seguimos em frente. A chuva não cessava, os gemidos não se calavam. Contornamos a estrada em círculo, falando mais do que consigo repetir — sobre justiça, sobre esperança, sobre o que nos esperava nas camadas mais fundas. Até que chegamos ao ponto onde o terreno começava a declinar.

Ali, diante da descida para o quarto círculo, encontramos Plutão.

O grande inimigo nos esperava.