Canto V

Desci do primeiro círculo arrastando o peso da escuridão nos ombros. O segundo me acolheu com um abraço mais apertado — menos espaço, mais dor. Cada passo ecoava como um lembrete de que ali a agonia não era punição, mas linguagem.

E então eu o vi. Minos, besta antiga, se erguia diante da entrada com um rugido que parecia vir do fundo dos séculos. Ele examinava as almas uma a uma, ouvia suas confissões completas — porque ali ninguém podia esconder nada — e depois, com o rabo, enrolava-se em voltas precisas: cada volta, um círculo. Tantas voltas quantas o pecador devia descer. O inferno era uma espiral de culpa, e ele, o arquiteto.

Almas se acumulavam na fila do julgamento. Cada uma se aproximava, falava, ouvia sua sentença e tombava no abismo.

Foi quando Minos me viu.

— Tu que chegas a esta hospedaria dolorosa — interrompeu o veredicto de algum coitado e virou para mim aqueles olhos de fera. — Cuida por onde entras e em quem confias. Não te iluda a largura da porta.

O coração bateu mais fundo. Será que ele pode me condenar também?

Mas meu guia, Virgílio, deu um passo à frente, com a autoridade de quem já viu o impossível:

— Por que gritas? Não impeças seu andar fatal. Assim se quer lá onde se pode tudo o que se quer. E não perguntes mais.

Minos calou. A obediência veio como um vento que apaga um incêndio. Seguimos.

E então começaram as notas dolorosas. Eu as senti antes de ouvi-las — uma vibração na carne, um alerta de que o ar ao redor estava prestes a virar lamento. Cheguei a um lugar sem luz, onde o som não era música, mas choro bruto, um mugido igual ao mar em tempestade quando ventos contrários o esquartejam.

A tempestade infernal nunca descansa. Ela agarra os espíritos, revolve-os, bate-os como folhas secas. As almas dos condenados giram, colidem, gemem. E quando chegam ao ponto da ruína, as palavras que escapam não são súplicas — são blasfêmias contra o poder divino.

Compreendi, ali, o tormento: eram os pecadores carnais, os que submeteram a razão ao desejo. Como estorninhos no inverno — em bando largo, denso, carregados pelo frio — assim o vento os levava para cá, para lá, para cima, para baixo. Sem nenhuma esperança, nem mesmo de uma dor menor.

E como grous que voam cantando seus ais, formando longa linha no céu, eu vi vindo em nossa direção essas sombras arrastadas pelo vendaval.

— Mestre — perguntei, com a voz saindo mais grave do que eu queria —, quem são essas pessoas que o vento negro castiga com tanto rigor?

Virgílio apontou a primeira:

— Aquela de quem queres saber foi imperatriz de muitas línguas. Semíramis. Tão rota pelo vício da luxúria que tornou lícito em sua lei o que o desejo pedia, para não carregar a culpa. Sucedeu a Nino, foi sua esposa, governou a terra que hoje o Soldão comanda.

Ele continuou, o dedo cortando o ar:

— A outra é Dido. Matou-se por amor, quebrou a fé jurada às cinzas de Siqueu. E ali, Cleópatra, a luxuriosa. Vês Helena? Por ela tanto tempo cruel se passou. E o grande Aquiles, que ao fim combateu com o amor. Vês Paris, Tristão.

Mostrou-me mais de mil sombras, nomeou cada uma com a precisão de quem as conhecia desde antes do mundo. Todas arrancadas da vida por amor.

Quando ouvi meu mestre nomear aquelas damas e cavaleiros antigos, uma piedade tão funda me atingiu que quase perdi o chão. Como pode o amor levar a tais abismos?

— Poeta — comecei, já sentindo o nó na garganta —, eu falaria de bom grado com aqueles dois que vão juntos, tão leves parecem ao vento.

Virgílio me olhou com a paciência de quem sabia o que viria:

— Quando estiverem mais perto, pede pelo amor que os conduz. Eles virão.

O vento os curvou na nossa direção. Não esperei mais.

— Almas aflitas — chamei, tentando que minha voz não tremesse —, venham falar conosco, se ninguém o proíbe!

Como pombas chamadas pelo desejo, com as asas erguidas e firmes, voando para o doce ninho, assim elas saíram da fileira onde estava Dido e atravessaram o ar maligno até nós. Aquele grito afetuoso foi tão forte que venceu a tempestade.

A mulher falou primeiro, com uma voz que não parecia vir de um fantasma, mas de alguém que ainda sentia o calor do sangue:

— Ó criatura graciosa e benigna, que vens visitar pelo ar sombrio nós que tingimos o mundo de vermelho — ela hesitou, e eu vi que mesmo ali, no inferno, existia uma forma de cortesia. — Se o rei do universo fosse nosso amigo, pediríamos a ele por tua paz, já que tens piedade do nosso mal perverso. Do que quiseres ouvir ou falar, ouviremos e falaremos, enquanto o vento, como faz, nos cala.

Ela suspirou. O companheiro ao lado não desgrudava os olhos dela.

— Nasci na terra banhada pelo mar onde o Pó desce para ter paz com seus seguidores. O amor, que ao coração gentil depressa se apreende, tomou este homem pela bela pessoa que me foi tirada — e o modo como a perdi ainda me ofende. O amor, que a nenhum amado perdoa amar, tomou-me por ele com um prazer tão forte que, como vês, ainda não me abandona. O amor nos conduziu a uma só morte. Caina espera quem nos tirou a vida.

Foi quando eu entendi. Francesca. Paolo.

As palavras caíram sobre mim como uma avalanche silenciosa. Baixei o rosto. Baixei tanto que só ouvia o vento e o próprio sangue nos ouvidos.

— Que pensas? — perguntou Virgílio.

Quando consegui responder, foi com um murmúrio:

— Oh, miserável. Quantos doces pensamentos, quanto desejo levaram estas almas ao passo doloroso.

Virei-me para eles. Para ela.

— Francesca — disse, e meu peito doía como se as pedras do inferno estivessem empilhadas sobre ele —, teus martírios me fazem chorar de tristeza e piedade. Mas dize-me: no tempo dos doces suspiros, a que e como concedeu o Amor que conhecêsseis os duvidosos desejos?

Ela baixou os olhos por um instante. Depois ergueu-os com uma coragem que só o desespero pode dar:

— Não há maior dor do que recordar o tempo feliz na miséria — e isso teu doutor bem sabe. Mas se tens tanto desejo de conhecer a primeira raiz do nosso amor, direi como quem chora e fala.

Nós líamos um dia, por prazer, de Lancelote — como o amor o prendeu. Estávamos sós, sem nenhum receio. Várias vezes aquela leitura fez nossos olhos se encontrarem e empalidecer nossos rostos. Mas foi um só ponto que nos venceu. Quando lemos o sorriso desejado ser beijado por tão grande amante, este — que jamais de mim será separado — beijou minha boca, todo trêmulo. Galeoto foi o livro, e quem o escreveu. Naquele dia, não lemos mais adiante.

Enquanto uma das almas dizia isso, a outra chorava. E eu — eu desmaiei de tanta piedade como se fosse morrer.

Caí como cai um corpo morto.