Canto IV

Um trovão explosivo rasgou o sono que me pesava na cabeça, e eu despertei como quem é sacudido à força. Pulei para os pés, os olhos ainda pesados, e virei o rosto ao redor, tentando fixar o lugar onde me encontrava. A verdade é que estava na borda do vale do abismo doloroso, aquele que recolhe o estrondo de infinitos gemidos. Escuro, profundo, envolto em névoa – por mais que forçasse a visão para o fundo, não conseguia distinguir coisa alguma.

— Agora desçamos aqui para o mundo cego – começou Virgílio, o rosto pálido como se tivesse visto a morte. – Eu irei primeiro, e tu virás depois.

Percebi o seu tremor e uma ponta de gelo me atravessou.

— Como poderei seguir, se você mesmo está apavorado? Você sempre foi meu amparo nos momentos de dúvida.

Ele respondeu sem hesitar:

— É a angústia das almas que estão aqui embaixo. Pinta no meu rosto a piedade que você sente como medo. Vamos, que o longo caminho nos empurra.

E assim ele se pôs em movimento, e me fez entrar no primeiro círculo que cerca o abismo.

Ali, pelo que pude ouvir, não havia choro – apenas suspiros que faziam tremer o ar eterno. Vinham de uma multidão imensa, sem martírio físico, apenas dor. Homens, mulheres, crianças. Almas sem pecado, mas sem salvação.

O bom mestre leu minha confusão antes mesmo que eu abrisse a boca.

— Você não pergunta que espíritos são esses? Quero que saiba, antes de seguirmos: eles não pecaram. Tiveram méritos, mas não basta. Faltou-lhes o batismo, a porta da fé que você professa. E os que viveram antes do cristianismo não adoraram a Deus como deviam. Eu mesmo sou um desses.

Meu coração se apertou. Conhecia ali gente de altíssimo valor, suspensa nesse limbo sem esperança. Senti a necessidade de uma certeza maior.

— Diga-me, mestre, senhor – comecei, querendo firmar a fé que vence todo erro. – Algum deles já saiu daqui? Por seus próprios méritos ou pelos de outro? Para tornar-se bem-aventurado?

Virgílio compreendeu minha pergunta nas entrelinhas.

— Eu era recém-chegado a este estado – revelou – quando vi descer um Poderoso, coroado com o sinal da vitória. Ele arrancou daqui a sombra do primeiro pai, Adão, a de seu filho Abel, a de Noé, de Moisés, o legislador obediente, do patriarca Abraão, do rei Davi, de Israel com seu pai e seus filhos, e de Raquel, por quem ele tanto fez. E muitos outros. Tornou-os bem-aventurados. Mas saiba: antes deles, nenhum espírito humano se salvou.

Não paramos de caminhar enquanto ele falava. Atravessávamos a selva – a selva de espíritos densos, almas aglomeradas. Ainda não estávamos longe do local onde eu havia despertado, quando avistei um fogo que vencia o hemisfério de trevas. Ficava a alguma distância, mas dava para perceber: aquela era a morada de gente honrada.

— Ó você, que honra a ciência e a arte – perguntei a Virgílio –, quem são esses que gozam de tanta distinção, separados do resto?

Ele respondeu:

— A fama honrosa que deles ecoa lá no seu mundo conquista graça no céu, e é isso que os eleva.

Nesse instante, uma voz cortou o ar:

— Honrai o altíssimo poeta! Sua sombra, que havia partido, retorna!

O silêncio voltou, e vi quatro grandes sombras se aproximarem. Nem tristes, nem alegres. Virgílio tomou a palavra:

— Olha aquele com a espada na mão, que vem à frente dos três como senhor. É Homero, o poeta soberano. O segundo é Horácio, o satírico. O terceiro, Ovídio. O último, Lucano. Como cada um deles tem o mesmo nome que a voz solitária proclamou – poeta –, me prestam honra, e fazem bem em fazer isso.

Vi então se reunir a bela escola daquele senhor do canto altíssimo, que sobre os outros voa como águia. Depois de conversarem entre si por um instante, voltaram-se para mim com um aceno de saudação, e meu mestre sorriu. Fizeram-me ainda mais honra: admitiram-me em sua companhia, e fui o sexto entre tanto saber.

Caminhamos até a luz, falando de coisas que é belo calar – assim como era belo falar ali onde estávamos. Chegamos ao sopé de um nobre castelo, cercado sete vezes por altas muralhas, protegido por um riacho límpido. Atravessamos como se fosse terra firme, entrei por sete portões com aqueles sábios, e saímos num prado de fresca verdura.

Ali estavam pessoas de olhar lento e grave, com autoridade estampada no semblante. Falavam pouco, com vozes suaves. Ficamos num dos cantos, em lugar aberto, luminoso e alto, onde se podia ver todos.

Sobre o verde esmalte do gramado, os espíritos magnos me foram mostrados. E a visão me arrebatou. Vi Electra com muitos companheiros, reconheci Heitor e Eneias, César armado com olhos de falcão. Vi Camila e Pantasileia. Do outro lado, o rei Latino sentado com sua filha Lavínia. Vi o Bruto que expulsou Tarquínio, Lucrécia, Júlia, Márcia e Cornélia. E sozinho, à parte, vi Saladino.

Ergando um pouco mais o olhar, vi o mestre daqueles que sabem – Aristóteles – sentado entre a família filosófica. Todos o contemplavam, todos lhe prestavam honra. Ali vi Sócrates e Platão, mais perto dele que os outros. Demócrito, que atribui o mundo ao acaso, Diógenes, Anaxágoras, Tales, Empédocles, Heráclito, Zenão. E vi o bom coletor das qualidades – Dioscórides. Vi Orfeu, Túlio, Lino, Sêneca, o moralista. Euclides, o geômetra, Ptolomeu, Hipócrates, Avicena, Galeno, Averróis, que fez o grande comentário.

Não consigo descrever todos a pleno, pois o longo tema me empurra, e muitas vezes a palavra falta diante de tanto fato.

A sexta companhia então se reduz a dois: por outro caminho me conduz o sábio duque, para fora da quietude, no ar que treme. E chego a uma parte onde não há luz.