Canto XXXIV

As forças se arrastavam no ar gelado quando a voz do meu mestre cortou a escuridão como uma lâmina.

— Vexilla regis prodeunt inferni — disse Virgílio, e cada sílaba ecoava contra as paredes de gelo. — Vêm em nossa direção. Portanto, olhe adiante, se puder distinguir.

Apertei os olhos, tentando penetrar a névoa espessa que se adensava diante de nós como um sudário. O hemisfério inteiro parecia envolto na noite eterna, e por um instante julguei avistar ao longe uma estrutura em movimento, algo como um moinho girando sob a pressão do vento. Mas era apenas uma ilusão, um truque da minha mente exausta. Senti o sopro gélido bater no meu rosto e recuei, encostando-me ao meu guia, pois ali não havia nenhuma gruta onde pudéssemos nos abrigar.

Já estávamos no ponto que eu hesito até mesmo em descrever, onde todas as sombras jaziam cobertas pelo gelo, translúcidas como palhas presas em vidro. Algumas estavam deitadas, outras de pé, estas de cabeça para baixo, aquelas com o rosto curvado até os pés como arcos tensos. Caminhamos mais, e só quando Virgílio julgou que eu estava pronto, ele se adiantou e ordenou que eu parasse.

— Eis Dite — anunciou, apontando para a figura colossal que emergia do bloco de gelo. — Eis o lugar onde você precisa armar-se com toda a coragem.

O que sou diante disso? O pensamento escapou como um sussurro antes que eu pudesse contê-lo.

Não me pergunte, leitor, o que senti naquele instante. Não há palavras para descrever o horror que me petrificou. Eu não morri, mas também não continuei vivo. Pense por si mesmo, se sua inteligência for capaz, o que me tornei, privado da vida e da morte ao mesmo tempo.

O imperador do reino doloroso emergia do gelo até a metade do peito. Se eu comparo sua estatura à de um gigante, os próprios gigantes seriam anões diante de seus braços. Imagine então a enormidade desse corpo todo. Se ele foi tão belo outrora quanto é hediondo agora, tendo ousado erguer as sobrancelhas contra seu Criador, compreende-se que toda aflição proceda dele.

Quando vi as três faces em sua cabeça, pasmo tomou conta de mim. Uma dianteira, vermelha como brasa viva. Duas laterais, unindo-se à primeira sobre o meio de cada ombro e encontrando-se no alto onde ficaria a crista. A face direita tinha um tom entre o branco e o amarelo; a esquerda parecia vir das terras onde o Nilo se precipita no abismo. Debaixo de cada uma brotavam asas enormes, proporcionais àquela ave monstruosa — velas de navio não se comparavam. Não tinham penas, mas a textura de morcegos, e ao batê-las produziam três ventos que congelavam todo o Cocito.

Seis olhos choravam, e por três queixos escorriam lágrimas misturadas a baba sanguinolenta. Em cada boca, os dentes trituravam um pecador como se fosse linho numa maçola, fazendo três sofredores se contorcerem ao mesmo tempo.

— A alma lá em cima que sofre a maior pena — explicou Virgílio, apontando para a boca central — é Judas Iscariotes. Tem a cabeça para dentro e as pernas penduradas para fora. Dos outros dois que têm a cabeça para baixo, aquele que se debate pendurado pelo focinho negro é Bruto. Veja como se retorce sem dizer palavra. E o outro, de corpo tão membrudo, é Cássio.

Observei os três traidores sendo devorados vivos pela eternidade, e um arrepio que nada tinha a ver com o frio percorreu minha espinha. Mas Virgílio não me deu tempo para contemplação.

— A noite está subindo de novo — disse, a voz grave e apressada. — É hora de partir. Já vimos tudo.

Obedeci sem hesitar. Enlacei o pescoço do meu mestre com os braços, e ele escolheu o momento e o lugar certos. Quando as asas de Lúcifer se abriram o bastante, Virgílio se agarrou aos pelos daquela costas peludas e começou a descer, de tufo em tufo, entre a grossa pelagem e as crostas geladas.

Chegamos ao ponto onde a coxa se articula com os quadris, e ali meu guia, com esforço e angústia, virou a cabeça na direção onde as pernas estavam. Agarrou-se aos pelos como quem sobe, e eu pensei que estávamos retornando ao Inferno.

— Segure firme — ordenou, ofegante como um homem exausto. — É por essas escadas que devemos deixar todo o mal para trás.

Ele saiu por uma fenda na rocha e me depositou sentado na borda. Depois estendeu o passo cuidadoso para me alcançar. Ergui os olhos, esperando ver Lúcifer como o havíamos deixado, e em vez disso vi suas pernas para cima. Como é possível? Se fiquei confuso, pense na multidão ignorante que não consegue compreender o ponto exato que eu havia atravessado.

— Levante-se — disse Virgílio. — O caminho é longo e o terreno traiçoeiro. O sol já está voltando para a meia-terça.

Olhei ao redor. Não estávamos numa galeria palaciana, mas numa masmorra natural, com chão ruim e escassez de luz.

— Antes que eu me afaste deste abismo, mestre — falei, já de pé —, tire-me dessa dúvida. Onde está o gelo? Como Lúcifer está preso de ponta-cabeça? E como, em tão pouco tempo, o sol passou da noite para o dia?

Virgílio me encarou com a paciência de quem já previa minhas perguntas.

— Você ainda imagina estar do outro lado do centro, onde me agarrei aos pelos do verme maldito que transpassa o mundo. Esteve lá enquanto eu descia. Quando me virei, você cruzou o ponto para onde todos os pesos são atraídos de todas as partes. Agora está sob o hemisfério oposto àquele que cobre a grande extensão de terra seca, sob cujo cume foi consumido o homem que nasceu e viveu sem pecado. Seus pés estão sobre uma pequena esfera que forma o outro lado da Judeca.

Aqui é de manhã quando lá é noite. E este que nos serviu de escada com seus pelos continua fixo como antes. Deste lado ele caiu do céu. A terra que antes se elevava aqui, com medo dele, fez do mar um véu e veio para o nosso hemisfério. Talvez para fugir dele tenha deixado vazio este lugar, e a terra que aparece daqui correu para cima.

Havia um local mais abaixo, afastado de Belzebu, tão extenso quanto o túmulo — não visível, mas reconhecível pelo som de um pequeno riacho que descia por uma fenda na rocha, roendo a pedra em seu curso sinuoso e suave.

Meu guia e eu entramos por aquele caminho oculto para retornar ao mundo claro. Sem nos preocuparmos com descanso, subimos — ele primeiro, eu em segundo — até que avistei, por uma abertura redonda, algumas das coisas belas que o céu carrega.

E foi por ali que saímos, para ver outra vez as estrelas.