Canto XXXIII
A boca daquele pecador se levantou do banquete horrível, e ele a limpou nos cabelos da cabeça que roía por trás, com um gesto tão bestial que senti o estômago se contrair. Então começou a falar.
— Tu queres que eu renove uma dor desesperada que já só de pensar esmaga meu coração, antes mesmo de pôr em palavras. Mas se minhas palavras forem semente que produza infâmia para o traidor que eu roo, verás falar e chorar ao mesmo tempo.
Sua voz saía trêmula, cortada por espasmos de fúria contida.
— Não sei quem és nem como chegaste aqui embaixo, mas florentino de verdade me pareces quando te ouço. Saiba que fui o conde Ugolino, e este aqui é o arcebispo Rogério. Agora te direi por que sou tão vizinho a ele.
Ele fez uma pausa, os olhos vidrados no crânio ensanguentado entre suas mãos.
— Que por efeito dos seus maus pensamentos, confiando nele, fui preso e depois morto, não é preciso dizer. Mas o que não pudeste saber — como minha morte foi cruel — ouvirás, e saberás se ele me ofendeu.
Cruel, pensei. Palavra fraca para o que ele fez.
— Um pequeno orifício dentro da Muda — a torre que por minha causa ficou conhecida como da Fome, e que ainda há de se fechar sobre outros — já me mostrava, através de seu buraco, muitas luas, quando tive o sonho mau que rasgou o véu do futuro. Este aqui me parecia senhor e mestre, caçando o lobo e os lobinhos no monte que impede os pisano de ver Lucca. Com cadelas magras, espertas e bem treinadas, Gualandi, Sismondi e Lanfranchi se postara diante dele. Em pequeno curso me pareciam cansados o pai e os filhos, e com os focinos afiados me parecia vê-los rasgar os flancos.
Sua voz se quebrou.
— Quando despertei antes da manhã, ouvi chorar no sonho meus filhos que estavam comigo, pedindo pão. És bem cruel, se já não te dói pensar no que meu coração pressentia; e se não choras, do que costumas chorar?
Olhei para ele. Como não chorar?
— Já estavam despertos, e a hora em que costumavam trazer a comida se aproximava, e cada um temia por causa do seu sonho. E eu ouvi trancarem a porta de baixo da torre horrível. Por isso olhei no rosto de meus filhos, sem dizer palavra. Eu não chorava: de tão duro virei pedra por dentro. Eles choravam. E meu pequeno Anselmo disse: “Tu olhas assim, pai! O que tens?”.
Meu Deus, fechei os olhos por um instante.
— Por isso não derramei lágrima nem respondi naquele dia todo nem na noite seguinte, até que o outro sol surgiu no mundo. Quando um pouco de raio entrou na prisão dolorosa, e eu vi no rosto dos quatro a minha própria imagem, ambas as mãos mordi de dor. E eles, pensando que eu o fizesse por vontade de comer, levantaram-se de repente e disseram: “Pai, será muito menos dor para nós se tu comeres de nós: tu nos vestiste com estas miseráveis carnes, e tu as despeja”.
A garganta de Ugolino falhou. Ele levou a mão suja à testa.
— Calei-me então para não deixá-los mais tristes. Aquele dia e o outro ficamos todos mudos. Ah, terra dura, por que não te abriste? Quando chegamos ao quarto dia, Gaddo se atirou estendido a meus pés, dizendo: “Pai meu, por que não me ajudas?” Ali morreu. E como me vês, vi cair os três um a um entre o quinto dia e o sexto. Então eu, já cego, pus-me a tatear sobre cada um, e por dois dias os chamei, depois que morreram. Depois, mais que a dor, pôde o jejum.
O silêncio que se seguiu foi mais pesado que o gelo ao redor. Ugolino virou os olhos, retomou o crânio miserável com os dentes e mordeu o osso com força de cão faminto.
— Ah, Pisa — ouvi minha própria voz saindo num sussurro carregado de nojo —, vergonha dos povos do belo país onde se diz “sim”, já que os teus vizinhos são lentos em te punir, movam-se Capraia e Gorgona e façam um dique ao Arno na foz, para que ele afogue em ti cada pessoa! Pois se o conde Ugolino tinha fama de ter te traído com os castelos, não devias pôr seus filhos numa cruz dessas. Inocentes os tornava a pouca idade, ó nova Tebas: Uguccione e Brigata e os outros dois que o canto acima nomeia.
Senti o ódio me queimar o peito. Quantas camadas de crueldade este lugar ainda guarda?
Seguimos adiante, para onde o gelado envolvia rudemente outra gente, não virada para baixo, mas toda de costas. O próprio choro ali não deixa chorar, e a dor que encontra nos olhos um obstáculo se volta para dentro e faz crescer a ânsia. As primeiras lágrimas congelam em nós, e como viseiras de cristal enchem toda a cavidade abaixo das sobrancelhas.
Avançamos sobre a superfície traiçoeira. Embora, como por um calo, todo sentimento tivesse abandonado o lugar do meu rosto por causa do frio, me pareceu sentir um pouco de vento.
— Mestre meu — perguntei, virando-me para Virgílio —, quem move isto? Não está todo vapor extinto aqui embaixo?
Ele respondeu sem parar de andar:
— Logo estarás onde teus olhos te darão a resposta, vendo a causa que sopra o vento.
Um dos condenados da crosta fria gritou para nós:
— Ó almas cruéis a ponto de vos ser dada a última posição, tirai de meu rosto os véus duros, para que eu desafogue um pouco a dor que engravida meu coração, antes que o choro congele de novo.
Aproximei-me. Suas pálpebras estavam seladas por uma película de gelo transparente e impiedoso.
— Se queres que te ajude — disse —, dize-me quem és. Se eu não te libertar, que eu mesmo vá ao fundo da geleira.
Ele respondeu com a voz saindo aos pedaços:
— Sou frei Alberigo. Sou aquele das frutas do maldito jardim, e recebo aqui tâmara por figo.
— Oh! — exclamei, recuando um passo. — Então já estás morto?
Ele riu, um som seco e horrível.
— Como meu corpo esteja lá em cima, nada sei. Esta Tolomeia tem esta vantagem: muitas vezes a alma cai aqui antes que Átropos lhe dê o movimento. E para que me raspes mais de boa vontade as lágrimas vitrificadas do rosto, saiba que, assim que a alma trai como fiz eu, um demônio lhe toma o corpo e o governa até que seu tempo se complete. Ela desaba nesta cisterna. E talvez ainda pareça vivo lá em cima o corpo da sombra que atrás de mim se abriga no gelo. Deves saber, se chegaste agora aqui embaixo: é Ser Branca Doria. E já se passaram muitos anos desde que ele foi assim fechado.
Olhei para a figura atrás dele, imóvel, enterrada até o pescoço.
— Creio que mentes — respondi, sentindo o absurdo da situação. — Branca Doria nunca morreu. Ele come, bebe, dorme e veste roupas.
— No fosso dos Malebranche, onde ferve a pez viscosa, ainda não tinha chegado Michel Zanche quando este deixou o diabo em seu lugar no corpo dele e num parente seu que fez a traição com ele. Mas estende agora a tua mão para cá. Abre meus olhos.
Meus dedos coçaram para obedecer. Para aliviar aquela miséria. Mas alguma coisa me deteve.
E não os abri.
Foi cortesia ser vil com ele.
Ah, genoveses, pensei, virando as costas e seguindo meu guia, homens desprovidos de todo costume e cheios de toda mancha, por que não sois varridos do mundo? Pois com o pior espírito da Romanha encontrei um de vós que, por sua ação, já se banha em alma no Cocito, e ainda em corpo parece vivo lá em cima.