Canto XXXII

Se eu tivesse versos ásperos e secos como o lugar em que me vi, eu poderia arrancar de mim mais fundo o que aquela visão me esmagava a dizer. Mas eu não tinha essa língua de ferro, e mesmo assim avancei, com receio e obstinação, porque não era uma empresa qualquer descrever o fundo do universo; não era coisa para palavras fáceis, nem para uma voz que chamasse pai ou mãe com doçura. Ainda assim, segui, pedindo em silêncio que aquelas forças antigas que haviam ajudado Anfião a erguer Tebas sustentassem também meu canto, para que o que eu via não traísse o que eu narrava.

Quando desci mais, abaixo do gigante, e olhei de novo para cima, ouvi a advertência do meu guia, seca e urgente: — Olha por onde pisas. Vai com cuidado, para não esmagar as cabeças desses desgraçados exaustos.

Voltei-me de imediato, e diante de mim se abriu um lago imóvel, feito de vidro e não de água. Era gelo, um gelo tão espesso que parecia ter devorado o próprio inverno. O Danúbio, o Tanais, montanhas inteiras lançadas ali dentro não o teriam rachado. O ar ali não se movia; tudo parecia preso num silêncio cruel, como se o mundo tivesse sido interrompido no instante exato da dor. E por toda parte, espalhadas no gelo, havia almas com o rosto enterrado para baixo, lívidas, endurecidas, os dentes estalando num rumor que lembrava o bater do bico de aves famintas. Eu as vi como corpos quebrados pelo frio, mas também como consciências quebradas por uma culpa que já não tinha voz.

Que horror pode ser maior do que este? pensei, sentindo o peito apertado não só pela cena, mas pela estranha familiaridade do pecado humano, sempre capaz de se repetir em formas novas e piores.

Aproximei-me com cuidado e, ao olhar meus pés, vi dois condenados tão unidos pelo gelo que os cabelos de um se misturavam aos do outro. Perguntei-lhes quem eram, e eles, sentindo o som da minha voz, ergueram os rostos com esforço. As lágrimas que tinham nos olhos não caíram livremente: congelaram antes de rolar, prendendo-se entre as pálpebras e as faces, como se até o choro ali fosse punido. Um deles, com uma violência de ódio que o frio não conseguira matar, chocava-se contra o outro como dois bodes em combate.

— Quem são vocês? — perguntei. — Dizei-me.

O mais castigado deles, com os ouvidos já perdidos pelo gelo, respondeu sem me mirar de frente: — Se queres saber quem são estes dois, procura na terra onde o Bisenzo desce. São da linhagem do pai Alberto e vieram de lá. Numa só alma não habitam; e em toda Caina não acharás outra sombra que mereça melhor este gelo. Nem aquele a quem Artur abriu o peito, nem Focaccia, nem este que está sobre mim, com a cabeça de modo que mal me deixa ver adiante, chamado Sassol Mascheroni. Se és toscano, já deves saber bastante sobre quem falo. E para não prolongar as palavras, fica sabendo: eu fui Camicion de’ Pazzi, e espero por Carlin para me aliviar.

Depois disso, continuei olhando ao redor, e vi mil rostos caninos, deformados pelo frio, num espetáculo que me encheu de repulsa e que jamais me abandonaria. Há dores que o espírito carrega para sempre, mesmo quando o corpo já seguiu adiante. O caminho nos levou então para o centro daquele reino imóvel, onde o peso de tudo converge, e eu tremia dentro daquele vento eterno que não soprava, mas cortava. Não sei se foi acaso, destino ou alguma força mais funda; sei apenas que, ao caminhar entre aquelas cabeças abaixadas, golpeei com força o rosto de uma delas.

A alma gritou em pranto e me insultou: — Por que me pisas? Se não vens aqui para aumentar a vingança de Montaperti, por que me incomodas?

Meu guia parou, e eu pedi, com a pressa de quem sabe que o horror ainda guarda respostas: — Espera aqui um instante, mestre, para que eu tire desta criatura a dúvida que me prende. Depois me apressa o quanto quiseres.

Ele consentiu, e eu me inclinei sobre aquele homem que ainda blasfemava. — Quem és tu — perguntei — para repreender assim os outros?

— E tu, quem és — respondeu ele — que passas pela Antenora batendo nas faces alheias, como se o teu gesto não fosse ultraje bastante para alguém vivo?

— Vivo sou, e teu nome pode até ganhar importância se me deres o teu — respondi. — Posso levá-lo comigo e deixá-lo entre os outros nomes que não devem ser esquecidos.

Ele retrucou com desprezo: — Eu preferiria o contrário. Sai daqui e poupa-me tua fala. Não sabes adular ninguém nesta lama.

Então agarrei-o pela nuca, decidido a arrancar dele o nome, e avisei: — Ou dizes quem és, ou não te restará um fio de cabelo na cabeça.

Ele resistiu com a teimosia amarga dos condenados: — Mesmo que me arranques os cabelos mil vezes, não te direi quem sou, nem te mostrarei meu rosto.

Mas eu já tinha os dedos enroscados em suas mechas, puxando-o com força, enquanto ele rosnava com o rosto enterrado para baixo. Foi quando outro condenado, mais adiante, gritou com fúria: — O que tens tu, Bocca? Não basta bater as mandíbulas, é preciso ainda latir? Que diabo te possui?

— Não quero mais conversa contigo — disse eu ao primeiro, sentindo a raiva crescer contra aquela recusa vil. — O que quer que eu faça aqui, direi ao mundo o que és, para tua vergonha.

Ele então cedeu em parte, mas sem orgulho nenhum: — Vai e conta o que quiseres; só não te esqueças, ao sair daqui, de falar daquele que agora tem a língua tão solta. Ele lamenta aqui a prata dos franceses. Podes dizer: eu vi aquele de Duera, ali onde os pecadores estão gelados. E, se alguém perguntar quem mais havia, tens ao lado o de Beccheria, a quem Florença cortou a garganta. Mais adiante está Gianni de’ Soldanieri, creio, com Ganelão e Tebaldelo, aquele que abriu Faenza quando todos dormiam.

Seguimos em frente, e o gelo parecia cada vez mais denso, como se as culpas ali tivessem peso suficiente para afundar séculos. Então vi dois presos num mesmo buraco, tão colados um ao outro que a cabeça de um servia de abrigo à do outro. E não havia ali luta comum, nem simples desespero: o de cima cravava os dentes no crânio do outro e o devorava com um ódio tão bruto que lembrava um animal faminto. Aquilo me chocou mais do que o frio, mais do que os rostos imóveis, mais do que a surdez do inferno inteiro.

— Tu, que mostras um ódio tão feroz contra aquele que mordes — perguntei, sentindo o estômago apertar —, diz-me por quê. Se tua dor tem razão, e se eu souber quem sois e qual é a culpa dele, juro que talvez eu mesmo leve tua história para o mundo de cima, se esta boca com que te falo não secar antes.