Canto XXXI
A mesma língua que momentos antes me ferira, tingindo minhas duas faces com o ardor da vergonha, agora servia como remédio para minha alma confusa. Foi assim que ouvi dizer que a lança de Aquiles e de seu pai Peleu agia: primeiro causava o ferimento doloroso, depois oferecia o bálsamo da cura.
Virgílio e eu seguíamos agora de costas para o vale miserável, subindo a margem rochosa que o circundava. Caminhávamos em silêncio absoluto, atravessando aquele terreno hostil sem trocar uma única palavra. A escuridão ali era algo que desafiava qualquer noção de dia ou noite — menos que noite, menos que dia, uma penumbra tão densa que mal conseguia enxergar um palmo à frente do meu rosto.
Foi então que ouvi o som.
Um corno tão alto e poderoso que qualquer trovão pareceria um sussurro diante dele. O eco estrondoso dominou todo o espaço, e meus olhos, guiados por aquela direção, fixaram-se num único ponto distante. Nunca algo soou tão terrível, pensei, nem mesmo quando Carlos Magno perdeu sua santa retaguarda e Orlando tocou seu olifante na dolorosa derrota.
Virei a cabeça para a frente, e no meio daquela escuridão opressiva, algo pareceu tomar forma. Altas torres, muitas delas, recortavam o horizonte sombrio.
— Mestre, dize-me — apontei com a mão trêmula. — Que terra é aquela?
Ele respondeu com paciência, percebendo minha confusão:
— Porque caminhas nas trevas e ainda estás muito distante, teu julgamento se engana. Verás bem, quando te aproximares, quanto a visão de longe nos ilude. Por isso, aguça teu olhar.
Virgílio tomou minha mão com delicadeza, e sua voz tornou-se grave, como se preparasse o terreno para uma revelação difícil.
— Antes que avancemos mais, para que o que verás não te pareça estranho, saiba que não são torres o que contemplas. São gigantes. Estão no poço, em volta da muralha, todos eles mergulhados da cintura para baixo.
Assisti, fascinado e aterrorinado, enquanto a névoa mental se dissipava lentamente. Como quando o nevoeiro se desfaz e o olhar aos poucos reconhece o que a bruma escondia, assim meu medo crescia na mesma proporção que meu erro desaparecia.
Montereggione, quando vista de cima, coroa-se de torres circulares. Pois bem, da mesma forma a muralha que circunda o poço se torreava com corpos monstruosos. Os gigantes, horríveis e ameaçadores, mostravam da cintura para cima — e eu já conseguia distinguir seus rostos, os ombros largos como penhascos, o peito imenso e grande parte do ventre, os braços descendo pelos flancos como troncos de carvalho milenar.
Natureza fez bem em abandonar a arte de criar tais criaturas, refleti enquanto me aproximava. Retirou de Marte executores tão terríveis. E se não se arrepende de ter feito elefantes e baleias, quem observa com atenção há de considerá-la mais justa e sábia, pois onde a astúcia da mente se une à maldade e ao poder, nenhuma defesa humana pode resistir.
O rosto do primeiro gigante parecia tão longo e largo quanto o pinho de São Pedro em Roma. Seus ossos eram proporcionais àquela escala monstruosa. A borda rochosa servia como cinto, escondendo-o do meio para baixo, mas acima dela via-se o bastante para que três frísios, empilhados, não alcançassem seus cabelos. Da altura onde os homens prendem o manto até o chão, calculei trinta palmos.
Então aquela fera boca se abriu e urrou:
— Raphél maì amèche zabì almi!
As palavras soaram como pedras se chocando, um idioma tão bestial e confuso que nenhum salmo poderia ser mais doce em comparação.
Meu guia não hesitou em responder com desprezo:
— Alma tola, segura teu corno e com ele desafoga tua ira ou qualquer outra paixão que te acometa. Procura ao redor de teu pescoço, confuso espírito, e encontrarás a corda que te mantém amarrado, ó gigante de peito vazio.
Virgílio voltou-se para mim:
— Ele mesmo se acusa. Este é Nembrot, por cujo mau pensamento um só idioma não é mais usado no mundo. Deixemo-lo estar e não falemos em vão, pois para ele qualquer língua é tão estranha quanto a sua para os outros, que ninguém mais compreende.
Seguimos adiante, virando à esquerda, e ao alcance de um tiro de balestra encontramos outro gigante, ainda mais feroz e imenso. Uma corrente o envolvia desde o pescoço até o quinto giro abaixo da cintura, prendendo-lhe os braços num abraço de ferro.
— Este soberbo quis experimentar seu poder contra o sumo Júpiter — explicou Virgílio. — Por isso tem tal merecimento. Chama-se Fialte, e realizou as grandes proezas quando os gigantes causaram medo aos deuses. Os braços que moveu, já não os moverá jamais.
Senti uma pontada de curiosidade mórbida, e a pergunta escapou:
— Se possível fosse, eu bem gostaria que meus olhos tivessem experiência do imenso Briareu.
Meu mestre respondeu com calma:
— Verás Anteu mais adiante. Ele está solto, fala conosco e nos porá no fundo de todo o mal. Aquele que desejas ver está muito além, acorrentado e feito como este, exceto que parece mais feroz no rosto.
Nenhum terremoto, por mais violento que fosse, sacudiria uma torre com a força que Fialte demonstrou ao se agitar. Senti mais medo da morte naquele momento do que em toda a jornada — e não seria preciso mais que esse temor para me abater, se não tivesse visto bem as amarras que o prendiam.
Avançamos, e enfim chegamos a Anteu. Ele emergia da gruta mostrando cinco braças de altura, sem contar a cabeça.
— Ó tu que, no vale afortunado onde Cipião herdou a glória quando Aníbal com seus soldados deu as costas, colheste outrora mil leões como presa — iniciou Virgílio com voz de quem negocia a própria salvação —, e se estivesses na alta guerra de teus irmãos, ainda se crê que os filhos da terra teriam vencido. Deposita-nos lá embaixo, onde o frio de Cocito encerra seus condenados. Não nos faças ir até Tício ou Tifão. Este aqui pode dar o que aqui se deseja — apontou para mim. — Por isso, inclina-te e não torças o focinho. Ainda podes ganhar fama no mundo, pois ele vive e longa vida ainda espera, se a graça não o chamar antes do tempo.
O gigante, ágil apesar do tamanho absurdo, estendeu as mãos e tomou meu mestre. Hércules certamente sentiu abraço semelhante quando foi esmagado. Virgílio, sentindo-se capturado, ordenou:
— Aproxima-te, que eu te tome.
E fez de nós dois um único feixe.
Enquanto Anteu se inclinava, observei sua imensidão com o mesmo pasmo de quem contempla a torre de Garisenda sob o ângulo que a faz parecer cair. Naquele instante, eu bem que gostaria de ter tomado outro caminho. Mas o gigante nos depositou suavemente no fundo que devora Lúcifer e Judas, e sem demora, como um mastro que se levanta no navio, retomou sua posição vertical.