Canto III
A escuridão já me pesava nos ombros quando avistamos a entrada. Não era um portal comum, desses que se abrem para salões ou masmorras — era uma coisa viva, esculpida na própria rocha do abismo, e sobre ela, gravadas em letras que pareciam queimar com uma luz sombria, li as palavras que paralisariam qualquer homem:
“Por mim se vai para a cidade dolente, por mim se vai para a eterna dor, por mim se vai entre a perdida gente.”
Senti um calafrio subir pela espinha, mas continuei. Meus olhos correram para o final da inscrição, onde as frases se mostravam ainda mais brutais: “Justiça moveu meu alto artífice; fizeram-me a divina potestade, a suprema sabedoria e o primeiro amor. Antes de mim não foram criadas coisas senão eternas, e eu eterna duro. Deixai toda esperança, vós que entrais.”
Deixai toda esperança.
Aquelas palavras me atravessaram como uma lança. Senti o suor frio na nuca. Virei-me para o meu mestre, e a voz saiu mais trêmula do que eu gostaria: — Mestre, este sentido é duro para mim.
Virgílio me olhou com a calma de quem já viu o inferno de dentro e de fora. Sua face não expressava medo, mas uma certeza grave. — Aqui se deve deixar toda suspeita — disse ele, com uma mão firme no meu ombro. — Toda covardia deve morrer aqui. Chegamos ao lugar onde eu te disse que verias as almas dolorosas que perderam o bem do intelecto.
Apertei os punhos. Perder o bem do intelecto. Ele falava da razão, da capacidade de distinguir o bem do mal. Essas almas não eram apenas pecadoras — eram aquelas que haviam abdicado da própria luz interior.
Então ele estendeu a mão direita, e eu senti seus dedos envolverem os meus. Havia uma força serena em seu toque. Ele sorriu — não um sorriso de alívio, mas de determinação — e me puxou para dentro.
Atravessamos o limiar.
O som me atingiu antes da visão. Um coro de suspiros, prantos e uivos agudos. Não era um choro único e coeso, como o de um funeral; era uma cacofonia desesperada, como se milhares de vozes gritassem ao mesmo tempo em línguas que eu não conseguia reconhecer. Palavras de dor, sotaques de raiva, vozes altas e roucas, e junto com elas o bater frenético de mãos — palmas que não celebravam nada, apenas amplificavam o tormento.
Tudo aquilo girava no ar sem tempo, sem estrelas, escuro como a fuligem de uma tempestade. Parecia a areia levantada pelo redemoinho.
Meus olhos arderam. Antes de perceber, já estava chorando. Não por piedade — não ainda — mas pelo horror bruto daquela sinfonia de agonia.
— Mestre — perguntei, com a cabeça girando como se eu tivesse bebido veneno —, o que é isso que eu ouço? Que gente é essa tão vencida pela dor?
Ele não hesitou. — É o modo miserável das almas tristes que viveram sem infâmia e sem louvor. Estão misturadas com o coro dos anjos que não foram rebeldes nem fiéis a Deus, mas que ficaram apenas para si mesmos. Os céus os expulsaram para não perder sua beleza, e o profundo inferno não os recebe, porque os réus teriam alguma glória sobre eles.
Anjos que não tomaram partido. Indecisos. Neutros. Gente que viveu no nem-nem. Senti um desprezo frio se formar no meu peito, mas logo ele foi engolido pela curiosidade. — Mestre — insisti —, o que é tão grave para eles que os faz lamentar assim?
Virgílio baixou a voz, como se estivesse revelando um segredo sujo: — Vou te dizer em poucas palavras. Eles não têm esperança na morte. Sua vida cega é tão baixa que invejam qualquer outro destino. O mundo não deixa que tenham fama. A misericórdia e a justiça os desprezam. Não falemos deles. Olha e passa.
Olha e passa. A ordem ecoou em mim como um chicote.
Voltei o olhar para o turbilhão e vi uma bandeira. Ela corria tão rápido que parecia indecente até mesmo parar. E atrás dela, uma fila interminável de almas nuas, uma procissão tão longa que eu nunca teria acreditado que a morte pudesse ter desfeito tanta gente. Reconheci algumas sombras. Uma em especial me fez paralisar: a alma daquele que fez por covardia o grande recusio.
O papa que abandonou o trono. Celestino V, ou como quer que o chamem. Aquele que tinha o poder nas mãos e o jogou fora por medo. Agora corria atrás de uma bandeira sem rumo, para sempre.
As almas dos covardes eram picadas por moscas e vespas que lhes sulcavam o rosto de sangue. O sangue misturado às lágrimas escorria até os pés, onde vermes nojentos o bebiam. Nunca tinha visto degradação tão completa.
Forcei-me a seguir em frente.
Virgílio caminhava na minha frente, guiando-me por uma trilha que parecia se abrir apenas para nós. Quando olhei além, avistei uma multidão na margem de um grande rio. A água era escura, quase sólida, e se movia com uma lentidão pesada. Senti a necessidade de entender.
— Mestre — pedi —, agora me permite que eu saiba quem são e o que as faz tão prontas para atravessar, como posso discernir por esta luz fraca?
Ele respondeu sem parar de andar: — Você vai entender as coisas quando pararmos nossos passos na triste margem do Aqueronte.
Baixei os olhos, envergonhado por ter perguntado demais. Temei que minha insistência o irritasse. Calei-me e caminhei até a beira do rio.
Foi quando surgiu.
Uma barca se aproximou, e nela um velho de cabelos brancos como a neve suja, com olhos de brasa. Caronte. O barqueiro dos mortos. Ele gritou, com uma voz que parecia rachar o ar: — Ai de vocês, almas más! Nunca esperem ver o céu. Eu venho para levar vocês à outra margem, nas trevas eternas, no calor e no gelo.
Então seus olhos de fogo caíram sobre mim. — E você, que está aí, alma viva — disse ele, apontando o remo em minha direção —, afaste-se desses que estão mortos.
Não me movi. Meus pés pareciam pregados no chão.
Caronte franziu a testa, irritado. — Por outra via, por outros portos você chegará à praia, não aqui para passar. Um barco mais leve deve te levar.
Virgílio deu um passo à frente. — Caronte, não se enfureça. Assim se quer lá onde se pode o que se quer. E não pergunte mais.
O barqueiro rosnou, mas suas bochechas peludas se aquietaram. As rodas de fogo em seus olhos diminuíram de intensidade, mas não se apagaram.
Foi quando vi as almas nuas e cansadas mudarem de cor. Começaram a bater os dentes, um ruído seco que se espalhou pela margem como uma praga. Amaldiçoaram Deus, seus pais, a espécie humana, o lugar, o tempo, a semente de sua origem e seu nascimento. Tudo o que podia ser amaldiçoado foi.
Depois, se agruparam, chorando alto, na margem maldita que espera por cada homem que não teme a Deus.
Caronte, demônio de olhos de brasa, acenou para elas. As recolhia como um pastor que toca o rebanho. Quem se demorava, ele batia com o remo.
E então aconteceu a imagem que nunca mais sairá da minha mente.
Como no outono as folhas caem uma após a outra até que o ramo veja todas as suas vestes no chão, assim a má semente de Adão se atirava daquela margem, uma a uma, ao sinal do barqueiro. Como pássaros ao chamado do falcoeiro.
Desciam na água escura. E antes mesmo de chegar do outro lado, uma nova multidão já se reunia aqui.
— Meu filho — disse Virgílio, com uma ternura que doeu mais do que qualquer grito —, aqueles que morrem na ira de Deus todos se juntam aqui de toda parte. E estão prontos para atravessar o rio, porque a justiça divina os espora de tal modo que o medo se transforma em desejo. Por aqui nunca passa uma alma boa. Portanto, se Caronte se queixou de você, pode agora entender o que significam suas palavras.
Terminou de falar, e a campina escura tremeu.
Tremer com uma violência que me molhou a mente de suor até agora, só de lembrar. A terra lacrimosa soltou um vento que fez relampejar uma luz vermelha, e essa luz venceu todos os meus sentidos.
Caí como cai o homem que o sono apanha.
E então, nada.