Canto XXIII
Nenhuma palavra solta seria suficiente para descrever o sangue e as feridas que vi na nona bolgia, mesmo que eu tentasse narrar tudo repetidas vezes. Qualquer língua, por mais eloquente que fosse, fracassaria diante daquele espetáculo, porque a mente humana tem limites estreitos demais para compreender tamanho horror.
Enquanto caminhava sobre a ponte de rocha que cruzava o fosso, tentei imaginar se todo o povo da Apúlia, que sofreu com a guerra dos Troianos e com os anéis saqueados que Lívio descreveu sem erro, ou aqueles que sentiram os golpes ao resistir a Roberto Guiscardo, ou ainda os que tiveram seus ossos recolhidos em Ceperano e Tagliacozzo — se toda aquela gente se reunisse e mostrasse seus membros perfurados ou decepados, ainda assim não chegaria perto da sujeira grotesca que se abria diante de mim.
E então eu vi.
Um espectro caminhava com o tronco rasgado do queixo até o ânus, as entranhas penduradas entre as pernas, os intestinos e o saco nojento que transforma em excremento o que engole. Fixei os olhos naquela visão, incapaz de desviar o olhar, quando ele me notou. Com as próprias mãos, abriu ainda mais o peito e disse:
— Olha como me dilacero. Vê como Maomé está deformado. À minha frente vai Ali, chorando, com o rosto fendido do queixo ao topete da cabeça. Todos os que vês aqui foram semeadores de escândalo e cisma enquanto viveram, e por isso estão assim retalhados.
Ele apontou para trás, para uma sombra que mal se distinguia na penumbra.
— Um demônio nos governa com crueldade. Cada vez que completamos o giro doloroso desta estrada, ele nos fende novamente com sua espada, porque as feridas se fecham antes de chegarmos de volta ao ponto inicial. Mas tu — quem és, que se demora na ponte? Talvez esteja adiando a pena que te aguarda?
Antes que eu pudesse responder, meu mestre falou:
— Nem a morte o alcançou, nem culpa alguma o traz para ser atormentado. Para que tenha experiência plena, eu, que estou morto, devo conduzi-lo pelo inferno, círculo após círculo. E isso é tão verdade quanto estou falando.
Mais de cem almas, ao ouvirem aquilo, pararam no fosso para me observar, esquecendo o próprio martírio por um instante de espanto. Maomé, então, aproximou-se e sussurrou:
— Tu que talvez verás o sol em breve, dize a frei Dolcino que se arme com mantimentos. Se não quiser seguir-me depressa para este lugar, que providencie víveres de modo que o cerco da neve não dê a vitória aos novareses. Do contrário, não seria fácil vencê-los.
Com um pé já levantado para seguir seu caminho, Maomé soltou essas palavras e depois desceu de volta ao chão.
Outra alma se destacou do grupo. Tinha a garganta perfurada, o nariz cortado até as sobrancelhas e apenas uma orelha. Parou para me olhar, abriu a traqueia que estava toda vermelha e disse:
— Ó tu a quem nenhuma culpa condena e que vi na terra latina — se a semelhança não me engana —, lembra-te de Pier da Medicina quando voltares ao doce planalto que desce de Vercelli a Marcabò. E faze saber aos dois melhores de Fano, a messer Guido e a Angiolello, que, se o antever aqui não é vão, serão lançados para fora de seu navio e afogados perto de Cattolica, por traição de um tirano maldito. Entre as ilhas de Chipre e Maiorca, Netuno nunca viu crime tão grande, nem de piratas nem de gregos. Aquele traidor que vê só com um olho e governa a terra que aqui mesmo desejaria não ver — esse os chamará para um parlamento e depois fará com que, no vento de Focara, não lhes sirvam votos nem preces.
Senti o sangue gelar. A profecia era sombria demais para ser ignorada.
— Mostra-me e declara, se queres que leve notícias tuas lá em cima — respondi —, quem é esse de vista amarga.
Pier da Medicina, então, pôs a mão na mandíbula de um companheiro ao lado, abriu-lhe a boca à força e gritou:
— Este é ele, e não fala. Este, exilado, afogou as dúvidas em César, afirmando que quem está preparado sempre sofre dano por esperar.
Olhei para a figura de Curio. Como me pareceu apavorado, com a língua cortada na garganta — ele que fora tão audacioso em suas palavras.
Um terceiro espectro aproximou-se. Não tinha nem uma nem outra mão. Levantou os tocos na penumbra, espalhando sangue pelo rosto imundo, e gritou:
— Lembrar-te-ás também de Mosca, que disse, infeliz: “Coisa feita tem cabeça”. Essa foi a má semente para o povo toscano.
— E a morte de tua linhagem — acrescentei, sem conseguir conter a amargura.
Ele ouviu, acumulou dor sobre dor e partiu como um homem transtornado e louco.
Fiquei ali, observando a multidão, e vi algo que me daria medo até de contar sem mais provas, se não fosse a consciência que me fortalece — a boa companhia que torna o homem corajoso sob a armadura da pureza. Vi, e ainda me parece estar vendo, um tronco sem cabeça caminhar como os outros da triste grei. Ele segurava a própria cabeça decepada pelos cabelos, balançando-a como uma lanterna, e ela nos mirava e dizia: “Oh, infeliz!”
Fazia de si mesmo sua própria luz. Eram dois em um e um em dois: como isso possa ser, só Deus sabe. Quando chegou ao pé da ponte, levantou o braço com toda a cabeça para aproximar as palavras:
— Vês esta pena terrível, tu que, ainda respirando, vais vendo os mortos? Vê se alguma é tão grande quanto esta. E porque levarás notícias de mim, sabe que sou Bertram de Born, aquele que dei maus conselhos ao jovem rei. Fiz pai e filho rebelarem-se um contra o outro; nem Aitofel fez mais com Davi e Absalão com seus aguilhões malignos. Porque separei pessoas tão unidas, carrego meu cérebro separado de sua origem neste tronco. Assim se observa em mim o contrapasso.
Virei-me para Virgílio, mas ele já seguia adiante, e compreendi que a justiça divina não admite atalhos. Cada ferida, cada membro decepado era uma lição esculpida na carne — e eu, ainda vivo, levava comigo o peso de testemunhar o que nenhum olho vivo deveria ver.