Canto XXVI

A oitava bolgia se abria diante de mim como uma ferida na crosta do mundo. Lá de cima, da ponte de pedra onde eu me equilibrava, o fundo do fosso parecia um abismo de fogo. E, pela primeira vez desde que começáramos aquela descida alucinante, senti meus joelhos vacilarem.

— Florença, pode se gabar — murmurei, sentindo o gosto amargo das palavras na língua. — Espalha tuas asas por terra e por mar, e até no inferno teu nome ressoa.

Virgílio não respondeu. Apenas apertou o passo à minha frente, subindo as escamas de rocha que nos haviam trazido até ali. Eu o seguia como uma sombra, mas minhas mãos escorregavam nas arestas cortantes, e cada movimento exigia um esforço que me arrancava o fôlego. Por que me dói tanto lembrar? — pensei, enquanto me agarrava a uma saliência para não cair. Por que ainda me arde na memória o que vi naquela noite?

Mas não havia tempo para lamúrias. Quando alcançamos o topo da escarpa, o espetáculo nos engoliu.

Lá embaixo, na oitava vala, milhares de pequenas chamas tremeluziam na escuridão. Pareciam vaga-lumes numa noite de verão, daquelas que o camponês contempla do morro enquanto descansa, quando o sol já se pôs e o mosquito dá lugar ao mosquito. Só que aquelas luzes não eram insetos. Eram almas.

— Dentro de cada fogo há um espírito — disse Virgílio, notando meu olhar fixo. — Cada chama envolve o pecador que a mereceu.

Apertei as mãos no parapeito de pedra. Por um instante, a vertigem quase me derrubou — se não tivesse me segurado naquela saliência áspera, teria caído. Quantos séculos de engano estão queimando ali? — perguntei a mim mesmo.

Foi então que a vi. Uma chama bifurcada, imensa, que se erguia do fosso como um candelabro vivo. Suas duas línguas de fogo se entrelaçavam e se separavam num movimento que lembrava uma dança fúnebre.

— Mestre — chamei, a voz presa na garganta. — Aquele fogo… o que se divide no topo… quem está ali?

Virgílio aproximou-se, os olhos brilhando à luz infernal.

— Ali se atormentam Ulisses e Diomedes. Juntos na vingança, como juntos foram na ira. A mesma chama que os consome guarda o gemido do cavalo de madeira que abriu as portas de Troia, o pranto de Deidamia abandonada por Aquiles, e o peso do Paládio roubado.

Senti um arrepio percorrer minha espinha. Ulisses. O herói dos mares. O homem de mil ardis. Ali estava ele, não mais navegando rumo ao desconhecido, mas queimando para sempre num rio de fogo.

— Mestre — disse, e minha voz saiu mais firme do que eu esperava. — Se eles podem falar dentro dessas faíscas, eu te imploro… não me negues a espera. Deixa que a chama chifruda se aproxime. Olha como me inclino para ela, de tanto desejo.

Virgílio me olhou por um longo instante. Havia algo nos seus olhos que eu não soube decifrar — orgulho? Piedade? Cansaço?

— Tua prece é digna de louvor — respondeu por fim. — Mas cala-te. Deixa que eu fale. Eles são gregos, e talvez desprezem tuas palavras.

Esperamos. O tempo escorria como lava naquela bolgia, lento e sufocante. Até que a chama bifurcada chegou perto o bastante. Vi Virgílio endireitar os ombros, e quando sua voz ecoou na ponte, era solene como um cântico fúnebre:

— Ó vós que sois dois dentro de um só fogo, se mereci algo de vós enquanto vivi, se mereci algo, muito ou pouco, quando escrevi meus altos versos no mundo, não vos movais. Que um de vós nos diga onde, por sua culpa, se perdeu ao ir para a morte.

A chama maior começou a tremer. Primeiro um murmúrio, depois um balanço ritmado, como se o vento a açoitasse. E então, de dentro daquele turbilhão incandescente, uma voz surgiu — grave, cansada, mas ainda assim carregada de uma fúria antiga.

— Quando me separei de Circe — começou a voz —, ela que me reteve mais de um ano perto de Gaeta, antes mesmo que Eneias lhe desse esse nome… nem a doçura de um filho, nem a piedade pelo velho pai, nem o amor que deveria alegrar Penélope conseguiram vencer em mim o ardor que eu tinha de me tornar experiente do mundo, dos vícios humanos e do valor.

Ouvi em silêncio. Como é possível que mesmo no inferno ele ainda queime por conhecimento? — perguntei a mim mesmo.

— Meti-me pelo alto mar aberto — continuou Ulisses —, só com um navio e com aquela pequena companhia que nunca me abandonou. Vi uma costa e outra até a Espanha, até o Marrocos, e a ilha da Sardenha, e as outras que aquele mar banha. Mas eu e meus companheiros já éramos velhos e lentos quando chegamos àquela foz estreita onde Hércules colocou seus marcos para que o homem não fosse além.

Senti Virgílio prender a respiração ao meu lado.

— Da mão direita deixei a Espanha — disse a chama, e agora sua voz tremia como se cada palavra lhe arrancasse um pedaço —, da esquerda já havia deixado o Marrocos. Então me voltei para os meus: ‘Ó irmãos’, disse, ‘que por cem mil perigos chegastes ao Ocidente, não negueis a experiência, atrás do sol, do mundo sem gente. Considerai vossa origem: não fostes feitos para viver como brutos, mas para seguir virtude e conhecimento’.

Não fostes feitos para viver como brutos. A frase ecoou em mim como um trovão.

— Fiz meus companheiros tão ávidos com essa pequena pregação que mal poderia tê-los contido depois. Viramos a popa para o leste, transformamos os remos em asas para aquele voo louco, sempre avançando para a esquerda. Já via todas as estrelas do outro polo, e a nossa noite estava tão baixa que não se erguia do mar. Cinco vezes a lua se acendera e se apagara desde que entrávamos naquele alto passo, quando nos apareceu uma montanha, escura pela distância, alta como nenhuma outra que eu tivesse visto.

Parei de respirar. O Purgatório, pensei. Ele viu o Purgatório.

— Nos alegramos — disse Ulisses, e pela primeira vez sua voz pareceu trêmula, quase humana. — Mas logo o prazer se tornou pranto. Da nova terra surgiu um redemoinho, que atingiu a proa do nosso navio. Três vezes nos fez girar com todas as águas. Na quarta, levantou a popa para cima e empurrou a proa para baixo, como outro quis — até que o mar se fechou sobre nós.

O silêncio caiu como uma lápide.

A chama bifurcada retomou seu movimento lento, sem pressa, como se nada tivesse acontecido. Mas eu ainda ouvia aquela voz, ainda sentia o arrepio percorrer minha espinha. Ele seguiu o conhecimento até o fim, pensei. E por isso queima aqui.

Virgílio tocou meu ombro. Seu gesto era suave, mas havia urgência em seus olhos.

— Vamos — disse. — A noite avança, e ainda temos muito que ver.

Olhei para a chama de Ulisses pela última vez. Ela dançava lá embaixo, vermelha e amarela, como uma língua que ainda tivesse algo a dizer. Mas eu sabia que não ouviria mais nada.

Virei as costas e segui meu mestre, atravessando a ponte de pedra rumo à escuridão. A cada passo, a imagem da montanha surgindo do mar se gravava mais fundo em minha mente. Não fostes feitos para viver como brutos, repeti para mim mesmo. Mas para seguir virtude e conhecimento.

E mesmo no inferno, mesmo entre chamas e pecadores, aquelas palavras pareciam brilhar como uma estrela distante. Talvez, pensei, fosse isso que separava os homens das feras. Não a força, não a astúcia. Mas a coragem de ir além.

Mesmo que o mar se fechasse sobre nós.