Canto XXV

Quando o ladrão terminou aquela última afronta, ergueu as duas mãos e me mostrou o gesto obsceno, como se quisesse lançar o próprio desprezo na cara de Deus. A blasfêmia atravessou o ar escuro do abismo como uma faísca suja, e no instante seguinte eu senti que algo mudava ao meu redor: as serpentes, que até então pareciam ameaças espalhadas pelo chão, tornaram-se quase cúmplices da punição, porque uma delas se enroscou em seu pescoço com violência, como se o mandasse calar para sempre, enquanto outra prendeu-lhe os braços e o amarrou com tanta força que ele não conseguiu sequer se mexer. A fúria dele pareceu se apagar de repente, engolida por aquelas voltas frias e vivas, e eu, ainda tenso, acompanhei a cena com a sensação de estar vendo a própria soberba sendo fechada em nós apertados de carne e veneno.

Foi então que me veio à mente a terra de Pistoia, e a maldição subiu em mim quase como um impulso inevitável. Até quando essa cidade vai continuar a gerar crimes e mais crimes? pensei, olhando para aquele condenado que se desfazia em silêncio. Nunca vi, em todos os círculos escuros do Inferno, uma alma tão cheia de arrogância diante de Deus, nem mesmo aquela figura antiga que caiu dos muros de Tebas. Mas ele já tinha fugido do debate, já não dizia mais nada, e eu apenas o vi desaparecer na distância do vale como se a própria vergonha o empurrasse para fora do olhar.

Antes que eu pudesse absorver a imagem, surgiu um centauro, tomado por uma raiva bruta, gritando pelo espaço abaixo de nós, procurando o fugitivo como quem caça uma presa perdida. Nunca vi criatura tão monstruosa: o corpo dele vinha coberto por serpentes, tantas que eu teria achado impossível contá-las, e no dorso, desde as costas até o lugar onde começava o rosto, havia um dragão aberto como uma ferida viva. A cena tinha algo de antigo e de irreparável, como se as lendas antigas tivessem ganhado carne para vigiar aquele fosso.

Meu guia percebeu meu espanto e falou com firmeza, sem desviar os olhos da estrada sombria:

— Este é Caco. No monte Aventino, sob a pedra, ele fez do sangue um lago muitas vezes. Não segue com os irmãos o mesmo caminho, porque roubou com fraude o grande rebanho que tinha por perto. Foi por isso que Hércules interrompeu suas ações torpes sob a clava, que talvez lhe tenha dado cem golpes, ainda que ele tenha sentido apenas dez.

Mal ele terminou de falar, a sombra de Caco passou adiante, e eu vi surgir, logo abaixo de nós, três espíritos correndo em desordem, tão rápidos que nem eu nem meu mestre os tínhamos notado de início. Só os percebemos quando eles gritaram um para o outro, e o som daquelas vozes, cortando o ar pesado, fez nossa conversa parar no instante.

— Quem são vocês?

Eu não os reconheci, mas a resposta veio pela boca de um deles, que buscava outro pelo nome, como acontece quando alguém tenta chamar um companheiro no meio do caos.

— Onde estará Cianfa?

Ao ouvir aquilo, senti o meu guia ficar atento, e ergui um dedo do queixo até o nariz, em silêncio, para avisá-lo de que prestasse ainda mais atenção. O que se seguiria parecia tão impossível que, mesmo agora, eu quase mal consigo admiti-lo em meu próprio pensamento. Será mesmo que vi isto? Eu hesitaria em jurar, e nem o fato de tê-lo presenciado me livra da estranheza.

Fixei os olhos neles, sem piscar, e então um serpente saltou de repente com seis patas contra um deles. Lançou-se como uma centelha viva e se agarrou ao corpo do homem inteiro. Com as patas do meio apertou-lhe o ventre; com as dianteiras agarrou-lhe os braços; depois cravou os dentes em ambas as faces, como se quisesse apagar o rosto daquele espírito. As patas traseiras se estenderam pelas coxas, e a cauda enroscou-se entre as pernas, subindo pelas costas até fixá-lo por completo. Nunca vi hera se agarrar tão ferozmente a uma árvore quanto aquela fera se enroscou no corpo alheio.

Então veio o impossível. Os dois se colaram como se fossem cera quente, as cores se misturando até que já não se distinguisse qual carne pertencia a quem. O homem e a serpente começaram a trocar de aspecto, e a mudança avançou com uma lógica terrível, como fogo que se espalha por uma folha de papel: um castanho bruno tomou forma, ainda não negro, mas já longe do branco inicial. Os outros dois espíritos, vendo aquilo, começaram a lamentar:

— Ai, Agnello, como você está se transformando! Veja: já não é dois nem é um.

E, de fato, quando os dois rostos se fundiram, surgiu diante de mim uma única face misturada, onde antes havia duas identidades perdidas. Os braços se converteram em duas faixas estranhas; as coxas, as pernas, o ventre e o peito se reorganizaram em membros que eu jamais teria imaginado ver. Nada do que tinham sido permanecia intacto. A imagem inteira parecia uma negação viva da forma humana, e eles seguiram adiante com passo lento, como se até o próprio horror precisasse respirar.

Foi então que outro ser apareceu, cortando o espaço como um raio sob o calor do verão. Um pequeno serpente, ardente e escuro como grão de pimenta, disparou na direção da barriga dos outros dois e atingiu um deles em cheio. Depois caiu estendido diante dele. O ferido apenas olhou para o agressor, sem dizer palavra. Nem mesmo a dor o fez reagir com rapidez; ele ficou parado, de boca aberta, como se o sono ou a febre o tivessem tomado. E os dois começaram a soltar fumaça forte, uma pela ferida, outra pela boca, e as fumaças se encontraram no ar como se discutissem qual dos dois deveria vencer aquela disputa de natureza.

Não há poeta antigo que tenha narrado algo assim, pensei, lembrando das histórias de Lúcio Aneu Cornélio e de Ovídio. Mas ali, diante de mim, a própria realidade ultrapassava os livros. Nem mesmo as transformações que eles celebraram pareciam ter levado a mudança tão longe. Naquele instante, duas naturezas estavam se desfazendo e se recompondo diante dos meus olhos com uma precisão cruel.

Vi a serpente dividir a cauda em duas pontas, enquanto o homem ferido fechava as próprias pernas como quem tenta prender o que já está escapando. As juntas se comprimiam, os encaixes sumiam, os contornos humanos desapareciam um após o outro. A figura que se perdia ali deixava a pele amolecer; a outra, ao contrário, tornava-se firme. As mãos entravam pelas axilas, os pés da fera se alongavam no mesmo ritmo em que os pés humanos encolhiam, e o que antes era carne de homem se recolhia para dentro de uma forma que eu mal podia acompanhar com o olhar.

Depois, os membros posteriores da criatura se enroscaram e se transformaram na parte que os homens escondem, enquanto o infeliz recebia em si o que antes pertencia ao outro. O fumo cobriu ambos, tingindo-os de um tom novo, e vi pelos surgirem de um lado enquanto do outro eram arrancados. Foi como assistir a duas identidades sendo raspadas uma da outra, até restarem apenas restos ambulantes de algo que já fora gente.

Um deles se ergueu, o outro caiu. E os olhos dos dois continuavam fixos, como brasas doentes, enquanto cada um perdia a antiga forma no exato momento em que ganhava uma nova. O que se levantou puxou o rosto para as têmporas; a matéria excedente escorreu para os lados, tornando os ouvidos parte da face e alargando o nariz e os lábios até que ficassem compatíveis com a nova figura. O que caíra, por sua vez, lançou o focinho para a frente, encolheu os ouvidos para dentro da cabeça, como faz a lesma com as pontas, e sua língua, antes pronta para falar, se partiu em duas, fechando-se em outra boca. Quando o fumo enfim começou a dissipar, ele já não era o mesmo, e um dos dois fugiu soprando pelo vale, enquanto o outro, ainda entre palavras cuspidas e furiosas, voltava-se para ele.

— Quero que Buoso corra, como eu corri, de quatro por este caminho.

Continuei olhando, sem conseguir desviar, e vi a sétima vala inteira se mexer diante de mim como se a própria matéria do Inferno estivesse aprendendo novas formas de horror. A mudança não era só dos corpos, mas da natureza inteira daquela pena. Mesmo assim, por mais perturbado que eu estivesse, consegui distinguir outros rostos entre os sobreviventes do espanto. Um deles era Puccio Sciancato, que permaneceu intocado, como se naquele exato momento o destino tivesse escolhido poupá-lo da metamorfose. Os outros dois já não eram o que tinham sido, e o terceiro, o que restava do grupo, era o que a cidade de Gaville ainda chora.

Eu segui adiante com o coração apertado, sentindo que o peso daquele vale não vinha apenas da maldição dos condenados, mas da precisão com que cada um deles era forçado a perder a própria identidade. E, enquanto o caminho escuro continuava à frente, compreendi que naquele lugar a alma e o corpo não eram mais refúgios um do outro: ali, até a forma era condenação.