Canto XXIII
A caminhada estava silenciosa. Seguíamos sozinhos, sem companhia – eu atrás, meu guia à frente, como frades menores caminham em suas peregrinações. Meus pensamentos, porém, não descansavam. Voltavam-se para a fábula de Esopo que me veio à mente por causa daquela briga recente, aquela história do sapo e do rato. Porque a comparação entre o “agora” e o “então” não poderia ser mais perfeita, se a gente prendesse a mente no começo e no fim daquela confusão.
E então, como um pensamento explode em outro, algo novo nasceu dentro de mim, dobrando meu medo original.
Estão zombados – pensei – com tamanho dano e escárnio, que aposto que aqueles diabos estão furiosos. Se a raiva se enrola sobre a má vontade, eles vão nos perseguir mais cruéis do que o cachorro atrás da lebre que ele já sente no focinho.
Senti os pelos do corpo se arrepiarem. Fiquei olhando para trás, tenso, até que não aguentei mais.
— Mestre – disse, com a voz que tentava não tremer –, se não se esconder você e eu rapidamente, estou com medo dos Malebranche. Já os imagino atrás de nós… juro que os ouço.
Virgil voltou o rosto para mim, e seus olhos tinham uma calma que eu não conseguia entender naquele momento.
— Se eu fosse feito de vidro espelhado – respondeu –, não refletiria tua imagem externa mais rápido do que absorvo teus pensamentos. Agora mesmo teus medos chegaram até os meus, com a mesma cara, a mesma intenção, e dos dois fiz um único plano. Se a encosta da direita desce de tal forma que possamos descer para a outra bolgia, fugiremos da caçada que você já vê acontecendo.
Ele nem tinha terminado de explicar o plano quando eu os vi.
Vinham com as asas abertas, não muito longe, prontos para nos agarrar.
Virgil não hesitou. Me pegou no mesmo instante, como uma mãe que acorda com o barulho do fogo e vê as chamas perto do berço – ela pega o filho, foge, não para nem para vestir mais do que uma camisa, cuidando mais dele do que de si mesma.
Meu guia se jogou de costas na encosta dura, deslizando pela rocha pendente que forma a ponte entre uma vala e outra. Nunca a água correu tão rápida num canal para mover a roda de um moinho quando se aproxima das pás quanto Virgil desceu por aquela borda, carregando-me sobre o peito – como filho, não como companheiro.
Seus pés mal tocaram o fundo da nova vala e os demônios já estavam no penhasco acima de nós. Mas não havia mais perigo. A providência suprema que os destinou como ministros da quinta fossa não lhes permite sair dali.
O alívio, porém, não durou muito. Lá embaixo encontramos almas diferentes. Andavam em círculos, passos lentos, chorando, com o rosto cansado, derrotado. Vestiam capas com capuzes baixos sobre os olhos, feitas como as que se usam em Cluny para os monges. Por fora, douradas – tão brilhantes que ofuscavam. Mas por dentro, todo o peso era de chumbo. Pesadas, tão pesadas que o imperador Frederico teria forrado as suas com palha.
Oh, manto cansativo para a eternidade!
Seguimos pela esquerda, misturados àquelas almas, atentos ao choro triste. Mas com aquele peso, a multidão andava tão devagar que a cada movimento de quadril nos distanciávamos de um grupo e alcançávamos outro.
Falei com meu guia:
— Tenta encontrar alguém que se reconheça pelo nome ou pelo que fez. Vai olhando em volta enquanto andamos.
Um deles, que entendeu minha fala toscana, gritou de trás de nós:
— Parai os pés, vós que correis assim pelo ar escuro! Talvez tenhas de mim o que procuras.
Virgil se virou:
— Espera – disse –, depois anda no passo dele.
Parei. Vi dois que mostravam no rosto pressa em se juntar a mim, mas a carga e o caminho estreito atrasavam seus passos. Quando enfim chegaram, me olharam de lado, demoradamente, sem dizer palavra. Depois se viraram um para o outro e cochicharam:
— Este parece vivo pelo movimento da garganta. E se estiver morto, por que privilégio anda sem o pesado manto?
Então me disseram:
— Ó toscano, que chegaste ao colégio dos hipócritas tristes, não desprezes nos dizer quem és.
Respondi:
— Nasci e cresci às margens do belo rio Arno, na grande cidade, e estou com o corpo que sempre tive. Mas vós, quem sois? Vejo tanta dor escorrendo por vossas faces. Que pena é essa que assim brilha em vós?
Um deles respondeu:
— Estas capas de cor de laranja são de chumbo tão grosso que os pesos fazem chiar as balanças como vês. Fomos frades godentes, bolonheses. Eu, Catalano; este, Loderingo. Fomos escolhidos por tua cidade, como se escolhe um homem solitário para guardar a paz, e fomos tais que ainda hoje se vê suas consequências pelo Gardingo.
Comecei a dizer: — Ó frades, vossos males… – mas não completei.
Meu olho foi puxado para uma figura à frente. Um homem crucificado no chão, com três estacas. Quando me viu, se contorceu todo, soprando suspiros na própria barba. O frei Catalano percebeu meu espanto e explicou:
— Aquele pregado que vês aconselhou os fariseus que convinha sacrificar um homem pelo povo. Está atravessado, nu, no caminho, e precisa sentir o peso de quem passa sobre ele antes que siga em frente. Assim se atormenta o sogro de Caifás nesta fossa, e todos os outros do concílio que foi para os judeus má semente.
Vi Virgílio se maravilhar diante daquele que jazia em cruz tão vilmente no exílio eterno. Depois meu guia se virou para o frei e perguntou:
— Não vos desagrade, se vos é permitido, dizer-nos se há à direita alguma passagem por onde possamos sair daqui sem precisar chamar os anjos negros que nos tirem deste fosso.
A resposta veio seca:
— Mais perto do que imaginas há uma rocha que parte do grande círculo, atravessa todos os vales ferozes, exceto que aqui está quebrada e não o cobre. Podeis subir pelos escombros, que se acumulam na encosta e no fundo.
Virgil ficou um momento de cabeça baixa. Depois disse, com um tom que eu conhecia bem:
— Quem fisga os pecadores aqui embaixo contou mal a história.
O frei retrucou, sem perder a pose:
— Já ouvi dizer em Bologna muitas coisas sobre o diabo, e entre elas ouvi que ele é mentiroso, pai da mentira.
Meu guia partiu então com passos largos, o rosto um pouco turbado pela ira. Eu me afastei dos encapuzados e segui as pegadas preciosas de quem me guiava.