Canto II
O dia estava chegando ao fim. O céu assumia um tom acobreado antes de mergulhar no cinza, e a escuridão que avançava trazia o repouso para todos os seres vivos da terra. O silêncio começava a dominar o vale, mas, para mim, não haveria descanso. Eu me preparava, sozinho, para uma guerra — não contra homens, mas contra o cansaço do caminho e a angústia da compaixão que, logo mais, minha memória teria o fardo de reescrever com precisão absoluta.
Preciso de força. Musas, gênio superior, ajudem-me agora. Memória, que registraste cada detalhe do que vi, aqui será provada a tua nobreza.
Enquanto caminhávamos pela penumbra, a dúvida começou a corroer minha determinação. Olhei para a silhueta firme de Virgílio à minha frente e decidi falar.
— Poeta, você que me guia, avalie minha capacidade. Veja se meu valor é suficiente antes de me confiar a esse passo tão arriscado. Você me contou que o pai de Sílvio, ainda em corpo mortal, viajou ao mundo eterno. Mas ele era Enéias. Se o adversário de todo o mal foi benevolente com ele, faz sentido; qualquer homem de intelecto entende que ele foi escolhido no céu para fundar a alma de Roma e seu império. Ele ouviu coisas que garantiram sua vitória e, futuramente, o trono papal. Depois, o “Vaso de Eleição”, o próprio Paulo, também foi até lá para confirmar a fé que nos salva. Mas eu? Por que eu deveria ir? Quem me concede isso?
Parei o passo, sentindo o peso do meu próprio corpo.
— Eu não sou Enéias. Não sou Paulo. Ninguém, nem eu mesmo, me julga digno de tal jornada. Se eu me entregar a essa vinda, temo que seja uma loucura. Você é sábio, Virgílio. Entende o que eu tento dizer melhor do que minhas próprias palavras conseguem expressar.
Eu era como alguém que desiste do que acabou de desejar. Novos pensamentos mudavam meus planos, e a coragem que eu sentia na encosta da montanha simplesmente evaporou. Ali, naquela descida escura, eu consumi minha energia apenas pensando, destruindo a iniciativa que parecia tão sólida minutos antes.
Virgílio parou e se virou para mim. Sua sombra parecia projetar uma autoridade milenar.
— Se entendi bem o que você disse — respondeu aquela sombra magnânima —, sua alma foi atingida pela covardia. Esse é um peso que muitas vezes sobrecarrega o homem, desviando-o de grandes objetivos, como uma visão falsa assusta um animal que recua diante da própria sombra.
Ele se aproximou, e seu tom de voz suavizou, embora mantivesse a urgência.
— Para que você se livre desse medo, vou lhe contar por que vim e o que ouvi no momento em que senti pena de você pela primeira vez. Eu estava entre aqueles que vivem no Limbo, em suspensão, quando fui chamado por uma mulher tão mística e bela que eu mesmo implorei que ela me desse ordens. Seus olhos brilhavam mais que as estrelas. Ela começou a falar comigo de forma suave, com uma voz angélica que parecia vir de outro plano.
Virgílio fechou os olhos por um segundo, como se revivesse a cena.
— Ela me disse: “Espírito gentil de Mântua, cuja fama ainda ecoa no mundo e durará enquanto o tempo existir. Um amigo meu, movido pelo amor e não pelo destino, encontrou um obstáculo naquela encosta deserta. Ele está tão perdido e aterrorizado que temo ter me levantado tarde demais para ajudá-lo, pelo que ouvi sobre ele no céu. Vá agora. Use sua eloquência, use tudo o que for necessário para salvá-lo, para que eu possa ter paz. Eu sou Beatriz. Venho de um lugar para o qual desejo voltar. Foi o amor que me trouxe aqui e é ele quem me faz falar. Quando eu estiver diante do meu Senhor, falarei bem de você para Ele”.
Virgílio fez uma pausa, observando minha reação, antes de continuar o relato do diálogo.
— Ela se calou, e eu respondi: “Mulher de virtude, a única por quem a espécie humana supera tudo o que existe no céu de menor órbita, sua ordem me agrada tanto que, se eu já tivesse obedecido, ainda me pareceria tarde. Não precisa dizer mais nada. Mas me diga: como não teve medo de descer até este centro, vindo de um lugar tão vasto que arde de desejo de retornar?”. Ela me explicou com brevidade que só devemos temer aquilo que tem o poder de nos causar dano real. Que, pela graça de Deus, ela foi feita de tal forma que a nossa miséria não a toca, nem as chamas deste incêndio a atingem.
O relato de Virgílio ficava cada vez mais dinâmico, revelando uma conspiração celestial em meu favor.
— Beatriz me contou que existe uma Mulher Nobre no céu que lamenta tanto o seu impedimento que conseguiu quebrar o rigor do julgamento divino. Ela chamou Lúcia e disse: “Seu fiel agora precisa de você, e eu o recomendo a você”. Lúcia, a inimiga de toda crueldade, veio até onde Beatriz estava sentada ao lado da antiga Raquel e disse: “Beatriz, verdadeiro louvor de Deus, por que não ajuda aquele que te amou tanto e que, por você, saiu da multidão comum? Não ouve a angústia do pranto dele? Não vê a morte que ele combate sobre aquele rio onde o mar não tem vantagem?”.
Virgílio deu um passo à frente, gesticulando com as mãos.
— No mundo, ninguém jamais foi tão rápido em buscar o próprio lucro ou fugir do perigo quanto ela foi ao descer de seu trono abençoado, confiando na minha palavra honesta. E, depois de me dizer tudo isso, ela desviou os olhos brilhantes, cheios de lágrimas, o que me fez querer vir ainda mais rápido. Cheguei até você exatamente como ela quis. Eu tirei você da frente daquela fera que bloqueava o caminho curto para a montanha.
Ele me encarou fixamente, o olhar carregado de um desafio paternal.
— Então, Dante, o que está acontecendo? Por que você hesita? Por que abriga tanta covardia no coração? Por que não tem audácia e coragem, sabendo que três mulheres abençoadas cuidam de você na corte do céu e que minhas palavras lhe prometem tanto bem?
Como flores que, curvadas e fechadas pelo gelo da noite, se erguem e se abrem sobre o caule assim que o sol as ilumina, assim recuperei minhas forças exaustas. Um calor de coragem percorreu meu peito, e eu respondi com a clareza de alguém que finalmente se sente livre.
— Que piedosa foi aquela que me socorreu! E como você foi gentil, obedecendo tão rápido às palavras verdadeiras que ela lhe trouxe. Você reacendeu em meu coração o desejo de seguir. Suas palavras me devolveram ao meu propósito inicial.
Apertei a mão de Virgílio, sentindo a firmeza do meu novo destino.
— Vamos. Agora temos uma vontade única. Você é meu guia, meu senhor e meu mestre.
Assim que falei, ele começou a se mover. Sem mais hesitações, eu o segui, entrando pelo caminho profundo e selvagem.