Canto XIX
—Simão Mago e seus miseráveis seguidores, que transformaram as coisas sagradas de Deus — que deveriam ser esposas da virtude — em objeto de rapina, prostituindo-se por ouro e prata: agora é justo que a trombeta soe contra vocês, porque estão na terceira bolgia.
A voz de Virgílio ecoou com uma solenidade que fez a própria rocha vibrar. Eu me mantive em silêncio, processando a acusação. Simão Mago. O feiticeiro que tentou comprar o poder do Espírito Santo. Ali, diante de nós, se estendia o fosso reservado para os que mercadejaram com o sagrado.
Já havíamos escalado o penhasco até o ponto seguinte, exatamente onde a ponte de pedra se arqueava sobre o centro da terceira vala. A paisagem ao redor parecia cada vez mais opressiva, mas também mais fascinante em sua geometria infernal.
Ó suprema sabedoria, quanta arte você revela no céu, na terra e neste mundo maligno — e quão justa é a força que sua virtude distribui!
O pensamento escapou involuntário enquanto meus olhos percorriam as encostas e o fundo do fosso. A rocha lívida estava repleta de buracos, todos circulares, todos do mesmo tamanho. Não me pareciam nem mais largos nem mais estreitos do que aqueles do meu belo São João Batista de Florença, feitos para os batizandos. Um deles, aliás, eu mesmo havia quebrado há poucos anos para salvar um menino que estava se afogando dentro — e que isso sirva de prova para desfazer qualquer mentira.
De cada abertura sobressaíam as pernas e os pés de um pecador até a altura das coxas. O resto do corpo ficava para dentro, como uma rolha invertida no gargalo de um barril. As solas dos pés estavam todas em chamas, e os calcanhares se contorciam com tanta violência que teriam rompido cordas e correntes. O fogo dançava sobre a pele como chamas que lambem a superfície de um objeto untado, movendo-se apenas pela parte externa. Era a mesma chama que, naqueles pés, subia dos calcanhares às pontas dos dedos.
— Mestre — perguntei, apontando para um dos condenados —, quem é aquele que se contorce e sofre mais do que os seus companheiros? E por que uma chama mais vermelha o suga?
Virgílio lançou um olhar agudo na direção que eu indicava.
— Se você quiser que eu te leve lá embaixo por aquela encosta mais inclinada, saberá dele mesmo quem é e quais foram seus crimes.
— Tanto me agrada quanto a ti agrada — respondi sem hesitar. — Tu és o senhor, e sabes que não me afasto da tua vontade, e sabes também o que não foi dito.
Virgílio não precisou de mais estímulo. Caminhamos até o quarto dique, viramos à esquerda e descemos em direção ao fundo perfurado e estreito. Meu guia não me largou um segundo sequer: com o braço envolvendo minha cintura, me levou até a abertura daquele que chorava com as pernas trêmulas.
Fiquei diante do buraco. O cheiro de enxofre e carne queimada era sufocante, mas eu precisava ouvir o que aquela alma tinha a dizer.
— Ó você que está de cabeça para baixo, alma triste como um poste enterrado — comecei, forçando a voz para que atravessasse o chiado do fogo —, se puder, fale.
Eu permanecia na posição do frade que confessa o assassino traiçoeiro: depois que o condenado já está fixado no chão, o frade o chama para que a morte não o leve sem absolvição. Havia algo de grotesco na inversão — eu, o vivo, em pé sobre a terra firme, e ele, o morto, plantado de pernas para o ar.
De repente, uma voz rouca emergiu do fundo do poço.
— Já está aí em pé, Bonifácio? Já está aí em pé? O escrito me enganou por vários anos. Estás tão cedo saciado daquela riqueza pela qual não temeste tomar com engano a bela dama e depois fazer dela estrago?
O chope me atingiu como um soco no estômago. Bonifácio? Aquele pecador me confundia com o papa Bonifácio VIII, meu inimigo político, o homem que havia exilado minha família e conspirou contra Florença. A ironia era cruel e perfeita.
Fiquei paralisado, exatamente como aqueles que, sem entender o que lhes foi respondido, parecem envergonhados e não sabem o que dizer.
Virgílio percebeu meu desconforto e ordenou, rápido e baixo:
— Diga logo: “Não sou ele, não sou aquele que você pensa.”
Obedeci, repetindo as palavras como me foram impostas.
O espírito, então, torceu os pés com violência. Suspirou, e com voz de choro respondeu:
— Então por que me perguntas? Se te importa tanto saber quem sou, a ponto de ter descido esta encosta, saiba que fui revestido do grande manto. E fui verdadeiramente filho da ursa — tão ávido por promover os filhotes que, acima, acumulei riquezas e aqui me coloquei na bolsa.
Abaixo da minha cabeça estão os outros que me precederam na simonia, achatados nas fendas da rocha. Lá em baixo eu também cairei quando chegar aquele que eu pensava que fosse você no momento em que fiz a pergunta precipitada. Mas o tempo em que meus pés estão sendo queimados e em que fico assim de cabeça para baixo é maior do que aquele em que ele ficará plantado com os pés vermelhos. Porque depois dele virá, do Ocidente, um pastor sem lei, de obra mais suja, que precisará ser coberto por mim e por Bonifácio. Será um novo Jasão, como se lê nos Macabeus. E assim como o rei daquele tempo foi complacente com Jasão, assim o rei da França será com ele.
A profecia me gelou a espinha. Um terceiro papa corrupto, vindo da França? Clemente V. Eu podia ver o nome ecoando no futuro como uma maldição.
Não sei se fui tolo demais, mas respondi ao seu discurso com estas palavras:
— Dize-me, quanto tesouro quis Nosso Senhor, primeiro, de São Pedro, quando lhe entregou as chaves? Certamente não pediu nada além de “Vem comigo”. Nem Pedro nem os outros cobraram ouro ou prata de Matias quando foi sorteado para o lugar que a alma perversa abandonou. Portanto, fica aí, que estás bem punido. E repara bem no dinheiro mal adquirido que te fez ousado contra Carlos. E se não fosse a reverência pelas chaves supremas que tu seguraste na vida alegre, eu usaria palavras ainda mais duras. Porque a vossa avarícia entristece o mundo, pisando os bons e erguendo os maus. De vós, pastores, se deu conta o Evangelista quando viu aquela que se senta sobre as águas prostituindo-se com os reis. Ela que nasceu com sete cabeças e teve força das dez pontas enquanto a virtude agradou a seu marido. Fizestes de vós um deus de ouro e prata. E qual é a diferença entre vós e os idólatras, senão que eles adoram um deus e vós adorais cem? Ah, Constantino, de quanto mal foi mãe, não a tua conversão, mas aquela doação que o primeiro pai rico recebeu de ti!
Enquanto eu entoava essas notas, o espírito — fosse pela raiva ou pela consciência que o mordia — chutava com força ambas as pernas. As labaredas subiam mais intensas, e seus gritos abafados se perdiam nas profundezas.
Acredito que meu mestre ficou satisfeito. Ele me observava com os lábios tão contentes, absorvendo o som das palavras verdadeiras que eu havia dito. Sem perder tempo, Virgílio me agarrou com os dois braços. Levantou-me inteiro contra o peito e subiu de volta pelo mesmo caminho por onde havíamos descido. Nem se cansou de me manter apertado contra si. Me carregou até o topo do arco que faz a travessia do quarto para o quinto dique.
Ali, depositou o fardo suavemente — suave para aquele penhasco áspero e íngreme que seria passagem dura até para cabras.
E então, diante de mim, se descortinou outro vale.