Canto XIII
Quando Gerião nos deixou naquela margem de pedra, ainda sentia no corpo a tensão da descida, como se meu peito tivesse sido sacudido por dentro e deixado em outro lugar, mais pesado e mais cansado. À nossa frente se abria Malebolge, um nome que parecia já carregar o gosto da ruína: um lugar de pedra cinzenta, áspera, ferrenha, cercado por uma muralha natural que o fechava como se o próprio Inferno tivesse sido talhado em defesa de algo ainda pior. No centro daquele campo maligno, um poço enorme se abria no vazio, largo e profundo, escuro como uma boca sem fundo. Eu o olhei e senti que ali havia uma ordem terrível, uma engenharia do castigo que não deixava espaço para engano. Tudo era dividido, medido, separado. A danação ali não era um caos bruto; era um sistema.
O anel de pedra que restava entre o poço e a borda alta da ripa formava um círculo perfeito, e o fundo desse círculo se repartia em dez valas. A visão me veio como a de castelos cercados por fossos sucessivos: fossos, muralhas, passagens, torres e pontes. Só que ali, em vez de proteção, cada traço da arquitetura servia ao suplício. Vi os arcos de rocha atravessando as valas, como pontes sobre trechos de guerra antiga, e compreendi que aquela parte do Inferno fora feita para que se pudesse olhar o tormento sem jamais escapá-lo. O próprio caminho parecia impor uma lição.
Seguimos pela esquerda, e eu fui logo atrás do meu guia. À direita, surgiu diante de mim a primeira das valas, repleta de uma pena nova, de um horror novo, de carrascos novos. Ali, no fundo, havia pecadores nus. No trecho mais próximo de nós, eles vinham em nossa direção; no lado oposto, moviam-se no mesmo sentido que nós, mas em marcha mais rápida, como se a vergonha os empurrasse e ao mesmo tempo os atrasasse. A imagem me lembrou a multidão de Roma, nos dias do jubileu, atravessando a ponte em direção a São Pedro, comprimida entre dois fluxos: de um lado, os que seguem para o castelo; de outro, os que sobem para a colina. Só que ali não havia devoção, apenas compulsão. Entre a pedra escura e o ar morto, demônios com chifres os chicoteavam pelas costas com ferros de couro que estalavam no ar como trovões curtos. A cada golpe, os condenados saltavam, erguendo as pernas numa tentativa inútil de fugir da ferida. Nenhum esperava a segunda pancada; ninguém tinha sequer tempo para uma terceira.
Enquanto eu avançava, meus olhos se prenderam em um rosto. Reconheci-o de imediato, e isso me arrancou um impulso quase instintivo de memória e desprezo. Não preciso olhar duas vezes para esse homem. Parei os pés e o próprio meu mestre também deteve o passo, consentindo que eu recuasse um pouco.
Aquele que recebia os açoites tentou esconder o rosto, baixando a cabeça, mas isso pouco lhe adiantou. Eu o chamei sem rodeios:
— Se essas feições não me enganam, tu és Venedico Caccianemico. Mas o que te trouxe a tamanhos tormentos?
Ele ergueu a voz com visível má vontade, como alguém forçado pela lembrança da terra que já perdeu.
— Digo isso com desgosto, mas tua fala me obriga, porque me faz recordar o mundo de antes. Fui eu quem levou Ghisolabella a cumprir a vontade do marquês. A infâmia correu a cidade inteira, embora eu preferisse que não a repetissem. E não sou o único bolonhês aqui. Este lugar está tão cheio de homens como eu que nem tantas línguas bastariam hoje para dizer “sipa” entre Sávena e Reno. Se queres prova disso, basta lembrar a avidez que nos moveu.
Mal terminou, um dos demônios o atingiu com uma chibatada e rugiu:
— Vai, rufião! Aqui não há mulheres para teu comércio.
A palavra caiu sobre ele como mais uma pedra. Eu me reuni ao meu guia e seguimos em silêncio até um ponto onde um rochedo saía da margem. Subimos com relativa facilidade, e depois, virando para a direita sobre a lâmina da rocha, deixamos para trás aquela primeira borda eterna.
Quando chegamos ao ponto em que o arco se projetava por baixo, abrindo passagem aos flagelados, meu mestre se voltou para mim e disse com firmeza:
— Fica atento. Quero que fixes o rosto de outros malnascidos que ainda não viste, porque seguem conosco na mesma direção.
Obedeci, e lancei os olhos à velha ponte que vinha da outra margem, também varrida pelos golpes dos demônios. Foi então que ele, sem esperar meu pedido, apontou para um homem de grande porte que se aproximava.
— Vê aquele ali — disse ele. — Apesar do sofrimento, ainda conserva algo de régio no semblante. É Jasão, aquele que, com astúcia e coragem, fez os colcos perderem o carneiro de ouro. Depois foi para a ilha de Lemnos, quando as mulheres audazes e cruéis mataram todos os homens de lá. Ali enganou Isifile, a jovem que antes já havia enganado as outras, com gestos, palavras e promessas bem compostas. Depois a abandonou, grávida e sozinha. Por tal culpa, ele mesmo é condenado a esse martírio; e também por Medéia se cumpre a vingança. Com ele seguem os que enganam por esse caminho. Isso basta para que conheças a primeira vala e os que ela devora.
Continuamos até o ponto em que o estreito caminho de pedra cruzava com o segundo arco. Ali, o cenário mudou de forma brutal, como se o ar também tivesse descido outro degrau de degradação. Ouvimos gente gemendo na vala seguinte, e o som vinha acompanhado de um ruído viscoso, repulsivo, de corpos e mãos em luta contra a própria sujeira. Havia ali uma agitação baixa, quase subterrânea, feita de faces erguidas e imediatamente afundadas de novo, como se aquela vala respirasse lodo. As paredes estavam cobertas por uma crosta úmida, uma espécie de mofo pegajoso trazido pelo hálito quente que subia do fosso. O cheiro atingia os olhos e o nariz ao mesmo tempo, violento, invasivo. Lá embaixo, o fundo era tão escuro que não podíamos ver sem subir mais alto, até o dorso do arco, onde a rocha se elevava um pouco mais.
Foi dali que enxerguei o abismo da segunda bolgia. O chão era uma massa de imundície em que almas pareciam afundadas como objetos esquecidos num esgoto sem nome. Havia gente mergulhada em esterco até onde o olhar alcançava. E, enquanto eu procurava distinguir formas naquela lama humana, vi um homem com a cabeça tão coberta de sujeira que eu já não saberia dizer se era leigo ou clérigo. Ele me lançou um grito áspero, mais ofendido que envergonhado:
— Por que me examinas com tanto interesse, mais do que aos outros podres?
Eu não hesitei. A visão era repulsiva, mas a memória foi mais rápida do que o nojo.
— Porque, se me lembro bem, eu já te vi com os cabelos limpos. És Alessio Interminei de Lucca. Por isso te olho mais que aos demais.
Ele bateu com as mãos na própria cabeça, como quem tenta acordar de um pesadelo, e respondeu com amargura:
— Aqui embaixo me afogaram pelas lisonjas com que nunca economizei a língua.
Meu guia então me fez avançar um pouco mais e chamou minha atenção para outra figura, esta mais estranha ainda, uma mulher desgrenhada, revolvendo-se com as unhas enlameadas, ora agachada, ora erguendo-se por um instante para voltar à postura humilhante. O espetáculo era tão degradante que meu coração recusou por um segundo o que os olhos queriam fixar.
— Olha mais adiante — disse ele. — Aquela é Taís, a prostituta que respondeu ao amante quando ele lhe perguntou se tinha feito grandes favores: “Muito grandes”, disse ela. E com isso basta para saciar o que nossa vista suporta.
Fiquei em silêncio, olhando aquele lamaçal de palavras mentidas, favores comprados e desejos corrompidos. Havia em cada pena uma precisão terrível, como se o Inferno soubesse fazer do vício uma caricatura perfeita de si mesmo. Primeiro, os que vendiam pessoas com promessas; depois, os que sustentavam o mundo sobre o elogio falso. E ambos afundavam em algo que era ao mesmo tempo matéria e símbolo: um lixo que não apenas cobria o corpo, mas traduzia a alma. Senti um peso antigo sobre mim, uma fadiga que não vinha só da caminhada, mas da visão sucessiva da deformação humana. Ainda assim, continuei. Havia uma estranha firmeza no passo do meu mestre, e essa firmeza, mais do que a pedra sob meus pés, me impedia de parar. Porque eu sabia, mesmo sem dizer, que naquele lugar cada visão era uma resposta, e cada resposta abria uma nova parte do abismo.