Canto XVII
— Olhe para a fera com a cauda aguçada — começou meu guia, apontando para o abismo à nossa frente. — Ela ultrapassa montanhas, rompe muros e destrói exércitos. É ela quem infecta o mundo inteiro com seu hálito pútrido.
Virgílio fez um sinal para que a criatura se aproximasse da borda de mármore onde terminava nosso caminho seguro. A personificação da fraude não hesitou. Ela deslizou até nós, repousando a cabeça e o tronco na margem, mas mantendo a cauda oculta no vazio. O rosto era o de um homem justo, com uma expressão serena e uma pele que inspirava confiança, mas o restante do corpo era puramente serpentino. Suas patas eram peludas até as axilas, e o dorso, o peito e as laterais eram cobertos por padrões complexos de nós e círculos, cores sobrepostas com uma sofisticação que nenhum tecelão turco ou tártaro jamais conseguiria replicar, nem mesmo Aracne em seu tear mais ambicioso.
A fera repousava ali como um barco atracado, metade na água e metade na terra, ou como um castor à espreita em terras germânicas. Sua cauda venenosa, terminada em uma forquilha como a de um escorpião, vibrava no ar escuro.
— Precisamos desviar nosso caminho — explicou Virgílio, com a calma habitual que contrastava com meu nervosismo crescente. — Vamos descer até aquela besta maligna que está deitada logo adiante.
Caminhamos pela direita, avançando dez passos sobre a extremidade da rocha para evitar a areia escaldante e as labaredas que caíam do céu. Quando nos aproximamos do monstro, notei, um pouco mais à frente, um grupo de almas sentado na areia, perto do precipício.
— Para que você leve uma experiência completa deste círculo — disse meu mestre —, vá até eles e observe como vivem. Mas seja breve. Enquanto você vai, falarei com esta criatura para que nos empreste seus ombros fortes para a descida.
Segui sozinho pela borda do sétimo círculo até onde aquela gente miserável estava sentada. O sofrimento deles transbordava pelos olhos. Com as mãos, tentavam desesperadamente se proteger, ora das chamas que caíam, ora do solo ardente. Pareciam cães no verão, inquietos, agitando as patas e o focinho para espantar pulgas e moscas. Observei o rosto de vários, mas não reconheci ninguém. O que me chamou a atenção foi que cada um trazia ao pescoço uma bolsa colorida, marcada com um brasão específico, na qual mantinham os olhos fixos com uma espécie de fome melancólica.
Em uma bolsa amarela, vi um leão azul. Mais adiante, outra bolsa, vermelha como sangue, exibia uma oca mais branca que manteiga. Por fim, um homem cuja bolsa branca estava marcada com uma porca azul e gorda olhou para mim com desprezo.
— O que você está fazendo nesta cova? — ele gritou, a voz áspera pela agonia. — Vá embora! E já que ainda está vivo, saiba que meu vizinho, Vitaliano, logo se sentará aqui, à minha esquerda. Eu sou de Pádua, cercado por esses florentinos que não param de berrar nos meus ouvidos, pedindo a chegada do “cavaleiro soberano” que trará a bolsa com três bicos.
Ao terminar, ele retorceu a boca e pôs a língua para fora, como um boi lambendo o focinho. Senti que minha presença ali apenas aumentava sua irritação e, lembrando-me do aviso de Virgílio sobre a brevidade, dei as costas àquelas almas exaustas.
Encontrei meu guia já montado no dorso da fera terrível. Ele olhou para mim com firmeza.
— Agora, seja forte e corajoso — encorajou-me Virgílio. — Vamos descer por uma escada bem diferente desta vez. Monte na frente. Quero ficar entre você e a cauda, para que ela não possa lhe causar nenhum dano.
Senti um calafrio violento, como alguém que, prestes a ser atingido pelo tremor de uma febre severa, já sente as unhas ficarem pálidas e estremece só de olhar para a sombra. Mas a vergonha de parecer covarde diante de um mestre tão nobre me deu forças. Sentei-me naqueles ombros maciços e tentei dizer: “Por favor, segure-me”, mas a voz simplesmente não saiu.
Virgílio, porém, que já me ajudara em outros momentos difíceis, percebeu meu terror. Assim que montei, ele me envolveu com seus braços e me sustentou.
— Gerião, mova-se agora — ordenou ele. — Faça círculos largos e desça lentamente. Lembre-se da nova carga que você carrega.
Como um barco que recua lentamente para sair do porto, a fera se afastou da rocha. Quando sentiu que estava totalmente no vazio, ela girou a cauda para onde estava o peito e começou a movê-la como uma enguia, usando as patas para nadar no ar denso.
Não creio que o medo tenha sido maior quando Faetonte soltou as rédeas do carro do sol, queimando o céu, nem quando o miserável Ícaro sentiu as penas se soltarem de suas costas pelo derretimento da cera, enquanto o pai gritava que ele seguia pelo caminho errado. Meu pavor foi absoluto quando me vi cercado pelo ar de todos os lados, sem nada à vista além da própria fera.
Gerião nadava lentamente, girando e descendo, mas eu só percebia o movimento pelo vento que batia no meu rosto e subia por baixo de mim. À nossa direita, comecei a ouvir o som horrível de uma catarata rugindo abaixo de nós. Inclinei a cabeça, aterrorizado, e olhei para baixo.
Isso é real? Estamos mesmo caindo no abismo? Vi fogos distantes e ouvi soluços desesperados. Encolhi-me todo, tremendo. Só então percebi, pela aproximação das cenas de tormento que surgiam de diferentes lados, que estávamos de fato circulando para o fundo.
Como um falcão que voou por muito tempo sem encontrar presa ou chamariz, fazendo o falcoeiro exclamar desapontado: “Ah, você está descendo!”, e que baixa cansado, em círculos, para pousar longe de seu mestre, Gerião nos deixou no fundo do abismo, exatamente ao pé da rocha escarpada. Assim que descarregou nossos corpos, a criatura disparou como uma flecha lançada por uma corda tensionada, desaparecendo instantaneamente na escuridão.