Canto XV
Canto Quinze
A fumaça do riacho subia como um dossel sobre as margens duras, protegendo a água e as bordas do fogo que caía em cascata. Caminhávamos por ali, meu guia e eu, quando percebi que aquelas muralhas de terra não eram obra da natureza.
Parecem os diques da Flandres, pensei, lembrando das histórias que ouvira sobre os flamengos entre Guizante e Bruges, construindo barreiras contra o mar que ameaçava engolir suas terras. Ou as defesas que os paduanos erguiam ao longo da Brenta para proteger vilas e castelos, antes que o calor da primavera derretesse as neves de Carentana. Assim eram feitos aqueles parapeitos — não tão altos nem tão grossos, mas na mesma imagem. O mestre que os construíra, fosse quem fosse, entendia de desespero.
Já nos afastáramos tanto da selva dos suicidas que, mesmo virando-me, não conseguiria localizá-la, quando encontramos uma fileira de almas. Caminhavam rente à margem, e cada uma nos olhava como as pessoas olham umas para as outras sob a lua nova, no crepúsculo da noite. Apertavam as sobrancelhas na nossa direção como um velho alfaiate enfiando a linha na agulha.
Sentindo aquele exame minucioso sobre mim, fui reconhecido por um deles. Pegou-me pela barra da túnica e gritou:
— Que maravilha!
Estendi minha mão quando ele aproximou o braço e forcei meus olhos a penetrarem naquele rosto tostado e escurecido pelo fogo. A pele queimada não impediu minha mente de reconhecer quem era.
Curvando minha cabeça em reverência, respondi:
— Sois vós aqui, senhor Brunetto?
Ele olhou para mim com aqueles olhos que ainda guardavam centelhas de inteligência, mesmo naquele lugar de tormento.
— Ó meu filho — disse Brunetto Latini —, não te desagrade se Brunetto volta um pouco atrás e deixa a procissão seguir.
— Quanto posso, vos peço — respondi com o coração apertado. — E se quiserdes que me sente convosco, fá-lo-ei, se agradar a este que me acompanha.
Meu antigo mestre balançou a cabeça:
— Ó filho, se alguém deste rebanho para um só instante, fica cem anos sem poder se mover sob o fogo que o fustiga. Por isso, segue adiante. Eu virei junto às tuas vestes e depois retomarei minha companhia, que vai chorando sua danação eterna.
Não ousava descer do caminho para andar ao seu lado. Caminhava com a cabeça baixa, como quem se aproxima de um pai respeitado.
Brunetto começou, sua voz carregada de surpresa e algo que eu ousaria chamar de esperança:
— Que sorte ou destino te traz aqui antes do último dia? E quem é este que te mostra o caminho?
— Lá em cima, na vida serena — respondi —, perdi-me num vale antes que minha idade estivesse completa. Apenas ontem de manhã virei as costas àquele lugar. Este me apareceu quando eu retornava e me conduz de volta para casa por esta vereda.
Brunetto fitou-me com intensidade.
— Se segues tua estrela, não podes falhar o porto glorioso, se bem percebi na bela vida. E se não tivesse morrido tão cedo, vendo o céu tão benévolo contigo, ter-te-ia dado conforto na obra.
Minha estrela, pensei. Ele está falando do meu destino.
— Mas aquele povo ingrato e maligno — continuou, e sua voz adquiriu um tom de amargura que conhecia bem —, que desceu de Fiesole na antiguidade e ainda guarda algo da montanha e do rochedo, tornar-se-á teu inimigo por teu bem fazer. E é justo, pois entre os sorvos azedos não convém que a figueira doce frutifique.
Ele está falando de Florença. Meus concidadãos. Meus algozes futuros.
— Velha fama no mundo os chama de cegos — prosseguiu Brunetto. — Gente avarenta, invejosa e soberba. De seus costumes faz que te limpes. Tua fortuna te reserva tamanha honra que uma parte e a outra terão fome de ti. Mas longe do bico estará a erva.
Sorriu, e foi um sorriso duro.
— Que as bestas fiesolanas façam palha de si mesmas e não toquem na planta, se ainda alguma surge em seu esterco, na qual reviva a semente santa daqueles romanos que ali ficaram quando foi feito o ninho de tanta malícia.
Senti a raiva crescer em meu peito, mas também uma estranha gratidão.
— Se meu desejo fosse todo atendido — respondi —, vós não estaríeis ainda banido da natureza humana. Pois está gravada em minha mente, e agora me fere o coração, a cara boa e paterna de vós, quando no mundo, de hora em hora, me ensináveis como o homem se eterniza. E quanto tenho isso em conta, enquanto eu viver, deve minha língua demonstrar.
Ele foi meu primeiro mestre. O primeiro que me mostrou que as palavras podiam ser armas e escudos.
— O que narrais sobre meu curso escrevo e guardo para comentar com outro texto, com uma senhora que saberá, se até ela chegar. Quero que vos fique manifesto — e que minha consciência não me acuse — que à Fortuna, como ela quer, estou pronto. Não é nova aos meus ouvidos tal promessa. Que gire Fortuna sua roda como lhe apraz, e o lavrador sua enxada.
Meu mestre Virgílio então, à minha direita, voltou-se e olhou para mim com aprovação.
— Bem ouve quem anota — disse.
Continuei caminhando e conversando com ser Brunetto, perguntando quais eram seus companheiros mais conhecidos e importantes.
— Saber de alguns é bom — respondeu. — Dos outros, será louvável calar, pois o tempo seria curto para tanto rumor. Em suma, sabe que todos foram clérigos e grandes literatos, de grande fama, no mundo manchados por um mesmo pecado.
Pecado contra a natureza, completei mentalmente.
— Prisciano vai com aquela turba triste — continuou Brunetto —, e Francesco d’Accorso também. E se tivesses desejo de ver tal sarna, poderias ver aquele que foi transferido do Arno para o Bacchiglione pelo servo dos servos, onde deixou os nervos mal estendidos.
Reconheci a referência. Andrea de’ Mozzi, o bispo florentino transferido para Vicenza por decisão papal. Morreu lá, vítima de seus próprios excessos.
— Diria mais — concluiu Brunetto, apressando o passo —, mas a caminhada e a conversa não podem ser mais longas, pois vejo lá surgir nova fumaça da areia. Gente vem com a qual não devo estar. Que te seja recomendado meu Tesouro, no qual ainda vivo. E não peço mais.
Até suas obras ele confia a mim, pensei, sentindo o peso daquela herança.
Então se virou e pareceu um daqueles que correm pelo campo em Verona pela bandeira verde. Correu como quem vence, não como quem perde.
Fiquei ali, imóvel por um instante, vendo meu primeiro mestre desaparecer na paisagem infernal, fugindo do fogo que jamais deixaria de persegui-lo, e entendi que algumas despedidas são mais definitivas que a própria morte.