Canto XIII

Ainda sentia no peito o eco do galope de Nesso quando nos embrenhamos na floresta. Não havia caminho ali, nenhuma trilha marcada por passos humanos. As árvores se erguiam diante de mim como espectros petrificados, e levei um momento para perceber o que havia de errado nelas — não tinham folhas verdes, mas de um tom escuro, doentio, quase negro. Os galhos não se estendiam retos e firmes; eram nós retorcidos, enlaçados em formas que lembravam membros contorcidos. E em lugar de frutos, espinheiros venenosos.

Parece um lugar feito para o desespero, pensei, enquanto meus pés afundavam num solo que não ousava chamar de terra.

Foi então que as ouvi. As Harpias. Estavam empoleiradas nos ramos mais altos, suas asas largas batendo com um som úmido e pesado. Corpos de pássaro, rostos de mulher — se é que se pode chamar de rosto aquela máscara de fome perpétua. Vi suas garras afiadas rasparem a casca das árvores, e seus ventres penudos se contraíam enquanto soltavam lamentos que pareciam vir de um parto interminável. Foram elas que expulsaram os troianos das Estrófades, lembrei, com a profecia da fome que os esperava.

— Antes que entremos mais fundo — Virgílio começou, e sua voz tinha a calma tensa de quem conhece o terreno traiçoeiro —, saiba que você está no segundo girão. Ficará aqui até alcançarmos a areia horrível. Olhe com atenção. Verá coisas que fariam qualquer um duvidar das minhas palavras.

Eu já duvidava. Não dele, mas dos meus próprios sentidos. Porque de todos os lados vinham gemidos. Lamentos. Vozes que choravam e praguejavam, mas quando eu procurava a origem, não encontrava ninguém. Apenas troncos. Galhos. Aquela floresta de árvores mortas-vivas.

— Elas estão escondidas — murmurei, mais para mim mesmo. — Devem estar atrás dos arbustos.

Virgílio me olhou com uma ponta de decepção que logo se transformou em instrução.

— Quebre um raminho de uma dessas plantas. Seus pensamentos ficarão menos tolos.

Estendi a mão. Meus dedos tremiam — não de medo, mas de uma inquietação que não sabia nomear. Escolhi um arbusto grande, um espinheiro escuro, e arranquei um galho fino.

O tronco gritou.

— Por que você me arranca? — a voz saiu rouca, como se viesse de uma garganta há séculos em silêncio. E então o sangue começou a escorrer do local onde eu havia quebrado o ramo. Um sangue escuro, quase preto, que borbulhava e escorria pela casca.

Recuei. O galho ainda estava na minha mão, mas eu o deixei cair como se queimasse.

— Por que me mutila? — o tronco continuou, e agora a voz ganhava corpo, dor e fúria. — Você não tem nenhum fio de piedade? Fomos homens, e agora somos árvores. Se fôssemos almas de serpentes, ainda assim sua mão deveria ser mais piedosa.

O sangue e as palavras saíam juntos, como um galho verde que, quando queimado numa ponta, geme e chia pela outra. Eu estava paralisado. O que fiz? Meu peito apertou com uma culpa tão aguda que quase me dobrou.

Virgílio se adiantou, e sua voz foi suave como nunca.

— Alma ferida — disse ele ao tronco sangrento. — Se ele pudesse ter acreditado antes no que viu apenas nos meus versos, não teria estendido a mão. O que é incrível nos torna tolos. Mas eu peço: diga quem você foi. Assim, lá em cima, no mundo onde se pode voltar, ele poderá refrescar sua memória.

O tronco suspirou. Ou foi o vento? Não, definitivamente foi um suspiro.

— Você me adula com palavras doces — respondeu a árvore. — Não posso ficar calado. Eu sou aquele que segurou as duas chaves do coração de Frederico. Eu as virei, destrancando e trancando com tal delicadeza que afastei quase todos dos seus segredos. Fui leal ao glorioso ofício, a ponto de perder o sono e as forças.

Pier della Vigna, reconheci. O chanceler. O conselheiro íntimo.

— Mas a prostituta — a voz da árvore rangeu como metal enferrujado —, aquela que nunca desviou os olhos lascivos do palácio de César, a praga comum das cortes, incendiou contra mim todos os ânimos. E os ânios incendiaram Augusto. As honras felizes se tornaram luto amargo. Minha alma, por um gosto de desdém, pensou que com a morte fugiria da desonra. E me fiz injusto contra mim mesmo, que era justo.

Suicida. Estou diante de um suicida.

— Pelas raízes novas deste tronco — jurou ele —, nunca quebrei a fé com meu senhor, que foi tão digno de honra. E se algum de vocês voltar ao mundo, conforte minha memória, que jaz ainda ferida pelo golpe que a inveja lhe deu.

Fiquei em silêncio. A piedade me sufocava. Virgílio esperou um momento e depois se voltou para mim.

— Já que ele se calou — disse —, não perca tempo. Fale. Pergunte a ele o que mais quiser saber.

Olhei para o tronco, para o sangue que ainda escorria, para aquele homem que fora tão poderoso e agora era apenas casca e raiz. Abri a boca, mas nenhuma palavra saiu.

— Pergunte você — pedi ao meu mestre. — Pergunte o que acha que eu devo saber. Eu não consigo. Tanta piedade me oprime o coração.

Virgílio entendeu. Ele sempre entendia.

— Espírito aprisionado — começou ele, dirigindo-se à árvore. — Já que este homem fará o que você pediu, diga-nos como a alma se amarra a esses nós. E diga, se puder, se alguma delas se desprende algum dia desses membros.

Houve um longo silêncio. Então o tronco soprou um vento forte, e aquele vento se transformou em voz.

— Responderei breve. Quando a alma feroz se arranca do corpo que ela mesma se desligou, Minos a envia para o sétimo fosso. Cai na selva, sem escolher lugar. Onde o acaso a atira, ali germina como um grão de espelta. Brota como uma muda, como uma planta silvestre. As Harpias, comendo de suas folhas, lhe dão dor e abrem nela a janela da dor.

Eles se tornam árvores para sempre, compreendi. Presos num corpo que não escolheram.

— Por nossas próprias roupas viremos — continuou a voz —, mas não para vesti-las de novo. Não é justo ter o que a gente mesmo se tirou. Aqui arrastaremos nossos corpos e os penduraremos nesta selva triste, cada um no espinheiro da sua própria sombra dolorida.

Ficamos ali, atentos, esperando que ele dissesse mais. Mas o que veio não foram palavras. Foi um barulho. Como o caçador que ouve o javali e a matilha se aproximando, as bestas estourando a vegetação.

Do lado esquerdo, dois homens surgiram correndo. Estavam nus, cobertos de feridas e arranhões, rasgando a floresta como loucos. O da frente gritava:

— Morte, acode! Morte, acode já!

O outro, que parecia mais lento, berrou:

— Lano, como não foram ágeis tuas pernas nas justas do Toppo!

E então, ofegante, o segundo fugitivo se atirou contra um arbusto, enlaçando-se nele como se fosse um com a planta.

Foi nesse momento que a matilha chegou. Cadelas negras, esfomeadas, correndo como galgos soltos da corrente. Saltaram sobre o homem que se escondera no arbusto. Afundaram os dentes. E o dilaceraram, pedaço por pedaço, enquanto ele gritava. Depois, cada uma carregou sua porção sangrenta para as sombras.

Virgílio pegou minha mão. Me puxou até o arbusto onde o homem se escondera. O arbusto estava quebrado, sangrando, e chorava.

— Ó Jacopo da Sant’Andrea — dizia a planta, em prantos —, que adiantou você se proteger em mim? Que culpa tenho da sua vida ruim?

Meu mestre se deteve diante do arbusto dilacerado.

— Quem foi você? — perguntou. — Que por tantos espinhos solta um discurso doloroso com sangue?

O arbusto gemeu.

— Almas que chegaram para ver o meu desonesto esquartejamento — respondeu —, recolham as folhas que estão aos pés deste triste arbusto. Eu fui da cidade que trocou o primeiro padroeiro por São João Batista. Por isso ele, com sua arte, sempre a tornará triste. E se não fosse no passo do Arno ainda restar alguma estátua dele, aqueles cidadãos que reconstruíram a cidade sobre as cinzas deixadas por Átila teriam trabalhado em vão. Eu fiz da minha própria casa a minha forca.

Florentino, percebi. Outro suicida. Outro que se enforcou.

O vento soprava entre os galhos quebrados, e os gemidos das Harpias se misturavam ao choro das árvores. Olhei para minhas mãos. Ainda sentia o sangue do galho que arrancara.

— Seguimos — disse Virgílio, apertando meu ombro.

Eu não respondi. Apenas o segui, pisando em folhas que talvez fossem restos de almas, enquanto a floresta escura se fechava atrás de nós.