Canto XII
A encosta íngreme que se abria diante de nós parecia desafiar qualquer tentativa de descida. Pedras soltas, fragmentos de rocha escura e um declive tão abrupto que até o olho mais treinado recuaria em terror — era assim o lócus onde havíamos chegado, na borda do terceiro círculo.
Lembrei-me das avalanches que conhecia das histórias dos montanheses: aquela ruína que, perto de Trento, desabou sobre o Ádige, seja por terremoto ou por falta de sustentação, deixando a montanha tão despedaçada que do cume ao chão não há via possível para quem está acima. Exatamente assim se apresentava a descida para aquele fosso. E no extremo da borda fraturada, uma silhueta monstruosa se estendia contra o céu infernal.
A infâmia de Creta. O Minotauro.
A besta meio homem, meio touro, concebida dentro da falsa vaca de Pasífae. Quando nos viu, começou a morder o próprio corpo com fúria, contorcendo-se como quem é consumido pela raiva interior.
Meu mestre, sem hesitar, avançou e gritou:
— Achas que está diante do duque de Atenas, aquele que no mundo te deu a morte? Vai-te, besta. Este aqui não vem instruído por tua irmã. Ele passa para ver vossas penas.
O monstro estremeceu. Como um touro que acaba de receber o golpe mortal, que não consegue mais se firmar e salta de um lado para o outro — assim vi o Minotauro se debater. Virgílio aproveitou:
— Corre para a passagem. Enquanto ele enfurece, desce.
Avançamos pelo deslizamento de pedras que se moviam sob meus pés, instáveis, cedendo ao peso novo do meu corpo vivo. Cada passo ecoava em pequenos deslizamentos. Se isso desabar de vez, estou perdido, pensei, mas continuei, porque a alternativa era pior.
Lá embaixo, enquanto recuperava o fôlego, Virgílio adivinhou meus pensamentos.
— Você está pensando nessa ruína, vigiada pela fúria bestial que agora apaziguei. Saiba que da outra vez que desci ao baixo inferno, esta rocha ainda não havia caído. Pouco antes, se bem me lembro, da vinda Daquele que arrancou a grande presa de Dite no círculo superior, o vale inteiro tremeu com tanta força que pensei que o universo sentisse amor — aquele amor pelo qual alguns acreditam que o mundo várias vezes voltou ao caos. E nesse momento, esta velha rocha, aqui e em outros lugares, se desfez.
Olhei para baixo. O vale se abria em uma larga fossa em arco, abraçando todo o plano. E entre a borda e o fosso, correndo em patrulha, vi centauros. Flechas nos ombros, arcos em punho, vestidos como antigos caçadores. Assim que nos avistaram, pararam. Três se destacaram da fileira e, com arcos prontos, um gritou de longe:
— A que suplício vêm vocês que descem a encosta? Digam daí. Senão, atiro.
Meu mestre respondeu com calma:
— Responderemos a Quíron, lá perto. Sua vontade sempre foi má e apressada demais.
Então, tocando-me no ombro, sussurrou:
— Aquele é Nesso, que morreu pela bela Dejanira e fez ele mesmo sua vingança. O do meio, que se olha no peito, é o grande Quíron, que criou Aquiles. O outro é Folo, tão cheio de ira. Patrulham o fosso aos milhares, flechando qualquer alma que se levante do sangue mais do que sua culpa permite.
Aproximamo-nos. Quíron tomou uma flecha e, com a ponta do cabo, afastou a barba para trás, revelando a boca enorme. Ele nos observou com olhos que viam além da superfície.
— Perceberam que o que vem atrás move o chão que toca? Assim não costumam fazer os pés dos mortos.
Virgílio já estava ao lado do centauro, na altura onde as duas naturezas se unem.
— Ele é vivo — respondeu meu guia —, e sozinho preciso mostrar a ele este vale escuro. Necessidade o conduz, não prazer. Alguém que partiu de cantar aleluia me confiou esta tarefa nova. Ele não é ladrão, nem eu alma fujona. Por aquela virtude que move meus passos por esta estrada selvagem, dá-nos um dos teus, que nos mostre onde se pode vadear e que leve este em sua garupa, pois ele não é espírito que voe pelo ar.
Quíron virou-se sobre o peito direito e ordenou:
— Nesso, volte e guie-os. E faça com que outras fileiras se desviem se os encontrarem.
Montamos na garupa do centauro. Movemo-nos ao longo da borda do fervor vermelho, onde os borbulhantes soltavam gritos agudos. Vi gente submersa até as sobrancelhas.
— Esses são tiranos — disse Nesso — que puseram mãos no sangue e nas riquezas. Aqui se choram as penas impiedosas. Ali está Alexandre, e Dionísio, o feroz, que fez a Sicília sofrer anos dolorosos. Aquela fronte de cabelo tão negro é Azzolino. O outro, loiro, é Opizzo d’Este, que foi morto pelo enteado no mundo.
Olhei para o poeta, e ele me disse:
— Este agora é o primeiro, e eu o segundo.
Seguimos. Mais adiante, o centauro parou sobre um grupo que emergia até a garganta daquela fervura. Mostrou uma sombra solitária de lado.
— Esse aí traspassou, no seio de Deus, o coração que ainda no Tâmisa se venera.
Depois vi gente que mantinha a cabeça e o tórax para fora do rio. Reconheci muitos. O sangue se tornava mais raso gradualmente, até cobrir apenas os pés. Ali seria nossa travessia.
— Assim como vê desta parte o fervor que sempre diminui — disse o centauro —, saiba que da outra parte o fundo desce cada vez mais, até onde a tirania geme. A justiça divina ali atormenta Átila, que foi flagelo na terra, e Pirro, e Sexto, e eternamente ordenha as lágrimas que o borbulhar liberta de Rinier da Corneto e Rinier Pazzo, que fizeram tantas guerras nas estradas.
Nesso então se virou, atravessou de volta o vau, e nós continuamos.