Canto XI
O cheiro me atingiu antes mesmo que eu pudesse processar o que meus olhos viam. Uma parede de fedor subia do abismo, tão densa e podre que parecia ter consistência, como se pudesse ser cortada com uma faca. Nos encontrávamos no limite extremo de uma alta borda formada por grandes pedras quebradas dispostas em círculo, e abaixo de nós se estendia um amontoado de sofrimento ainda mais cruel do que tudo o que havíamos visto até então. Meus pulmões queimavam. Minha garganta se contraía em espasmos involuntários.
— Precisamos descer devagar — Virgílio disse, recuando alguns passos. — Deixa teu sentido se acostumar um pouco com esse hálito horrível. Depois, não teremos que nos preocupar.
Busquei abrigo próximo a uma enorme sepultura, cuja tampa de pedra nos protegia parcialmente da pestilência que subia das profundezas. Foi então que notei uma inscrição gravada na lápide, e as palavras saltaram aos meus olhos como um presságio: “Guardo o Papa Anastácio, aquele que Fótino desviou do caminho reto.” Senti um arrepio percorrer minha espinha. Até mesmo os papas, pensei. Até mesmo os mais altos representantes de Deus na Terra não escapavam do julgamento.
— Mestre — disse, tentando controlar a náusea que subia pela minha garganta —, encontra algum modo de não deixarmos o tempo passar em vão enquanto nos adaptamos a esse fedor.
— Vê que já estou pensando nisso — ele respondeu, e seus olhos fixaram os meus com aquele brilho de quem está prestes a desvendar um grande mistério.
Virgílio se aproximou, apoiou uma mão fria em meu ombro e começou a falar em tom grave, didático, como um professor que prepara seu aluno para uma prova cruel.
— Filho meu, dentro dessas rochas existem três pequenos círculos, dispostos em graus, como aqueles que você deixou para trás. Todos estão cheios de espíritos malditos. Mas para que tua visão seja suficiente quando chegarmos lá, preciso que entenda como e por que eles estão condenados dessa forma.
Respirei fundo, tentando ignorar o fedor que parecia piorar a cada palavra.
— O fim de toda malícia que o céu odeia é a injustiça. E cada injustiça se faz de duas maneiras: com força ou com fraude. Mas porque a fraude é o mal exclusivo do homem, ela desagrada mais a Deus. Por isso, os fraudulentos estão mais embaixo, sofrendo dores maiores.
Fechei os olhos por um instante, gravando cada sílaba.
— O primeiro círculo é todo de violentos. E como a violência pode ser feita contra três tipos de pessoas, ele se divide em três anéis. Violência contra Deus, contra si mesmo ou contra o próximo — e contra suas propriedades, como ouvirás explicado claramente.
Minha mente começava a desenhar o mapa do inferno, peça por peça.
— Ao próximo se dá morte violenta e feridas dolorosas. E em seus bens, ruínas, incêndios e saques danosos. Por isso, assassinos e todos os que ferem maldosamente, saqueadores e ladrões, todos são atormentados no primeiro anel, divididos em diferentes grupos.
Lembrei das almas que havíamos visto afogadas no sangue fervente, os tiranos e assassinos. Agora fazia sentido.
— O homem pode usar violência contra si mesmo e contra seus próprios bens. Por isso, no segundo anel, se arrepende sem proveito quem priva a si mesmo do vosso mundo, quem perde tudo no jogo e esbanja sua fortuna, e chora onde deveria estar alegre.
Pensei nos suicidas transformados em árvores retorcidas, nos pródigos perseguidos por cadelas famintas. A geometria do sofrimento se revelava.
— Pode-se fazer força contra a divindade, negando-a com o coração e blasfemando contra ela, desprezando a natureza e sua bondade. Por isso, o menor anel sela com seu signo Sodoma e Cahors e todos os que falam desprezando a Deus no coração.
Senti um nó na garganta. Os violentos contra Deus, os sodomitas e os usurários. Lembrei da areia escaldante e da chuva de fogo.
— Quanto à fraude, que rói a consciência de todos, o homem pode usá-la contra aquele que confia nele ou contra aquele que não deposita confiança alguma. Esse segundo modo parece romper apenas o vínculo de amor que a natureza cria. Por isso, no segundo círculo se aninham hipocrisia, lisonjas e feiticeiros, falsários, ladrões e simoníacos, rufiões, trapaceiros e imundícies semelhantes.
Minha cabeça girava, mas era uma vertigem de compreensão.
— Pelo primeiro modo, esquece-se aquele amor que a natureza cria e aquele que depois se acrescenta, de que nasce a confiança especial. Por isso, no círculo menor, que é o ponto do universo onde Dite está sentado, todo traidor é consumido pela eternidade.
Fiquei em silêncio por um longo momento, digerindo aquela lição. O fedor parecia ligeiramente mais suportável agora, ou talvez minha mente estivesse tão ocupada que eu simplesmente havia parado de notá-lo.
— Mestre — comecei, sentindo a gratidão inundar meu peito —, teu raciocínio avança claríssimo e distingues muito bem este baratro e o povo que ele possui. Mas explica-me uma coisa.
Ele me olhou, paciente.
— Aqueles do pântano gordo, que o vento agita, que a chuva golpeia, e que se encontram com línguas tão ásperas — os irados, os preguiçosos, os luxuriosos, os gulosos, os avarentos —, por que não são punidos dentro da cidade vermelha, se Deus os tem em ira? E se não os tem, por que estão nesse estado?
Virgílio me fitou com uma expressão que misturava decepção e afeto.
— Por que teu engenho divaga tanto do que costuma? Ou tua mente olha para outro lugar? Não te lembras daquelas palavras com as quais tua Ética trata as três disposições que o céu não quer: incontinência, malícia e a louca bestialidade? E como a incontinência ofende menos a Deus e merece menos culpa?
Senti o sangue subir ao rosto. Claro. Aristóteles. As três categorias. Como pude esquecer?
— Se considerares bem essa sentença — continuou Virgílio — e trouxeres à mente quem são aqueles que lá fora, acima, sofrem penitência, verás bem por que estão separados destes maus e por que a divina vingença os martela com menos crueldade.
Ele tinha razão. Os pecadores dos círculos superiores eram os incontinentes: aqueles que não conseguiram controlar seus apetites, suas paixões, suas emoções. Pecados graves, sim, mas que ofendiam menos a Deus do que a malícia calculada e a bestialidade violenta dos que estavam abaixo. Uma hierarquia do sofrimento que também era uma hierarquia da culpa.
— Ó sol que curas toda visão turvada — disse, sentindo algo parecido com alegria naquele lugar de desespero —, tu me satisfazes tanto quando me explicas que não me agrada menos duvidar do que saber. Mas ainda preciso que voltes um pouco atrás, onde disseste que a usura ofende a bondade divina. Desata esse nó para mim.
Virgílio sorriu. Um sorriso pequeno, quase imperceptível, mas genuíno.
— Filosofia — disse —, para quem a entende, nota, e não apenas numa única parte, como a natureza segue seu curso a partir do intelecto divino e de sua arte. E se leres bem a tua Física, encontrarás, não depois de muitas páginas, que vossa arte, quanto pode, segue a natureza assim como o discípulo segue o mestre. De modo que vossa arte é quase neta de Deus.
Puxei o ar, e desta vez o fedor não me incomodou tanto. Ou talvez fosse apenas a força daquelas palavras.
— Destas duas — a natureza e a arte —, se trouxeres à mente o Gênesis desde o princípio, é preciso que a humanidade tire seu sustento e progrida. E porque o usurário segue outro caminho, despreza a natureza e sua seguidora — a arte —, pois coloca sua esperança em outra coisa.
O golpe caiu como uma luva. A usura não era apenas ganância; era uma violação da ordem natural e divina do trabalho e da criação. O usurário não produz nada, não transforma a natureza pelo trabalho, não segue o fluxo da vida que Deus estabeleceu. Ele aposta no dinheiro que gera dinheiro, um atalho sujo que despreza a própria essência da existência humana.
— Agora segue-me — Virgílio disse, e sua voz tinha pressa repentina. — O caminho me agrada. Os Peixes já se movem no horizonte, e o Carro está inteiramente sobre o Corso. A descida é logo ali adiante.
Olhei para o céu escuro, tentando imaginar as constelações por trás da escuridão. Não vi nada além de trevas, mas confiei em seu conhecimento ancestral.
Levantei-me, sentindo os músculos dormentes reclamarem. O cheiro ainda era horrível, mas suportável agora. Meu guia já se movia em direção à borda, e eu o segui, cada passo um ato de fé naquela geometria divina que começava a fazer sentido dentro de mim. A descida nos esperava. E eu sabia, com uma certeza que ia além da razão, que o pior ainda estava por vir.