Canto X

Seguíamos agora por um corredor secreto, aberto entre o muro da cidade e os círculos de tormento. Meu mestre caminhava à frente, e eu, logo atrás, tentando não perder de vista suas costas na penumbra avermelhada que subia das profundezas.

— Ó virtude suprema — comecei, sentindo o eco de minha própria voz se perder entre as paredes de pedra —, você que me guia por estes círculos ímpios como lhe apraz, fale comigo e responda aos meus desejos. Essa gente que jaz nos sepulcros, seria possível vê-los? Todos os tampas estão levantados, e ninguém faz guarda.

Virgílio respondeu sem hesitar:

— Estarão todos fechados quando voltarem do Vale de Josafá com os corpos que lá em cima deixaram. Nesta região estão sepultados Epicuro e todos os seus seguidores, que afirmam que a alma morre com o corpo. Por isso, o que você me pergunta e o que ainda não ousou dizer serão respondidos em breve.

Ele sabe que escondo alguma coisa. Não conseguia enganar meu mestre, nem tinha vontade de tentar.

— Bom guia — confessei —, não escondo nada do seu coração, exceto para não falar demais. E você já demonstrou estar disposto a me ouvir.

Antes que pudesse continuar, uma voz emergiu de um dos sarcófagos. Não um sussurro, mas um som firme, autoritário, que cortou o ar quente e seco:

— Ó toscano, que segues vivo pela cidade do fogo falando com tanta honestidade, detém-te neste lugar. Tua fala revela que pertences àquela nobre pátria à qual talvez eu tenha sido hostil demais.

Meu coração disparou. Aproximei-me, temendo, um pouco mais do meu guia. Virgílio, porém, permaneceu imperturbável.

— Volte-se! — ordenou. — O que faz? Veja ali Farinata. Ele se ergueu. Da cintura para cima, poderá vê-lo por inteiro.

Fixei o olhar na direção indicada. Uma sombra se elevava entre os túmulos, com o peito e a fronte eretos como se tivesse o próprio Inferno em desprezo. Ali estava Farinata degli Uberti, o magnânimo, o homem que, segundo diziam, enfrentara sozinho a fúria de Florença.

As mãos corajosas e ágeis do meu mestre empurraram-me entre as sepulturas até a sua altura.

— Que suas palavras sejam comedidas — advertiu Virgílio.

Aproximei-me do pé da tumba. Farinata me observou por um instante, com um ar que beirava o desdém, e perguntou:

— Quem foram os seus maiores?

Quer saber minha linhagem. Não hesitei. Desejava obedecer, e não escondi nada. Abri meu coração por completo. Ele ergueu ligeiramente as sobrancelhas, e então:

— Foram ferozmente adversos a mim, aos meus antepassados e ao meu partido. Por duas vezes os dispersei.

A provocação ardia em meu peito, mas respondi com firmeza:

— Se foram expulsos, eles retornaram de ambas as vezes. Os seus, porém, nunca aprenderam bem essa arte.

Farinata franziu o cenho, mas antes que pudesse retrucar, uma outra sombra surgiu ao lado dele, erguendo-se até o queixo. Devia estar de joelhos. Seus olhos percorreram o espaço ao redor, como se procurasse alguém. Quando percebeu que estávamos sozinhos, sua voz rompeu em pranto:

— Se caminhas por esta prisão cega graças à altura do teu engenho, onde está meu filho? Por que não está contigo?

Cavalcante. Reconheci o desespero do pai de Guido, meu amigo. Apertei as mãos para conter a emoção.

— Não venho por mim mesmo — expliquei, apontando para trás. — Aquele que ali espera me conduz. Talvez Guido, seu filho, o tenha tido em desdém.

O efeito foi imediato. O espírito se ergueu de súbito, gritando:

— Como? Você disse “tenha tido”? Ele ainda não vive? A doce luz não fere mais os seus olhos?

Vi o terror se espalhar por seu rosto. Hesitei por um instante, e esse silêncio foi suficiente. Cavalcante caiu de costas, desfez-se em seu túmulo, e não apareceu mais.

Farinata, porém, não se moveu. Continuava ali, magnânimo como antes, sem alterar o semblante, sem curvar o pescoço ou dobrar o flanco. Retomou o fio da conversa como se nada tivesse acontecido:

— Se eles nunca aprenderam bem essa arte — disse —, isso me atormenta mais do que este leito de fogo. Mas antes que se apague cinquenta vezes o rosto da senhora que aqui reina, você saberá quanto pesa essa arte. Agora me diga: por que o povo florentino é tão ímpio contra os meus em todas as suas leis?

Senti o peso da pergunta. Era um homem que amava sua cidade, mesmo condenado.

— A carnificina e o grande massacre que tingiram o Arbia de vermelho — respondi — é que inspiram tais preces em nosso templo.

Ele balançou a cabeça, suspirando.

— Não fui o único naquela batalha, e certamente não teria me juntado aos outros sem razão. Mas fui o único, lá onde todos concordavam em aniquilar Florença, a defendê-la de peito aberto.

Isso é verdade. Conhecia a história. Depois da batalha de Montaperti, enquanto os gibelinos celebravam a vitória, Farinata se opôs à destruição da cidade. Sozinho. E venceu.

— Deh, se um dia sua linhagem tiver descanso — supliquei —, desfaça o nó que enreda meu pensamento. Parece que vocês veem, se bem entendo, o que o tempo traz consigo, mas ignoram o presente.

Seu olhar se tornou distante.

— Nós vemos, como quem tem visão imperfeita, as coisas que estão longe. Ainda nos ilumina o Supremo Senhor. Mas quando os eventos se aproximam ou acontecem, nosso intelecto é vão. Se alguém não nos traz notícias, nada sabemos do vosso estado humano. Por isso, compreenda: todo o nosso conhecimento morrerá quando se fechar a porta do futuro.

Então não sabem o que acontece agora. A ficha caiu. Foi por isso que Cavalcante pensou que Guido estivesse morto.

— Diga então àquele que caiu — falei, sentindo o peso da culpa — que seu filho ainda vive. E se fiquei mudo antes na resposta, saiba que foi porque já pensava no erro que você acabou de esclarecer.

Virgílio me chamava às pressas. Aproveitei para perguntar ao espírito quem mais jazia com ele.

— Aqui com mais de mil — respondeu Farinata. — Dentro está o segundo Frederico e o Cardeal. Dos outros, me calo.

E então se recolheu à tumba.

Voltei para o meu guia, ainda atordoado com tudo o que ouvira. Caminhamos em silêncio por alguns passos, até que ele perguntou:

— Por que está tão desorientado?

Contei-lhe tudo, os diálogos, as profecias veladas, a dor de Cavalcante. Virgílio ouviu em silêncio e depois ordenou:

— Que sua mente conserve o que ouviu contra você. E agora preste atenção — ergueu o dedo indicador —: quando estiver diante do doce raio daquela cujo belo olho tudo vê, por ela saberá o caminho de sua vida.

A promessa me trouxe algum alívio. Virgílio virou para a esquerda, abandonamos o muro dos sepulcros e seguimos em direção ao centro por uma trilha que descia a um vale. De lá de baixo, subia um fedor insuportável, que já se fazia sentir lá de cima.

O próximo círculo nos aguarda. Respirei fundo, e continuei seguindo meu mestre.